Os “ismos” nossos de cada dia

Em 03.05.2016   Arquivado em Revolucione

Oi pessoal!

O primeiro post (com conteúdo, por assim dizer), do blog era para ser sobre um livro muito especial. O texto tá esquematizado, mas acabou que um assunto que vem me pentelhando há algum tempo, chegando ao ápice dos absurdos nos últimos dias, precisa ser compartilhado. Daí, não teve jeito, bora rabiscar as ideias.

Começando do começo, vamos lá:

“[…] o sufixo –ismo era utilizado na língua grega como –mós e a língua latina recebeu esse sufixo do grego, mas não adotou as regras que regiam o uso dele no grego. Percebe-se, então, que o sufixo –ismo, com sua origem na língua grega, resistiu às traduções dos textos gregos para o latim, mesmo quando este entrou em contato com outras línguas e foi transformado em línguas românicas. Assim, os sufixos –ismo e –(i)dade se afirmam como elementos produtivos no português, especialmente, pela carga semântica conferida àquele, e à neutralidade e generalidade conferida a este último. […] –ismo, […] é termo “partidário”, com aspectos ideológicos bem marcados, com a formação de palavras que podem indicar doutrina, sistema, teoria e patologia, e o aspecto categorial de formar substantivo de substantivo e de adjetivo. […]” – Grifo nosso. (Fonte: Araujo, 2012).

Resumidamente, o sufixo “ismo”, não se restringe a tradicional e errônea (quando vista de modo exclusivo), associação a doenças. O que, invariavelmente, reveste de significado pejorativo muitas palavras que, em sua origem, não incluem tal sentido.

“[…]palavras com essa terminação indicam que uma ideologia é seguida, que existe algo consolidado como regra ou, pelo menos, que se acredita ser uma regra. Assim temos o positivismo, catolicismo, presidencialismo, helenismo, jornalismo, etc. (Fonte: Garcia, 2010).

Ou seja, diversas são as palavras que se compõem se tal sufixo, com os mais diversos significados, não tendo, o “ismo”, necessariamente que indicar uma doença ou condição e, ainda que isso possa vir a ocorrer, fato ainda que, como já dito, não necessariamente indicará algo ofensivo. Bem, interiorize essa informação, mais tarde voltamos nela.

Claro, quais palavras com “ismo” estou me referindo hoje? Se você ainda não imaginou, segue aqui: machismo e feminismo. Salvo a colocação do sufixo, lhes conferindo grande significado, não poderiam ser mais opostas. Melhor, não apenas opostas, mas totalmente, ideologicamente falando, contrárias.

Antes de falar de cada um deles, explico que a razão de toda minha indignação acumulada, se resume em uma imagem que vi na minha timeline do Facebook:

pra q

O que está escrito é errado em tantos níveis que é difícil elencar todos eles. Semanticamente, vamos nos ater a errônea aferição do sufixo “ismo” e, em se tratando de conteúdo é tão, mas tão errado, grotesco que chega a doer minhas vistas. Tanto que pensei inicialmente em não colocar a imagem aqui, ia só descrever. Mas acho que quem ler isso aqui, precisa ter noção do que estou falando.

Em definição rápida, daquelas buscadas no Mr. Google mesmo, do tipo que qualquer pessoa hoje em dia tem acesso, machismo é a qualidade, ação ou modos de macho, macheza; exagerado senso de orgulho masculino, virilidade agressiva. Talvez se a ideia fosse expressar a necessidade (inexistente, por óbvio) de se lutar pelos direitos do homem, no sentido de gênero, seria ideal que se usasse masculinismo, quem sabe… Mas, por razões óbvias, as quais já falarei, o machismo não busca nenhum tipo de igualdade ou direitos. O machismo nada mais é do que a afirmação de que o homem é superior a mulher, tanto intelectualmente, quanto fisicamente. E essa “simplicidade” aparente resulta nos mais escabrosos crimes, que defendem toda essa macheza, assim como na mais absurda e inegável desigualdade entre homens e mulheres. Desigualdade essa que vai desde as “obrigações” embutidas pela cultura machista às mulheres no âmbito doméstico e familiar em especial, passando pelas cobranças excessivas, desmoralizantes e repressivas de padrões estéticos, a desvalorização da mão de obra feminina no mercado de trabalho e tantas mas tantas outras questões que demoraria dias para discorrer todas elas, correndo o risco de não criar uma listagem completa o suficiente.

Agora, passemos a uma rápida e educativa elucidação do que vem a ser feminismo, recorrendo, novamente, à simplista definição do Mr. Google: feminismo é doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade; movimento que milita neste sentido. Engraçado que eu não li nada que corresponda a: qualidade, ação ou modos de mulher, mulherzice; exagerado senso de orgulho feminino, libido feminina (quem sabe???). Não sei se está claro o suficiente, mas isso já demonstra a enorme diferença entre uma coisa e a outra. Se precisar, mesmo não desenhando bem nem bonecos palito, dou um jeito e desenho, é só pedir! Para quem ainda tem dúvidas do que esse tal de movimento feminista busca, luta e milita, é a igualdade de gêneros. Que as mulheres sejam reconhecidas, no mercado de trabalho, na vida doméstica e amorosa, na família, na sociedade, como indivíduas tão capazes e iguais tais como os homens são vistos. E ninguém quer retirar direitos dos homens para isso (salvo quando esses afetam os dos demais), queremos ter os mesmos direitos. Queremos que a paternidade inclua tantas responsabilidades que a maternidade. Queremos conseguir um emprego por nosso currículo, esforço e não por nossa aparência. Queremos igualdade de oportunidades, igualdade de reconhecimento, igualdade de salários. Queremos igualdade. E é nesse querer que já conquistamos tantas coisas e temos ainda um mundo inteiro a ser conquistado. Não, não estamos excluindo os homens desse mundo a ser conquistado. Queremos que o nosso lugar seja o mesmo deles, que o mundo seja tão deles quanto nosso, que, como mulher, eu seja livre para ser como eu quiser, para agir como eu quiser, porque eu quiser e quando eu quiser.

E por favor, não me venham com comparações toscas e sem sentido de que os pobres meninos cresceram também com estereótipos masculinos a serem seguidos, tais como ser musculoso e sarado como o Super Man. Não conheço um homem sequer que já tenha, de fato, se queixado de ter sofrido em qualquer momento da sua vida, por ter que se tornar o “estereótipo” do He-man e não ter conseguido. E claro, ser durante criticado pela sociedade por isso. Se tiver algum caso verídico, fico realmente interessada em conhecer.

Detalhes à parte, o que quero deixar claro aqui hoje é a necessidade infindável de conscientizar. Feminismo não é desejar superioridade, não é criar uma nova era de guerra dos sexos. É defender que toda mulher é tão ser humano quanto qualquer homem, é tão digna de direitos quanto àqueles.

E respondendo a pergunta “Se o machismo não é bom, por quê o feminismo seria?”. É bem simples, buscar a igualdade e respeito mútuo é totalmente diferente de se auto-vangloriar, através de superestimados valores distorcidos de “virilidade masculina”, que apenas visam afirmam o lugar-comum em que mulheres vivem oprimidas e, em alguns casos, muito infelizmente, como opressoras ao lado da sociedade machista e do homem opressor.

Falo de mulheres opressoras (de si mesmas e das demais mulheres) quando valorizam o status quo de inferioridade ao qual somos continuamente submetidas, ao entenderem que esse é o normal e ideal. Não por culpa delas, mas pelo eficiente trabalho que o machismo vem fazendo ao longo de décadas e décadas de submissão e subjugação feminina. Cada vez mais descobrimos mulheres com discursos anti-feministas e machistas, que cultuam o desprezo pela igualdade dos gêneros. Eu, só tenho a dizer para elas: vamos abrir nossos olhos, nossas mentes e nossos corações.

Talvez seja realmente válido desejar um mundo com menos “ismos” quando isso significar, no caso do machismo, a sua inexistência e do feminismo, que já não precisamos dele, porque, de fato, a igualdade já foi conquistada.

Ps.: Não cheguei nem perto de esgotar o que podemos debater acerca da discussão “feminismo x machismo”, então, quem quiser, fique à vontade também!

Ouvindo: Cherry Wine – Hozier

  • Luly

    Em 03.05.2016

    Tenho duas coisas a adicionar depois de ler seu texto porque é o que tá martelando na minha cabeça. Eu podia dizer 500mil coisas, mas essas duas precisam sair de qualquer jeito.
    Mas antes mesmo disso devo dizer logo de uma vez, porque não sei quem mais vai ler esse comentário: eu sou uma feminista assumida. Demorei muito para entender o sentido dessa palavra e mais algum tempinho para ter coragem de usá-la realmente, mas hoje eu a uso TODOS OS DIAS. Ela é parte de mim, parte dessas que não dá mais pra sair. Posso dizer, quem sabe, que hoje sou uma militante do feminismo. Então nem preciso dizer o quão bom foi ler esse texto sobre essa imagem específica que, claro, rodou minha timeline também e, ÓBVIO, me fez debater sobre o assunto no post que a vi.
    Agora sim. Coisa número 01) Eu sempre adiciono a “liberdade” também. Sei que a base do feminismo é a igualdade, mas quando eu vou explicá-lo tiro uma licença poética e boto a liberdade no meio. Acho que essa palavra é importante principalmente para as pessoas que estão conhecendo sobre o assunto agora e ainda estão no “estágio 01” do feminismo, onde muitas vezes tudo é extremo. Essas são as que mais precisam entender que queremos que as mulheres sejam iguais nos seus direitos e LIVRES para ser duas coisas: quem e o que elas quiserem.
    E o número 02 já está implícito no seu texto, então pensando bem nem é uma adição. É mais um comentário mesmo. O que os homens precisam entender é que essa “opressão” (aspas, aspas, aspas) que eles sofrem TAMBÉM é fruto do machismo. A necessidade de ser “machão alfa”, o alistamento obrigatório no exército, aposentadoria mais tarde. Entre outras coisas… Eles reclamam com o movimento feminista sobre isso mas não percebem o quão machista são esses e tantos outros pensamentos. Acho que quando essa percepção acontecer, ai que dia lindo, eles vão começar a lutar contra nosso sistema patriarcal machista também.
    Adorei a REflexão. Continue!

  • Retipatia

    Em 03.05.2016

    Muito bem colocado Luly. A liberdade faz parte do movimento sim, tanto quanto a igualdade. Identificar a liberdade como um dos pilares do feminismo é essencial, apesar de não ter usado a palavra, é isso que quero dizer quando falo da possibilidade de ser livre no agir e no ser, quando e como quiser. Igualdade e liberdade andam juntas, a opressão tira a liberdade feminina e a masculina também, em vários aspectos, mas ver isso é uma grande dificuldade para as pessoas, de modo geral. Elas não entendem que a igualdade visa beneficiar ambos os lados, que a vida de todos será melhor assim. E claro, feliz de saber que você é feminista assumida! Isso é muito importante. Eu era feminista em vários aspectos na minha vida, que sempre me incomodaram tanto, de um jeito tão absurdo, que às vezes parecia apenas revolta com a vida. Mas com o tempo, fui percebendo que isso tem nome, se chama feminismo e que visa igualdade. E estou em constante aprendizado desde então e pretendo continuar, como deve ser.

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