Os blues do Djavan e a Luz de Tieta

Em 22.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Fico a divagar sobre as pessoas. Não de me preocupar se desperdiçam os blues do Djavan ou com quem se deita.

Importo-me com o que fazem dentro de si, se o olhar que atravessa janela do ônibus tem sentido por causa dos fones dos ouvidos ou se o gole da cerveja do boteco de copo sujo chique na segunda-feira, é de cevada menos amarga que a de domingo.

Não sei, talvez seja coisa da minha cabeça pensar porque o rapaz está entre as portas do próprio prédio, sem nem vir nem ir. Mas estranho mesmo é que sempre acabo tentando entender porque algumas casas tem duas portas, nos fazendo entrar duas vezes nelas.

Tento ler o título do livro da colega ao lado e lembro da garota que me perguntou o que eu lia no ponto de ônibus. A parte boa é que ela se desprendeu pelo título, ele gastou meus minutos mesmo sem valer a passagem dos olhos. Só que dizem que tudo agrega, que tudo que se lê passa a fazer parte da gente, a nos compor. Acho que fiquei descomposta. (mais…)

Fumaça, Cinza e Coca-Cola

Em 16.08.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Saindo do trabalho algumas dezenas de minutos depois do habitual, paro no passeio, esperando a maré de carros cessar enquanto abria a bala que iria comer no ônibus – enquanto ler-ia –  e tinha à mente uma trivialidade qualquer que me levaria a analisar o glitter prateado de meus sapatos e à constatação, não muito revestida de novidade, de que tenho especial apreço por vestimentas na cor cinza – calçados inclusos – e, no soar do plástico que envolve a massa cor de rosa, o chiado da pólvora a incendiar se faz presente.

Num gesto automaticamente antipático, que vem depois do olhar de esguelha que identifica o sujeito alinhado da ação torpe, que agora incendeia o cigarro que é aparado na mesma mão em que jaz uma lata de Coca-Cola, espanto o ar para tentar espalhar o resquício já conhecido do cheiro do apagar do fósforo que tanto me faz pensar de ser esta a pior parte de se acender uma vela, fato este acompanhado de um singelo passo para trás na vã tentativa de evitar a fatídica primeira baforada que sempre se segue à primeira tragada. A cabeça que sai do terno repete meu olhar de esguelha, mas a mão livre da Coca abana a fumaça que vivamente, como se soubesse de minha fuga e me persegue, agindo como reflexo constrangido à antipatia. Abanada a fumaça, cigarro abaixado junto da lata, vai passos para trás. (mais…)