Fumaça, Cinza e Coca-Cola

Em 16.08.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Saindo do trabalho algumas dezenas de minutos depois do habitual, paro no passeio, esperando a maré de carros cessar enquanto abria a bala que iria comer no ônibus – enquanto ler-ia –  e tinha à mente uma trivialidade qualquer que me levaria a analisar o glitter prateado de meus sapatos e à constatação, não muito revestida de novidade, de que tenho especial apreço por vestimentas na cor cinza – calçados inclusos – e, no soar do plástico que envolve a massa cor de rosa, o chiado da pólvora a incendiar se faz presente.

Num gesto automaticamente antipático, que vem depois do olhar de esguelha que identifica o sujeito alinhado da ação torpe, que agora incendeia o cigarro que é aparado na mesma mão em que jaz uma lata de Coca-Cola, espanto o ar para tentar espalhar o resquício já conhecido do cheiro do apagar do fósforo que tanto me faz pensar de ser esta a pior parte de se acender uma vela, fato este acompanhado de um singelo passo para trás na vã tentativa de evitar a fatídica primeira baforada que sempre se segue à primeira tragada. A cabeça que sai do terno repete meu olhar de esguelha, mas a mão livre da Coca abana a fumaça que vivamente, como se soubesse de minha fuga e me persegue, agindo como reflexo constrangido à antipatia. Abanada a fumaça, cigarro abaixado junto da lata, vai passos para trás. (mais…)