Conto ♥ Lucidez

Em 14.02.2017   Arquivado em Contos

Sugestão de música para ouvir enquanto lê: Skinny Love – Birdy

O amor é uma distração. Uma muito boa. Uma distração muito boa para tudo que aconteceu, de tudo que você quer esconder. Ainda assim, não passa de uma distração.

As pessoas costumam insistir que há algo belo e irremediavelmente apaixonante no amor. Bem, se estiverem falando em certos tipos de amor, como aquele que temos por cachorros e gatos ou aquele que a gente aprende do berço para com os parentes mais próximos… mas a questão é que nunca estão. Sempre se referem ao amor hollywoodiano, ao amor que Jane Austen descreve, ao amor de Bentinho e Capitu, até, ou mesmo àquele amor de todo dia que esperam encontrar na esquina do trajeto ao trabalho, na cafeteria, no próprio trabalho, na balada. Talvez tenha me esquecido dos amores salvadores, que aparecem logo antes de alguém morrer. Porque, obviamente, morrer sem ter amado – este tipo de amor, fique claro – é absurdo e inimaginável.

Não, talvez eu não esteja sendo sincera e verdadeira. Qualquer tipo de amor é distração. Se ama muito, se vive pouco, apesar do que dizem. A questão toda é, o quanto se é capaz de fazer por amor? (mais…)

Conto ♥ Call It Magic

Em 31.01.2017   Arquivado em Contos

Leia ouvindo: Call It Magic – Coldplay

Um suspiro ruidoso, difícil, forçado. Foi o último, de toda forma. Minha memória auditiva nunca funcionou tão bem. Mas este não é o tipo de som que se esquece. É do tipo que fica gravado, desejando ou não.
– Está pronta? – O som da voz de Clara me desperta.
Balanço a cabeça em positivo, mas respondo mesmo assim.
– Sim, estou pronta.
Saímos de casa e o vento está abafado do lado de fora, dentro do sedã está, literalmente, um forno.
Ligo o ar condicionado e deixo as janelas abertas até o ar abafado se dispersar. Assim que o ar melhora, subo as janelas. Clara liga o rádio, mas aperto o botão para desligar logo em seguida.
Ela suspira contrariada e começa a mexer em seu Smartphone. Adolescentes são assim, suponho. Não lembro particularmente de como eu era, ainda mais porque, na minha época, não existiam tantos aparelhos eletrônicos. Não que isso justifique qualquer coisa.
O caminho é ensolarado e dirijo por quatro horas seguidas, parando já quase na hora do almoço. O ar está ainda mais abafado aqui.
Nos sentamos no restaurante de beira de estrada e um rapaz que deve ter a idade de Clara nos entrega os cardápios com a expressão mau humorada.
Ela escolhe batatas e um sanduíche e eu peço o mesmo. Não estou com fome realmente, não tenho fome há muito tempo.
– O que eles fazem, de especial? – Ela pergunta.
– Quem? – Às vezes não sei se ela está falando comigo ou com seu telefone.
– O circo, ou seja lá o que for que estamos indo ver.
– Não é um circo, é um parque. – Corrijo.
– E o que têm de especial nele? Pesquisei e não vi nada legal, nem um pouco próximo do Cirque du Soleil.
Mimada.
– Não, não tem. Não é um circo, Clara.
– Mas você disse que era mágico. Você usou exatamente esta palavra.

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Conto ♥ Porta Aberta

Em 17.01.2017   Arquivado em Contos, Projetos

Sugestão de música para leitura: Good Riddance (Time of Your Life) – Green Day

O sol está nascendo no horizonte no topo da colina em bonitos tons alaranjados que se fundem com o cinza enquanto coloco a água quente na caneca e depois adiciono dois sachês de camomila. A fragrância é tranquilizadora e promete que o dia será leve, apesar de tudo.

Como mamãe sempre dizia, “começar com um pensamento positivo, é sempre metade do caminho”. Talvez seja, de fato. A dificuldade, porém, reside no fato de que não fomos ensinados a isso.

Um minuto depois papai entra na cozinha, com certeza já alimentou todos os animais e já está carregando uma cesta pequena com alguns ovos e o leite em uma lata.

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Conto ♥ Ligação

Em 10.01.2017   Arquivado em Contos, Projetos

Sugestão de música para leitura: Broods – Mother & Father

“O que há de ser, será.”

Essas foram as últimas palavras que saíram da boca dela. Sempre fora assim, algo inócuo e mais clichê do que os ditados populares. Como se uma força misteriosa definisse todo o nosso destino. Ou como se destino, de fato, existisse.

Claro que não existe droga nenhuma dessas. Tudo não passa de um consolo de que, se as coisas estão indo de mal a pior, quer dizer que a culpa não seja – totalmente – sua. Quer dizer que, ainda que você faça tudo da melhor maneira, que dê o seu máximo, não significa que você chegará lá.

Onde é esse ‘lá’, afinal de contas?

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Conto ♥ Sem Controle

Em 03.01.2017   Arquivado em Contos, Projetos

Encho a caneca até a borda com o café fumegante. O próprio cheiro já começa a ter o efeito desejado de me despertar. Os clarões dos relâmpagos iluminam o céu do lado de fora e a tempestade castiga tudo sobre o que cai. Já passam das quatro e meu prazo está findando, o que indica que não tenho tempo a perder, muito menos observando a chuva.

Volto para o computador e depois de dois longos goles do líquido escuro e precioso, as palavras voltam a ter foco. Continuo a leitura dos parágrafos extensos – extensos demais –  e sigo fazendo as marcações.

Todo o texto é inútil, mais uma obra fantasiosa com personagens perfeitos e lugares perfeitamente surreais. Nada surpreende, tudo se resume à um aparente colapso que fará com que algumas estruturas sejam abaladas. Nada que um fim meloso não conserte. Alguns podem até se perder no caminho, mas, no fim, a esperança sempre prevalece.

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