Conto ♥ Vazio

Em 31.05.2017   Arquivado em Contos

Leia ouvindo: The Scientist – Coldplay

Somos exatamente como eles. Todas as diferenças possíveis, unidas. Não que se reflitam exatamente como nos dois animais que brincam e se deliciam com o sol morno do fim da tarde de outono. Não. Muito provavelmente eles não se sentem tão diferentes assim, o exterior não conta para eles. É como se fossem iguais. E não posso dizer que não o são. Os dois apenas param de brincar quando sua humana recolhe o cobertor em que estava sentada e segue para fora da grama, chamando-os.

Várias pessoas estão começando a deixar o parque. O vento está ficando mais forte com a noite se aproximando e meu terno não é suficiente para espantar o frio. Cruzo meu braços e recosto no banco, não consigo pensar em voltar para casa ou para qualquer outro lugar. Não tenho mais lar, o local que comecei a sentir como tal, é exatamente aquele para o qual não posso mais retornar. A memória dela está em absolutamente tudo. Até mesmo nos lugares em que nunca esteve, em que nunca a vi, toquei ou senti seu cheiro. Talvez seja eu. Estou impregnado dela ou por ela. Não sei bem definir.

O sentimento de perda, ainda que tenha sido eu quem partiu, parece um veneno que foi injetado em minhas veias. E ele é cruel. Corre lentamente, queimando e secando minhas veias, infiltrando-se no meu coração e fazendo-o secar e morrer. Lentamente. Dolorosamente. (mais…)

Conto ♥ A Cup of Tea

Em 21.05.2017   Arquivado em Contos

Leia ouvindo Free As A Bird – The Beatles

Uma caneca de chá, não. Xícara ou copo. Também não. Gosto na caneca. Então talvez fosse melhor ‘a mug of tea’. Você também pensa com frequência em uma língua que não a sua materna? Aquela que adotou em seus pensamentos como se também fosse fluida em sua mente e que, em alguns momentos, reflete muito mais do que se pode expressar? Escrevo ideias inteiras, pensamentos fragmentados ou não, misturando o melhor de cada língua e, por isso, vez por outra, elas se unem como se fossem uma coisa só. Ou, melhor assumindo, com frequência.

Escrevo a cada suspiro. A cada despertar. A vida é escrita a cada passo e cada passo reflete quem eu sou. É na melodia que ressoa em meus ouvidos em ritmo lento enquanto o mundo gira sem parar ao meu redor.

E se paro, ele corre e eu estagno. Se corro, ele viaja na velocidade da luz.

O caminho é sempre o mesmo, ainda que, de um modo ou de outro, ele seja diferente todos os dias. Nunca estaremos no exato lugar em que já estivemos.

E tudo ao redor é barulho e ruídos. Cheio de burburinhos e lamentos e bipes e sinos e palavras e mais suspiros. Muitas palavras. Palavras em demasia.

– Um, por favor. – O copo está quente e queima a ponta de meus dedos, fazendo com que meus passos até a mesa mais afastada do estabelecimento sejam mais rápidos. (mais…)

Conto ♥ Entremeio

Em 18.04.2017   Arquivado em Contos

Sugestão de música para durante a leitura: Hozier feat. Karen Cowley / In a Week

Algo que se encontra no meio do caminho, como a pedra do poema de Drummond. Algo que fora deixado exatamente entre dois limites, apto a fazer-lhe parar bem na metade, seja lá do que for.

– Tem certeza de que pegou tudo? – Eu insisto.

– Claro que sim, Ian. – Detesto quando ele diz meu nome dessa forma, enfadonha, assim como minha mãe o usaria quando eu era uma criança impertinente.

– Só estou perguntando, você fez sua mala em cinco minutos, Alan. – Tento imitar o tom indiferente, mas provavelmente sai algo muito mais próximo à malcriação.

Ele sorri daquele jeito aberto e espaçoso e sua mão alcança meus cabelos, jogando-os para todos os lados. É claro que eu não posso bagunçar o seu topete perfeito, mas o ato é o suficiente para me acalmar e me fazer suspirar fundo. Não é por ter bagunçado meu cabelo, é óbvio, mas porque seu toque tem esse efeito quase mágico sobre mim. Acalma, quando precisa.

Apago o abajur do meu lado da cama e ignoro o fato de que ele acaba de se acomodar com um livro nas mãos.

– Vamos acordar em cinco horas, Alan.

– Eu sei, só vou terminar um capítulo.

– Claro, como se eu acreditasse em tudo que um leitor fala. – Falo, rindo e viro pro outro lado, para evitar a claridade.

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Conto ♥ Agridoce

Em 04.04.2017   Arquivado em Contos

Sugestão de música para ouvir durante a leitura: Like I’m Gonna Loose You – Meghan Trainor feat. John Legend

A vida é assim, meio amarga e agridoce.

Toda a bagunça que deixei antes de sair de casa, há três dias, continua me aguardando. Deixo minha mala ao lado do sofá, apenas mais um item para arrumar.

Descalço meus saltos e coloco o celular no carregador. Alongo o pescoço, deixando meu corpo cair sobre o sofá. Preciso me mover. Banho e depois, dormir.

Me levanto e ergo os braços, alongando cada músculo. A claridade da janela me indica que o sol já terminou de se levantar. Talvez com tanto cansaço quanto eu. Meus pés seguem preguiçosos até a cozinha, coloco água para ferver.

O telefone começa a tocar. Somente uma pessoa me ligaria esse horário. Na verdade… basicamente só uma pessoa me liga, além do telemarketing, é claro.

– Oi. – Não contenho a empolgação ao colocar o aparelho no ouvido.

– Adivinha quem acabou de desembarcar?

– Não sei, alguma celebridade? – Falo, já rindo pela surpresa.

– Depende.

– Do que, exatamente?

– Posso ser uma celebridade em alguma realidade paralela. – O sorriso está refletido em sua voz. (mais…)

Conto ♥ Último Beijo

Em 28.03.2017   Arquivado em Contos

Sugestão de música para leitura: Pearl Jam – Last Kiss

– Luizaaa!!! – Ouço meu nome sendo gritado e olho na direção em que suponho estar sendo chamada.

Mila me encara furiosa do outro lado do corredor. Retiro o fone da cabeça, antes de me dar ao trabalho de falar com ela. Irmãs de onze anos são insuportáveis.

– O que é Mila?

– Estou há horas te chamando, Lu! É importante.

Respiro fundo. Claro que é importante, sempre é quando se tem onze anos. Me levanto e minha cabeça lateja, parece que há abelhas a ferroando e minha visão fica turva. Fecho os olhos por um instante e tudo volta a ter foco.

– O que é, Mila? – Pergunto, já mal-humorada.

– Ah, deixa para lá. – Ela dá de ombros e entra no próprio quarto, batendo a porta.

Ótimo. Menos uma coisa para me preocupar. Meu celular vibra no meu bolso novamente.

‘Estou saindo daqui!!!

A empolgação de Pedro podia me contagiar, mas com tudo que parece estar por vir, eu simplesmente não sei o que fazer, o que dizer. (mais…)

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