P & B

Em 11.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Era o ano de 1950 e a família se reunia na sala de abajures e sofá de estampa de flores outonais, enquanto o patriarca ajustava a antena até que os chuviscos do aparelho sumissem e a imagem ganhasse as devidas escalas de cinza.

Os garotos, que já passavam dos trinta, riam ao lado de suas esposas e as crianças iam de lado a outro perguntando ao avô se já estava pronto.

A única alheia a tudo aquilo, imersa na página do último romance que seu pai encomendara da livraria, era Antonella. Seguia as linhas e adentrava a floresta com a donzela, que fugia do vilão até esbarrar no lindo príncipe que cavalgava a esmo pelas terras banhadas à luz da lua. Luz essa que era da cor da leitora, tão pálida e de saúde tão débil que não lhe era permitido sair de casa. A família a tratava como se fosse feita de papel e, como tal, era proibido que se molhasse no ar das ruas da cidade.

Cerceada da vida do lado de fora, viaja pelas páginas como se adentrasse em navio pirata e velejasse até terras desconhecidas, sem se importar com as mínimas coisas que a tirariam do lugar.

– Antonella, largue esse livro. Olhe como as imagens são bonitas! É bem melhor do que um livro!

Se a irmã mais velha era enclausurada, não havia autoridade no patriarca e em sua esposa capaz de podar as asas amplas as quais já nasceram com Angelina. Os livros eram muito parados para seu espírito vivaz e a melodia das festas e o ar das praças lhe pareciam muito mais imaginativos. (mais…)

Petrus ♥ Jéssica Miguel

Em 18.07.2018   Arquivado em Resenhas

Amor e amizade podem se confundir? Ou, um pode nascer do outro? Petrus e Ana sabem bem como explicar isso e, num conto regrado a bom vinho e ao calor de uma lareira, eles nos levam para o momento mais marcante de suas histórias.

Petrus – Série Irmãos Timberg

Autora Jéssica Miguel

Publicação Independente Amazon

Era para ser um sábado de dia dos namorados como tantos outros que já passaram juntos, não fosse pela aposta que Petrus e Apolo fizeram alguns meses antes. E a penitência era passar aquele sábado trancafiado em um quarto de hotel minúsculo com a única mulher que fazia o seu sangue correr mais quente nas veias.

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O Quarto do Barba-Azul ♥ Angela Carter

Em 09.07.2018   Arquivado em Resenhas

Uma noiva a caminho das núpcias, uma filha vendida à fera, um elfo que vive no coração da floresta, uma garota que vive entre lobos, uma vampira solitária, um gato de botas… todos seres e histórias dignas dos mais conhecidos contos de fadas, transformados em histórias cheias de detalhes, beleza e significados nas palavras da incrível Angela Carter.

O Quarto do Barba-Azul

Autora Angela Carter

Editora Rocco

“E em meio ao triunfo do casamento senti uma dor de perda, como se, no momento em que ele me colocou o anel no dedo, eu tivesse deixado de ser filha dela para me tornar esposa dele.” (mais…)

Lado A | Lado B

Em 08.06.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

A vida tem dessas coisas, ou toca um lado ou toca o outro. Em alguns momentos nos lembramos que é impossível tocar os dois lados da mesma fita e, assim, seguir num meio termo.

É como aquela pergunta corriqueira que a todos respondem afirmativamente, independente do estado de espírito, já tocando tudo no automático: ‘E aí, tudo bem?‘ ‘Tudo e contigo?‘ ‘Bem também.‘ E a música continua a soar do Lado A, enquanto você fica imaginando o Lado B. E, quando finalmente chega do Lado B, é impossível não pensar nas melodias do Lado A.

E aí dá vontade de dar stop, não, stop é muito definitivo, pára tudo. Um pause, quem sabe, mais suave, ver se o som sai melhor quando voltar a tocar. (mais…)

Conto ♥ Apatia

Em 04.04.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Aquela história de calmaria antes da tempestade é a maior mentira que os ditos populares já me contaram. Se existisse, marinheiro nunca seria pego de surpresa.

Calmaria de verdade vem é depois da tempestade, da revolta, da depressão profunda, das ondas que viram barcos, da água salgada impossível de beber. Mas nem de longe significa que calmaria é céu limpo, sem risco de tempestade desabar, sem chance de furacão.

Quando vem depois da tempestade, calmaria é apatia. É continuar sem rumo, perdido no bote salva-vidas, boiando em mar aberto, sem saber exatamente quando um barco vai passar e resgatar. Se passar. Se resgatar.

Meus dedos correm pelas prateleiras extensas, algumas com camadas a mais de poeira do que outras, espaços vazios aqui e ali, o odor de papel antigo, o novo misturado ao pó e ao café que parece circular todas as fileiras.

Sigo pela textura, liso demais, detalhado demais. Parece suficientemente comum. Tiro o exemplar da prateleira e retorno para a mesa, no canto, com vista para todos os pedaços do lugar decorado sem um estilo propriamente dito. Como os porta-guardanapos com estampa vintage Coca-Cola, livros de capas sem nomes espalhados nas mais diferentes disposições e os candelabros de arabescos com velas de mentira pendendo do teto. (mais…)

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