Rumo ao Sul: Southernmost ♥ Silas House

Rumo ao Sul: Southernmost
Silas House
Faro Editorial
“Asher ergueu os olhos e observou as estrelas novamente. Não era justo que um céu tão iluminado como aquele estivesse brilhando acima deles quando havia tanta gente que perdera tanto. Mas o céu não presta a menor atenção às coisas que acontecem conosco, sejam elas alegres ou tristes.”

Sobre o Autor

Silas House é um prestigiado escritor norte-americano. Autor de mais de cinco romances, seus livros aparecem na lista dos mais vendidos do The New York Times. Ele também é jornalista e ativista de causas ambientais. House é conhecido pelas histórias rurais e personagens simples e vem sendo destacado como um dos autores mais proeminentes nos Estados Unidos na atualidade.

Sinopse

E se você descobrisse que viveu muito tempo sob perspectivas equivocadas? E que foi cruel com uma das pessoas que mais amava no mundo? Essa é a jornada…

Ao sul dos Estados Unidos, numa pequena cidade do Tennessee, o pastor Asher Sharp tem de encarar o seu próprio passado após uma das mais violentas enchentes que aquelas terras já enfrentaram. Então um casal gay pede abrigo ao pastor após ajuda-lo no socorro a outras pessoas, mas perderam tudo na inundação. Asher se vê diante de um dilema, quer abrigar os dois homens mas encara a recusa de sua esposa. Um fato que vai trazer à tona histórias enterradas de sua própria vida, da rejeição ao seu irmão, que era também seu melhor amigo. Algo que o faz questionar todos os valores daquela comunidade e tomar atitudes de ruptura, que desencadeiam uma série de outros eventos.

Decidido a encontrar o irmão de quem ele se afastou e nem sabe o paradeiro, desejando salvar o filho de um ambiente asfixiante, ele parte numa viagem rumo ao sul. Um percurso em que toda a sua história é passada à limpo, em meio a belas paisagens, novas amizades e descobrindo um mundo imenso, muito diferente do seu, algo que pôde ensiná-lo sobre as coisas mais profundas da vida.

Rumo ao Sul

Às vezes a vida leva o caminho mais longo e tortuoso para passar suas lições. Não que isso signifique que todas as pessoas vão entender, receber a mensagem completa ou, quem sabe, conseguir interpretá-la. É provável que tudo dependa do quanto você irá conseguir abrir seus olhos para aqueles que estão ao seu redor e para si mesmo.

Asher está passando exatamente por esse caminho tortuoso. Depois de ver um rio de lama soterrar quase tudo na pequena cidade do Tennessee onde ele é pastor há anos, ele se vê diante de uma encruzilhada: sua vida e suas crenças não são mais as mesmas. E isso inclui sua posição diante do repúdio que um casal homossexual sofre na cidade e de sua esposa.

Apesar de ainda não saber ao certo o motivo de toda a mudança que sente, não há duvidas de que seu passado tem parte nisso, em especial, com seu irmão Luke. De uma só vez, tudo ao redor de Asher começa a desmoronar junto da lama que ainda cobre a cidade: o casamento, a família, a comunidade, o emprego, a religião. Fragmentam-se como se ele fosse um estranho, alguém em quem não se pode mais confiar.

É neste momento que ele parte, junto de seu filho, rumo ao sul. O trajeto é tão barulhento como silencioso, mas a verdadeira jornada de pai e filho se dá na calmaria da cidade de Key West. À beira-mar, numa pousada acolhedora chamada Canção para uma Gaivota, ele encontra duas almas parecidas à sua, ainda que, à primeira vista, possam parecer completamente distintas.

“Justin costumava pensar que as árvores eram Deus. Mas agora, ali, ele acha que o oceano talvez seja Deus. Toda aquela força e fraqueza estendendo-se diante de nós. O oceano pode fazer tanta coisa quando quer, e às vezes pode ficar sem fazer nada além de ir e vir, formando ondas ou mantendo a calmaria. O oceano é um mistério, como Deus. Ambos são tão grandes que nunca podemos ver tudo ao mesmo tempo, mas podemos captar pedaços aqui e ali. Justin acredita que Deus é tão grande quanto o oceano. Até maior.”

Entre a rotina do trabalho, os medos e anseios de um adulto parecem, para uma criança de oito anos, pequenos demais. Já para Asher, são a razão de temer cada dia e de querer aproveitar cada segundo de sua existência, da companhia do pequeno Justin.

Assim, vivemos os dias em Key West junto a Asher e Justin, em busca de respostas, mesmo que em dados momentos não tenhamos sequer as perguntas. Buscamos entender todos os lados, os pensamentos, crenças e ideologias. É impossível não repudiar várias ações dos personagens, não tomar partido de um lado ou de outro, dizer que um ou outro estão errados, ou que todos estão. E é exatamente no desenvolver da trama que percebemos o quanto é fácil revestir uma ou outra pessoa de herói ou vilão, em como um simples fato pode parecer definir toda a pessoa, quando, na verdade, não define. A questão é que ninguém se resume à um nome, idade ou à sua orientação sexual. E menos ainda, ninguém se define por um erro ou por um acerto.

“O oceano é Deus, mas também somos todos nós.”

Sem dúvidas Rumo ao Sul foi um livro de surpresas calmas, lido em dois dias porque a história pedia para ser conhecida, ouvida, compreendida. Não por haver um grande mistério ou suspense envolvido, mas porque o ritmo da narrativa, dos acontecimentos, das descobertas, das incertezas, pede que se viva os dias dos personagens mais rápido do que se vive o próprio. Mas não se engane, ainda há sim um quê de surpresa inquietante na trama.

Um dos pontos que mais encantou na história foi a discussão sobre religião e crença que existe embutida em todas as partes que dividem a história: Parte 1 Você, Mãe; Parte 2 Caminho Livre, Parte 3 Canção para Uma Gaivota e Parte 4 Os Últimos Dias. Isso porque ela está entremeada à trama, cheia de reflexões e questionamentos, bem mais do que respostas e ditados. Não sou fã de leituras que se direcionam à defender um posicionamento religioso de maneira impositiva, mas gosto de livros com viés que discutam a religião e a crença das pessoas e seus pontos altos e baixos. E Rumo ao Sul é exatamente assim, um livro para questionar tanto os personagens como a si mesmo.

“Só recentemente percebera que os livros podiam dar asas às pessoas.”

Acima de tudo, a história mostra o quanto é fácil cair em erros quando se defende o que se julga certo. É sempre mais cômodo julgar os erros alheios, o difícil é reconhecer aqueles que cometemos. E, errados, todos estão(mos) em algum momento: é tentador julgar o pecador e não o pecado, como diria o próprio Asher. É essa uma das belezas de Rumo ao Sul, não há vilões e heróis, não há bem versus o mal, existem pessoas, falhas, incompletas que buscam o que desejam e o que acreditam da maneira que conhecem.

É claro que muitas atitudes são extremas e até criminosas, e o fato não é julgar quem levou quem a fazer o quê e sim toda a construção de descoberta, perdão, razão, fé, amor, família e respeito ao próximo pelas quais os personagens trilham. Não há mudança que ocorra da noite para o dia. Sejam quais forem as alterações no modo de pensar e agir dos personagens, elas vêm de uma construção, da quebra paulatina de paradigmas os quais cada um deles é submetido.

“- Minha avó sempre diz que uma pessoa tem que viver até morrer.
Justin não acrescenta que sempre tentou entender o que isso quer dizer. Às vezes ele acha que ela quer dizer que viver é mais difícil do que morrer. Outras vezes ele acha que ela quer dizer que devemos viver o máximo que pudermos antes de morrer.”

Rumo ao Sul é uma história para inspirar, fazer crer em um mundo melhor através de pessoas melhores. É uma jornada para a autodescoberta, tanto dos personagens quanto do leitor! Uma leitura que, sem dúvidas, recomendo!

Aleatoriedades
  • A resenha de Rumo ao Sul foi escrita originalmente para o blog Resenhando por Marina, com exemplar recebido em parceria da Faro Editorial.
  • A edição do livro é especial, com páginas diferenciadas destacando cada uma das partes do livro e o papel amarelado de uma gramatura excelente e que ainda deixa o exemplar super leve!
  • As fotos dessa sessão foram complicadas. Pela história os elementos que me vinham à cabeça eram todos ligados à praia, mas sabia que a história ia além das ondas do mar e gosto salgado de Key West. Vi uma foto nesse estilo com All Star e várias flores que curti muito, fiz adaptações para elementos que achei que remeteriam ao livro e esses foram os cliques que surgiram… No fim das contas fiquei mais satisfeita com o resultado do que eu esperava!
  • Rumo ao Sul já fez parte da TAG Inéditos e foi um sucesso a recepção e, depois da leitura, é fácil entender o frenesi e a escolha da Faro Editorial em realizar a publicação também.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Na Montanha-Russa: vivendo a maternidade no autismo ♥ Michelle Malab

Na Montanha-Russa: vivendo a maternidade no autismo
Michelle Malab
Quintal Edições
“Crescemos ouvindo que filho a gente cria pro mundo e não deve ser diferente com um filho autista. O autismo é um conjunto de comorbidades que afetam a pessoa em menor ou maior grau. Apenas isso. O autismo não era o meu filho. Lutei contra o autismo que tirava o brilho dos olhos do Pedro e que o fazia olhar para o nada, para longe de mim. Lutei para que sua fala não se calasse em gritos e esperneios. Lutei contra as comorbidades que o autismo trazia e trouxe meu filho de volta à vida, de volta para mim para que um dia ele possa ter condições de seguir sem mim.”

Sobre a Autora

Michelle Malab é escritora e empresária. Foi diagnosticada com Síndrome de Asperger na fase adulta, após o diagnóstico de seu filho, Pedro. Desde a descoberta, em 2005, passou a estudar profundamente sobre o autismo e todas as formas possíveis de intervenções. Atualmente promove seminários e ministra palestras sobre o autismo baseadas em sua experiências como mãe, com a propriedade de conhecer a síndrome pelo lado de dentro. Atua também na luta pelos direitos a inclusão das pessoas autistas. É colunista na revista digital Tendência Inclusiva.

Sinopse

Em Na Montanha Russa: vivendo a maternidade no autismo, Michelle Malab fala sobre os desafios com o diagnóstico de seu filho e compartilha com o leitor seu processo de aceitação, de luta pela qualidade de vida de Pedro e o tratamento que desenvolveu em casa com ele. Desde a descoberta, em 2005, passou a estudar profundamente sobre o autismo e todas as formas possíveis de intervenções. Atualmente promove seminários e ministra palestras sobre o autismo baseadas em sua experiência como mãe, com a propriedade de conhecer a Síndrome pelo lado de dentro.

Na Montanha-Russa

Dividido em três partes: Os Sinais e o Diagnóstico; A Montanha-Russa e Intervenções e Métodos, o livro leva título e subtítulos que remetem exatamente às sensações que a autora Michelle Malab descreve. Sentimentos e momentos que se intercalam desde a busca por um diagnóstico para seu filho Pedro Miguel até, enfim, a confirmação: autismo.

“O que descobri sobre o autismo nos anos que se seguiram é que, primeiro, não existem anjos e, sim, seres humanos, e que não, eles não vivem em um mundo só deles, ou mundo paralelo; o mundo é o mesmo para autistas ou não autistas, apenas a percepção da realidade e a reação a ela são absorvidas e externadas de forma diferente.”

A autora nos traz um texto breve, sincero e cheio de sentimento. Relata como mãe, o que é notar as diferenças em seu filho e não saber como tratá-las da melhor maneira devido à dificuldade em se ter um diagnóstico, assim como a dificuldade que surge também ao precisar aceita-lo.

“A falta de profissionais em autismo faz com que as famílias percorram trilhas desnecessárias, fazendo a caminhada mais longa e, muitas vezes, levando a tratamentos equivocados e ineficazes, ou até mesmo reforçando a negação que pode atingir algum membro da família fazendo com que a criança não venha a ter o suporte necessário para se desenvolver.”

Nas duas primeiras partes do livro, são destacados casos, descobertas e experiências do dia-a-dia de Michelle e Pedro, pontos marcantes que são, primeiramente, esclarecedores sobre o que é o Transtorno do Espectro Autista – TEA (autismo) e como é o processo de tratamento/intervenções e a constante necessidade de adaptação, estudo e novos ajustes.

“Na minha opinião sentimentos são sentimentos, não é o que eles provocam em nós que os tornam bons ou ruins, mas a forma com que lidamos com eles e os devolvemos aos outros.”

A autora ainda lembra de algumas das dificuldades mais marcantes que surgem, em relação à família, ao trabalho, à busca por informações, os custos com tratamentos e consultas, a falta de profissionais preparados, a relação e despreparo da escola (feliz aqui por ser conterrânea dela e ter visto um feedback positivo sobre o acolhimento das Escolas Municipais), o preconceito e o bullying. Várias reflexões importantes, tanto para quem atua nas áreas, tanto para qualquer ser humano que viva em sociedade.

“Os sentimentos são nossos reguladores, por meio deles conseguimos adquirir autocontrole. Não adianta não querer sentir, precisamos saber como lidar com nossos sentimentos e assim aprender com eles.”

Com isso, o conteúdo do livro, além de abordar os sentimentos da mãe e das suas pesquisas e buscas sobre tratamentos e intervenções, vão além, ajudam a desmitificar o estereótipo do autismo que vemos com frequência vendido nas telas da tevê, frutos das produções Hollywoodianas.

“O conselho que dou às famílias, assim que algum membro da família receber o diagnóstico de autismo, é que estudem sobre o autismo, tentem compreender como funciona a mente de uma pessoa com autismo. Deem suporte aos pais, para que eles tenham força para o caminho que não é nem de longe fácil. Seja o grau de autismo que for, vai exigir muito, de ambos os lados, de quem convive e de quem o tem.”

Na última parte do livro Intervenções e Métodos, são apresentados textos de especialistas de vários seguimentos, como psiquiatria, psicologia, fonoaudiologia e musicoterapia e que, além de abordados de maneira clara e acessível, agregam aos conhecimentos já apresentados inicialmente pela autora.

“Não tenho respostas para minhas perguntas, nem hoje, amanhã talvez, ou talvez nunca. A única certeza é de que fiz o meu melhor, dei o melhor de mim. Nunca desisti do meu filho e sempre acreditei em seu potencial. E mesmo em algumas estradas mais difíceis consegui ver a beleza das flores no caminho.”

Sem dúvidas, Na Montanha-Russa: vivendo a maternidade no autismo é um livro que trata o tema de maneira aberta, sincera, e por pontos de vista importantes e acessíveis: palavras que precisam ser semeadas e compartilhadas para ajudar na conscientização e no fim ao preconceito. Após a leitura, é impossível não ter uma visão mais realista sobre as pessoas com TEA e a importância da conscientização sobre o tema!

“Existe um provérbio árabe de autor desconhecido que diz: ‘Tudo nasce pequeno e com o tempo vai crescendo. Só a dor nasce grande e vai ficando pequena dia após dia’.”
Aleatoriedades
  • 02 de abril é o Dia Internacional da Conscientização do Autismo e, por isso, foi a resenha escolhida para hoje. É tema super importante, que merece destaque e precisa ser sempre colocado em pauta, assim como tantos outras datas que buscam conscientizar e falar mais sobre assuntos que costumavam ser tabu e/ou renegados àqueles que estão inseridos na sua realidade.
  • O livro foi recebido em parceria com a Quintal Edições: obrigada pela oportunidade de ler e compartilhar essa leitura necessária!
  • As fotos para esse livro foram uma coisa engraçada, eu montei o cenário para outro livro e achei que não combinou. Daí, percebi que o cenário cairia bem com essa capa adorável de Na Montanha-Russa e fiz uma pequena troca.
  • Tem conteúdo extra com indicações de livros com personagens autistas no Instagram do @retipatia, é só seguir por lá para acompanhar!
  • Esse post faz parte do projeto BEDA (blog everyday april) pelo grupo do Facebook Interative-se!
Na Montanha-Russa: vivendo a maternidade no autismo e outros títulos da Editora estão disponíveis na Loja da Quintal Edições

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

3 anos Retipatizando

Bendito foi o momento que eu pensei quero ter um blog. Os motivos eram vários, eu queria algo que me ajudasse a escrever mais, seja o que fosse. E assim, pensando em nomes e mais nomes, surgia o Retipatia. A junção de ‘Re’, de Renata, mais ‘tipatia’ de antipatia, que já era o nome recebido pela minha conta pessoal do Instagram.

Retipatia virou blog e, um pouco depois cresceu e a conta que era pessoal do IG, virou uma extensão da produção de conteúdo destinada ao blog. Hoje, funcionam de maneira complementar, praticamente dois lados da mesma moeda.

Nesse mês de abril o Retipatia está soprando velinhas! Yey! São três anos de muitos posts, mudanças, muitos livros e amor. Eu vou desconsiderar que isso deveria ter acontecido em março, mas a correria da vida me fez adiar tudo para abril… rsrsrs

A produção de conteúdo tem seus desafios e, lá no comecinho, jamais imaginei que seria tão trabalhoso e, ao mesmo tempo, que traria tantas recompensas ter um espaço como esse. Compartilhar ideias, pensamentos, opiniões, e incentivar a leitura acabaram se tornando o foco do Retipatia e, olhando para a caminhada até aqui, sei que o maior aprendizado foi o que eu mesma obtive.

Aos parceiros, apoiadores, aos que seguem no blog ou nas redes sociais, aos visitantes frequentes e esporádicos, àqueles que aparecem sempre mas são fantasminhas queridos que não se manifestam, sou grata a todos! Não existiria o lado de cá sem o lado daí, podem ter certeza!

Como esse mês de abril é também uma chance de fazer o BEDA (blog everyday april, blog todos os dias em abril, originalmente feito em agosto, blog everyday august) e eu queria colocar, digamos assim, o conteúdo em dia, achei uma boa movimentar o blog e o IG com posts diários. Ah e ainda vai rolar vários sorteios pelo Instagram em parceria com autores e Editoras queridas! Para acompanhar o conteúdo do IG, é só seguir o @retipatia

Que venham muitos mais anos, que venham muitas outras leituras e, especialmente, que eu seja capaz de retribuir o carinho que sempre recebi!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Contos de Fadas em suas versões originais

Todos nós tivemos contato com os contos de fadas pelos desenhos animados, livros ou contações de histórias. O curioso é que todas essas narrativas foram adaptadas sem muito compromisso com os contos originais, perdendo parte da tirania e sutileza naturais da época.

Neste livro de colecionador, os melhores contos de fadas foram escolhidos de forma criteriosa, cujas histórias centenárias se enveredam por horizontes escuros e sombrios, onde não há censura ou limites. Seus finais nem sempre envolvem casamentos ou futuros felizes, nos quais a moral prevalece sobre os pecados.

Nada mais será escondido ou censurado. A chave para conhecer os contos de fadas mais obscuros está em suas mãos. Você tem coragem de abrir esta porta?

Sinopse da edição de Contos de Fadas em suas versões originais publicado pela Editora Wish

Quem conta um conto…

Era uma vez, em um tempo em que os dias não eram contados e o sol e a lua não se importavam em intercalar-se para surgir no céu, havia um reino feito de papel e palavras. O nome era Reino das Histórias Maravilhosas e, de tão incrível que tudo nele era, chamava até mesmo visitantes das terras mais longínquas.

As paredes de seu castelo, onde viviam os mais célebres escritores, era feito do papel da mais alta gramatura, amarelado, que deixava um perfume permanente pelos corredores. A tinta, especialmente desenvolvida para ser legível sob os raios de sol ou de lua, exalava aroma de lavanda e deixava as palavras em tom anis sobre o papel.

As casas e lojas do Reino também não ficavam atrás, em ruas pavimentadas com papelão decorado das capas mais distintas, eram salpicadas de páginas das mais diversas formas. Ilustradas, escritas à máquina de escrever, escritas à mão e em braile. Uma infinidade tão grande que não existia construção igual a outra.

Praças, parques, todos adornados do mais fino papel, das palavras mais belas, que inspiravam dias cálidos e momentos alegres. As árvores, tinham troncos costurados com intrincadas ranhuras e seus galhos e folhas feitos do origami mais detalhado e belo. Tsurus voam aqui e acolá, cisnes deslizam pelo lago de ondas de dobraduras e coelhos saltitam pela grama de papel picado.

O único detalhe que escapava desse mundo de papel e palavras, eram as pessoas que por ali viviam. Não eram moldadas ou dobradas de papel, tampouco adornadas com palavras. Eram de massa mais sólida, pesada, uma mistura de ossos, carne e pele. Nada suave ou singelo como escritas desenhadas formando cachos para as cabeças ou acentos agudos formando cílios. Nada de capa dura para proteger o papel de dentro, apenas pele fina e mole pra segurar varetas chamadas ossos.

Os rasgos, assim, aconteciam com mais frequência do que era possível restaurar. Ora, vejo só, às vezes, até mesmo era necessário subir paredes em branco, completamente sem palavras ou símbolos ou desenhos quaisquer. Uma afronta que a Escrivã-mor desejava acabar. Mas de nada adiantava, as pessoas não ficavam presas em jaulas de papel, não acreditavam em folhas que estipulavam multas ou penas e sequer se importavam dos amassos que deixavam pelo reino afora.

Certo dia, ao ver dezenas de cisnes despedaçados, a escrivã não suportou a dor de ver tanta vida em papel jogada fora e chorou rios e rios de lágrimas molhadas, aquelas proibidas no Reino das Histórias Maravilhosas.

As lágrimas foram tantas que se formou uma cachoeira, nascida no próprio palácio e que desaguou na principal avenida do reino. Assim, as lágrimas verteram por todo canto do Reino, destruindo tudo que tocava: borrou-se a tinta e amoleceu o papel até esfarelar e murchar e empapar.

A cidade, as ruas, casas, tudo se desfez, morreu e apagou.

A Escrivã-mor desfaleceu de desgosto ao ver a cidade desfeita, o papel junto e amassado e retorcido com corpos de osso-carne-pele, com palavras ainda a escorrer e pintar o rio de lágrimas de anis.

Para aqueles que leem com atenção as entrelinhas, podem ver que ainda restam aqui e acolá, uma palavra ou outra que seguiu o rio e se espalhou para outros reinos de terra e poeira e pedra. Chegaram até o tempo em que a lua e o sol se separaram e não costumam mais aparecer juntos no manto azulado.

Algumas dessas palavras foram lembradas, contadas através do tempo que começou a ser contado. Honradas, foram colocadas em papéis novamente, mas não mais em paredes de chalés e troncos de árvores. Mas em alguns espécimes que começaram a chamar de livros.

Alguns deles, trazem versões antigas de tudo que já foi um dia, começam com era uma vez, mas nem sempre terminam com um e viveram felizes para sempre, porque sabem que lágrimas molhadas podem derreter papel e trazer tristeza.

Seja através de um sapatinho enfeitiçado, uma fada madrinha, um troll maligno, uma criança esfomeada. Até mesmo uma madrasta má e um pai também malvado. Uma garota sonhadora, um gato falante e um segrego guardado por doze princesas. De tanto em tanto, as palavras ressoaram como se levadas pelo canto dos tsurus que tentaram fugir da correnteza. Certeza não há de quase nada, mas… quem sabe não foram eles que voaram dali e recontaram as palavras que outrora viram escritas no Reino das Histórias Maravilhosas?

Aleatoriedades
  • O exemplar lindo de Contos de Fadas em suas versões originais foi recebido em parceria com a Editora Wish. Pensei qual seria a melhor forma de resenha-lo e, por mais que tentasse, seria impossível falar de todos os contos e fazer jus a beleza e profundidade que é possível extrair de cada um. Foi incrível conhecer todos, dos mais populares aos raros, dos que já conhecia aos que já havia assistido alguma versão, a maior parte, em adaptações da Disney.
  • Alguns contos ganham destaque, tanto pela perplexidade que causam ao leitor contemporâneo, tanto pela sutileza ou rudeza dos acontecimentos. É incrível poder avaliar as origens de cada uma dessas histórias, frutos da oralidade e que queriam passar ensinamentos – atualmente bem contestáveis – às crianças. As reflexões vão desde as relações entre familiares – com pais e mães abandonando crianças para morrerem na floresta, à um pai que deseja desposar a própria filha -, interesses amorosos que de amor nada têm, até mesmo num reconhecimento de superioridade de homens sobre mulheres e de ricos sobre pobres – nada que não vejamos eco até nos dias atuais. A influência religiosa também salpica quase todos os contos, deixando vincos profundos que ditam a moral e ia bons costumes de cada época.

  • Escolher apenas um conto como favorito seria injusto, cada um trouxe de si algo novo, surpreendente, chocante e revelador. Mas gosto de dar destaque a Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa; A Rainha da Neve; Cinderella; Barba Azul; As Doze Princesas Dançarinas; O Bravo Soldado de Chumbo; Pele de Asno; Hua Mulan (uma canção original da dinastia Wei – China); Filhos de Lir e Baba Yaga e Vasilissa, A Bela.
  • O livro tem uma edição super especial, em capa dura, com folha de guarda e páginas decoradas, e os 38 contos são divididos em duas partes: contos populares e contos raros (tem um post no blog falando mais sobre essa coleção de contos de fadas da Editora Wish, é só clicar aqui para conhecer).

  • Os contos populares são: A Pequena Sereia; Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa; A Bela e a Fera; Branca de Neve; A Bela Adormecida; A Rainha da Neve; Rapunzel; Chapeuzinho Vermelho; Cinderela; Polegarzinha; Os Três Porquinhos; João e Maria; Barba Azul; Rumpelstiltskin; O Gato de Botas; O Príncipe Sapo; A Princesa e a Ervilha; João e o Pé de Feijão; As Doze Princesas Dançarinas; O Bravo Soldado de Chumbo; O Alfaiate Valente; As Roupas Novas do Imperador.
  • Os contos raros são: Sol, Lua e Talia; O Pequeno Polegar; A Pequena Vendedora de Fósforos; Pele de Asno; Hua Mulan; O Semideus Maui; Sapatinhos Vermelhos; Irmãozinho e Irmãzinha; Filhos de Lir; O Flautista de Hamelin; Os Cisnes Selvagens; Chicken Little; A História dos Três Ursos; As Três Irmãs; Baba Yaga e Vasilissa, A Bela; O Rouxinol e o Imperador da China.

  • As fotos dessa vez foram verdadeiro desafio. Sempre tenho dificuldades em fotografar capas e coisas em tom vermelho, tanto pelas combinações, tanto quanto pra que a foto do celular não fique muito saturada. Fiz vários testes para esse livro, alguns cliques dessa sessão com outras das minhas bonecas Pullips não deram certo, então acabaram não vindo para cá. Mas, tem fotos do post no Instagram diferentes das que vieram para esse post. São quase duas sessões para um só livro/resenha. Pra ver o post do IG é só seguir o @retipatia.
  • Para quem gosta de contos de fadas, de embrenhar por esse mundo e redescobrir histórias das mais antigas e que foram transformadas pelo tempo e pelos valores e conceitos contemporâneos, vale muito conferir essa edição belíssima. Aliás, o livro também conta com um prefácio da Ana Maria Merege, A História por Trás dos Contos de Fadas, que trata exatamente da transformação dos contos ao longo do tempo e a importância de se conhecer suas origens. uma leitura mais que recomendada! Apaixonante e do tipo que vale muitas releituras!

Contos de Fadas em suas versões originais está disponível na Loja Virtual da Editora Wish

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Os prós e os contras de nunca esquecer ♥ Val Emmich

Os prós e os contras de nunca esquecer
Val Emmich
Editora Intrínseca
“As pessoas acham que eu não devia sentir falta das coisas porque tenho a lembrança delas guardada na caixa no meu cérebro, mas essas lembranças só me fazem sentir mais falta das coisas”

Sobre o Autor

Val Emmich é escritor, compositor, cantor e ator. Atualmente vive em Jersey City, New Jersey, com sua esposa e os dois filhos. Os prós e os contras de nunca esquecer é seu primeiro livro.

Sinopse

Joan Lennon é uma menina de 10 anos com um dom surpreendente: ela é capaz de lembrar, com exatidão de detalhes, tudo que aconteceu com ela. Sabe quantas vezes a mãe disse “sempre dá certo” nos últimos seis meses, lembra dos dias e dos motivos para ter chorado, mas compreende também que nem todos têm essa capacidade. A maioria das pessoas, ela sabe, esquece as coisas, mas Joan não quer ser esquecida pelos outros. Então quando depara no jornal com um concurso cultural intitulado “Próximo Grande Compositor”, ela encontra a resposta: uma boa música é impossível de ser esquecida. Ela só precisa achar o colaborador perfeito. E é aí que entra Gavin Winters.

Amigo de faculdade dos pais de Joan, Gavin é um ator famoso de Los Angeles que no momento enfrenta a dor terrível de ter perdido subitamente o namorado, Sydney. Depois de ter um vídeo seu em surto vazado na internet, Gavin decide dar um tempo na casa dos velhos amigos.

Logo que se conhecem, Gavin e Joan fazem um acordo peculiar: ele vai ajudar Joan com a música e em troca a menina vai contar tudo que se lembra de Sydney. Mas o que no início era reconfortante acaba se tornando uma tortura no momento em que Gavin é obrigado a encarar o fato de que o namorado talvez estivesse escondendo alguma coisa.

Emocionante e divertido, Os prós e os contras de nunca esquecer é um livro de estreia surpreendentemente encantador, para ser lido com Beatles tocando ao fundo.

Os prós e os contras de nunca esquecer

Na minha estréia como resenhista deste blogão, vou falar de um livro da minha editora favorita, Intrínseca, meu amor platônico, minha crush!

O livro me chamou a atenção por ter relação com música, meu segundo hobby, antes meu coração só pertence à leitura. Um enredo que exala trilha sonora e nos embala na melodia de um drama que me parecia ter ricos ensinamentos.

Joan nunca soube o que era ser normal, já que carregava o dom de uma memória impecável. Ela conseguia lembrar com detalhes de todos os momentos da sua vida, incluindo dias da semana, roupa que vestiu, alimentos que comeu, tudo que qualquer um fez ou disse. Seria algo extraordinário, se não a machucasse a facilidade com os que outros se esqueciam dela ou do que viveram. Um dos exemplos mais fortes e recentes, foi ver a avó falecer de Alzheimer, após esquecer completamente da neta.

Jovem e cheia de sonhos, Joan queria fazer algo memorável, que a eternizasse, não apenas para os familiares, como para o mundo. Viu a sua chance através de um concurso de música, onde junto com o pai, um dos músicos que ela mais admirava depois de John Lennon, poderia criar uma canção que emocionasse as pessoas.

Paralelo à essa história, conhecemos Gavin, um dos melhores amigos do pai da Joan, que foi casado com Sydney, o melhor amigo da mãe dela. Relacionamento que foi resultado de um encontro arranjado pelos amigos e um sucesso até Sydney falecer. Gavin era um ator famoso, com a vida estruturada, mas perder o companheiro abalou seu emocional e na tentativa de se livrar das lembranças, ele arma uma fogueira no seu quintal, com toda as coisas do marido. A ideia não foi bem sucedida e terminou com os bombeiros acalmando um incêndio.

Preocupados com a sanidade do amigo, os pais de Joan o convidam para passar um tempo com eles e é aí que a história começa.

Uma das profissões mais difíceis de sustentar é a dos músicos! Ou você dá muita sorte e consegue se encaixar e fazer sucesso ou você vive lutando por um lugar ao sol. O pai de Joan se encaixa nesse segundo grupo. Tinha um estúdio em casa, onde compunha jingles e prestava alguns serviços, mas quem pagava as contas era a sua esposa, que decidiu que não manteria mais o estúdio, por motivos óbvios, não dava dinheiro. Diferente do pai, Joan não compreendia os motivos da mãe e extremamente abalada, tornou a tarefa de criar a canção, ainda mais valiosa, sentimentalmente falando.

Gavin tinha um histórico musical, há muito esquecido, deixado nos tempos de faculdade com o pai de Joan. Quando conversou com a menina, ficou admirado com a esperteza e carisma, mas ainda mais pela sua incrível memória. Ele, que foi até ali para parar de pensar em Sidney, encontrou em Joan a chance de ouvir histórias com tamanha exatidão nos detalhes, que parecia estar diante do amado novamente. Uma amizade nasceu e um pacto, se Joan contasse todas as lembranças que tinha de Sidney, ele a ajudaria com a canção.

Ouvir as lembranças de Joan foi maravilhoso, até que alguns fatos começaram a não bater e Gavin se viu de frente com o maior dilema da sua vida: Sidney era realmente quem ele imaginava? Na ânsia por encontrar respostas, arrasta a jovem amiga em uma aventura para descobrir os mistérios do passado do amado.

Para Joan, tudo estava ótimo. Ganhando atenção de um adulto como nunca teve, ajudando em algo que parecia importante e ainda tendo auxílio na sua música, que a faria ser lembrada eternamente. Mas nenhuma distração foi o suficiente para fazê-la esquecer que em breve não haveria mais o estúdio do pai. Achando que poderia ajudar de alguma maneira, ela começa a aceitar explorar a curiosidade da mídia pela sua memória espetacular, para conseguir dinheiro e ajudar nas despesas do estúdio, mas escondida dos pais e se aproveitando dos momentos de “babá” de Gavin.

Por mais que as intenções fossem boas, Joan mete o novo amigo na maior enrascada, enquanto ele tenta lidar com as consequências das respostas que encontrou sobre Sidney.

Quotes

“Ser capaz de parar de se preocupar com o quanto significamos para as pessoas deve ser a melhor sensação do mundo.”

“Ninguém é normal, no fim das contas.”

“(…) Onde quer que eu olhe, em todos os cantos, vejo o que ninguém mais vê: as lembranças.”

“(…) quanto mais coisas experimentar, mais vai ter sobre o que compor.”

“(…) primeira lição do amor: um pouco de desconforto é um pequeno preço a pagar.”

“As pessoas não mentem porque estão felizes e contentes. Elas mentem porque dizer a verdade é difícil demais.”

“(…) lembranças nunca são tão boas quanto o momento de verdade(…)”

Aleatoriedades
  • A narrativa é em primeira pessoa, alternando os capítulos entre Joan e Gavin. Não há nada indicando sobre a mudança de narrador, mas consegui compreender após algum tempo de leitura. Devido a grande diferença de idade dos personagens, achei que o autor se perdeu um pouco e em alguns momentos tive que ler duas vezes para entender quem estava falando quando era alguma cena com os dois. A narrativa oscilou entre primeira e terceira pessoa em muitos momentos, deixando a história bastante confusa. O autor criou um grande mistério, toda uma expectativa e na minha opinião, nada aconteceu. Foi uma leitura bem decepcionante. Uma pena, pois amo esse estilo;
  • Me apaixonei pela edição, pelos detalhes físicos dessa obra. A editora arrasou;
  • O nome da protagonista é Joan Lennon, Joan em homenagem a avó e Lennon ao John Lennon, ídolo do pai dela;
  • Uma história sobre o amor e superação, mas principalmente sobre o valor da amizade.
Os prós e os contras de nunca esquecer pode ser encontrado nas grandes livrarias físicas do país ou nos links do site da Intrínseca.

Até a próxima resenha!

Beijos,

Matipatia