Invente Alguma Coisa ♥ Chuck Palahniuk

Invente Alguma Coisa
Chuck Palahniuk
Editora Leya
“E se você fica esperando alguém perfeito, nunca encontra amor, porque o que faz a pessoa ser perfeita é o quanto você a ama.”

Sobre o Autor

Chuck Palahniuk (nascido em Pasco, Washington a 21 de Fevereiro 1961) é um escritor residente em Portland, Oregon. O seu trabalho mais popular é Fight Club (Clube de Combate em Portugal e Clube da Luta no Brasil), que foi posteriormente adaptado para cinema.

Os personagens na obra de Palahniuk são indivíduos que, de uma ou outra forma, foram marginalizados pela sociedade, frequentemente reagindo com agressividade auto-destrutiva. A narrativa nos livros de Palahniuk começam, não raramente, no seu fim cronológico, com o protagonista a recontar os eventos que conduziram ao ponto que forma o princípio do livro. Por bastantes vezes há um ponto de viragem da história, na forma de uma revelação inesperada perto do fim. O estilo de Palahniuk é caracterizado pelo uso e repetição de frases curtas plenas de humor cínico ou irónico. O autor gosta de descrever o seu estilo como Ficção transgressional.

Em 2003, foi realizado por membros do site oficial do autor um documentário em filme sobre a sua vida, chamado Postcards from the Future: The Chuck Palahniuk Documentary [1]. O site oficial, “The Cult” (O Culto) como se auto-intitulada, iniciou uma oficina de escrita onde o próprio Chuck Palahniuk ensina os seus truques. Todos os meses o autor escreve um ensaio sobre um dos truques (ensaios estes que serão compilados num livro sobre escrita minimalista). É um autor muito dedicado aos seus fãs como pode ser observado no site oficial.

Sinopse

Em Invente alguma coisa, o autor best-seller Chuck Palahniuk retorna ao universo de Clube da luta no conto “Expedição”, onde os fãs vão delirar ao reencontrar Tyler Durden numa prévia ao aclamado romance que ganhou adaptação para o cinema e conquistou milhões de pessoas em todo o mundo. Com seu estilo transgressor, Palahniuk revela nas 23 histórias deste novo livro uma sociedade corrompida e imersa em preconceitos, descortinando como ninguém as patologias do mundo moderno. São narrativas que incomodam e divertem na mesma medida: você pode até sentir repulsa, raiva ou nojo em algumas cenas descritas, mas será inevitável prosseguir com a leitura até a última página.

Além de “Expedição, o livro é repleto de contos em que os absurdos da vida e da morte se apresentam em sua plenitude. Em “Zumbis”, os melhores e mais inteligentes alunos de uma escola resolvem aderir à mais louca droga do momento: lobotomia via choque elétrico com desfibriladores cardíacos. Em “Toc-toc”, um filho tenta desesperadamente contar uma última piada sem graça ao pai moribundo, numa tentativa de salvá-lo. Em “Túnel do amor”, um massagista terapêutico começa a fazer sucesso com uma prática curiosa: proporcionar prazer a clientes à beira da morte. Já em “Inclinações”, um grupo de adolescentes resolve passar uma temporada numa clínica que oferece a “cura gay”.

Sarcásticas, bizarras e intensas, essas e outras histórias representam tudo o que os leitores amam e esperam de Chuck Palahniuk – e vão ressoar na mente do leitor por muito, muito tempo. Como publicou o jornal The Guardian, Invente alguma coisa é “Palahniuk no auge de seu poder”. Você está preparado?

Invente Alguma Coisa

Visceral. Inquietante. Sarcástico. Obscenamente crítico. Às vezes, repulsivo. Outras, quase acolhedor… Invariavelmente, os contos que compõem Invente Alguma Coisa, de Chuck Palauniuk, não são uma leitura que passa despercebida. Exalam críticas à sociedade contemporânea em cada linha que as compõe e trazem reflexões sobre o mundo corrompido em que criamos e vivemos. E, claro, que perpetuamos.

“Enquanto debandonava o corpo sarado, o Randy, o Randy viu que vida é que nem árvore. A vida primeiro anda bem vaporosa. Primeiro é tão vaporosa que a gente sesquece que a vida sempre anda e não para. A vida anda e não para. A vida anda e não para. Aí a vida vai rápida que nem raio. No fim, a vida é mais rápida do que dá na percepção da gente.”

Talvez você já tenha ouvido falar do autor por causa de seu grande sucesso, Clube da Luta, que virou filme com a direção de David Fincher em 1999, e que se tornou um ícone cult, apesar do não sucesso na época de seu lançamento. O autor ainda conta com vários outros títulos, incluindo duas sequências à Clube da Luta, em HQ (a terceira ainda não lançada no Brasil).

“Na aula de inglês da srta. Chen, aprendemos o “Ser ou não ser…”. Só que existe uma área cinzenta bem grande entre os dois. Vai ver que na época de Shakespeare as pessoas só tinham duas opções.”

Apesar disso, esta que vos escreve nunca assistiu ao filme ou tampouco leu Clube da Luta. O primeiro contato com o autor se deu através de um texto sobre escrita, que fala sobre verbos de pensamento (“thought” verbs). Como se trata de um assunto interessante, não hesitei em ler e, para surpresa, o autor dá uma dica muito válida sobre escrita e que pode ser notada em Invente Alguma Coisa.

“Ser ou não ser. O maior dom de Deus aos animais é que eles não têm opção.”

Depois disso (com alguns anos de intervalo), veio a leitura dos contos que, invariavelmente, trouxeram surpresa atrás de surpresa. Não apenas a escrita, que se reinventa o tempo todo sem perder as características do autor, reconhecíveis em todos os contos, mas os temas, os personagens, alguns se mesclam de maneira interessante e trazem enredos feitos para fazer pensar, incomodar, tirar do lugar comum. Ninguém é o que aparenta na superfície. Não existem anjos e demônios, santos e pecadores. Apenas pessoas. E toda as mazelas que podem advir disso.

“Eu sei que parece uma banalidade, mas é que as palavras fazem tudo que é verdade soar banal. Porque as palavras sempre cagam tudo que você queria dizer.”

Um dos pontos interessantes, que já citei, é a mescla entre os personagens. E isso ocorre não apenas com a retomada do mundo criado em Clube da Luta com o conto Expedição, que traz mensagens interessantes que vão desde culpa às sujeiras ocultas – e as nem tão ocultas assim do mundo – sobre enfrentar o passado e muitos outros pontos, mas também em contos que têm personagens que literalmente vivem na mesma realidade que alguns outros. Nesse ponto, o destaque aos personagens, sendo, alguns bichos que agem como verdadeiros seres humanos. Verdadeira sátira aos humanoides que habitam o planeta Terra nos dias de hoje.

Os temas que serão expostos trazem as mais diversas perguntas: A vida valeu a pena? O que os outros pensam vale tanto assim? O trabalho precisa ser aquele ao qual se ama ou aquele pelo qual se busca algo?

“Enquanto ele ouvia, ocorreu a Randall que o amor que as pessoas sentem pelos bichos é o mais puro que há. Amar um animal, um cavalo, gato ou cachorro, é sempre uma tragédia romântica. Amar um desses bichos significa que você ama algo que vai morrer antes de você.”

Delas e de tantas outras, as ideias que surgem, são das mais variadas. Como a de que a morte pode ser trágica, cômica, tragicômica. A mente em luto pode não soar sã. Ou de que somos mesmo animais selvagens, consumidos pelo consumismo imperante. Preconceitos. Sanidade. Limites. Afinal, todo mundo tem algo a falar sobre alguma coisa. A certeza é de que a morte é o tema quase que perpétuo nos contos, tanto quanto a vida em si. Em 22 contos, temos muitas histórias envolvidas e uma leitura instigante e necessária. O mundo, o homem sob uma lente de aumento em Invente Alguma Coisa.

“A primeira regra da Roda do Roda – disse o Porco-da-Terra – é: ninguém fala sobre a Roda do Roda.”

Aleatoriedades
  • O livro foi recebido em parceria com a Editora Leya, para o blog Resenhando por Marina.
  • Invente Alguma Coisa está disponível na Amazon, em versão física e em e-book, inclusive através do Kindle Unlimited. E comprando ou alugando pelo link do blog, você contribui com o Retipatia sem gastar nada a mais por isso!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: “O toca-fitas dele tocava “We’ve Only Just Begun”, dos Carpenters.”

A Visita Cruel do Tempo ♥ Jennifer Egan

A Visita Cruel do Tempo
Jennifer Egan
Editora Intrínseca
“É essa a realidade, não é? Vinte anos depois, a sua beleza já foi para o lixo, especialmente quando arrancaram fora metade das suas entranhas. O tempo é cruel, não é? Não é assim que se diz?”

Sobre a Autora

Jennifer Egan nasceu em Chicago e cresceu em São Francisco. Autora do best-seller The Keep, publicou trabalhos em revistas como New Yorker, Harper’s Magazine, Granta e GQ. Por seus artigos de não ficção escritos para a The New York Times Magazine recebeu diversos prêmios jornalísticos. Vencedora do Galaxy National Book Awards 2011 na categoria Autor Internacional do Ano, Egan foi eleita uma das 100 pessoas mais influentes do ano de 2011 pela revista Time. A autora vive no Brooklyn com o marido e os filhos.

Sinopse

Bennie Salazar é um executivo da indústria musical. Ex-integrante de uma banda de punk, ele foi o responsável pela descoberta e pelo sucesso dos Conduits, cujo guitarrista, Bosco, fazia com que Iggy Pop parecesse tranquilo no palco. Jules Jones é um repórter de celebridades preso por atacar uma atriz durante uma entrevista e vê na última — e suicida — turnê de Bosco a oportunidade de reerguer a própria carreira. Jules é irmão de Stephanie, casada com Bennie, que teve como mentor Lou, um produtor musical viciado em cocaína e em garotinhas. Sasha é a assistente cleptomaníaca de Bennie, e seu passado desregrado e seu futuro estruturado parecem tão desconexos quanto as tramas dos muitos personagens que compõem esta história sobre música, sobrevivência e a suscetibilidade humana sob as garras do tempo.

A Visita Cruel do Tempo

Talvez esse seja um dos livros mais complicados de se falar a respeito. Já tive um problema aqui e acolá para conseguir falar de algumas histórias que mexeram muito comigo ou com outras que, de outro lado, incomodaram. Seja como for, o caso aqui é novo. Porque A Visita Cruel do Tempo é um ponto fora da curva.

Primeiro, a narrativa. Ela não é linear, não segue um padrão, passamos de primeira para terceira pessoa, cada personagem narrando os eventos à sua maneira. Pode ser através de uma carta ou de slides, já que temos um capítulo inteiro narrado desta maneira, sem, contudo, perder o ritmo da prosa da personagem e do livro. A mensagem é entregue com louvor e isso, graças à Egan, que se reinventa a cada parcela de história que conta.

“Eu estou sempre feliz – disse Sasha. – É que às vezes eu esqueço.”
“Estou aprendendo isso aqui em Nova York: não dá para ter a menor ideia de como as pessoas são. Não que elas
tenham duas caras… Elas têm, sei lá, personalidade múltipla.”
“O mundo na verdade é imenso. Essa é a parte que ninguém consegue explicar totalmente.”
“Não sei dizer se ela é realmente sincera, ou se parou de se importar se é sincera ou não. Ou será o fato de não se importar que torna uma pessoa sincera?”
“Os integrantes do safári de Ramsey ganharam uma história que irão contar pelo resto da vida. Esta fará alguns deles, anos mais tarde, procurarem os outros no Google ou no Facebook, incapazes de resistir à fantasia de realização de desejos que esses sites oferecem: O que terá acontecido com…? Alguns deles irão se reencontrar para trocar lembranças e se maravilhar com suas respectivas transformações físicas, que parecerão deixar de existir com o passar dos minutos.”

O livro vai seguir alguns personagens centrais como Bennie, Sasha, Jules, Lou e Stephanie. Ainda assim, dificilmente serão eles próprios a narrarem suas histórias, há uma gama inteira de personagens que os circundam e que interligam a teia que compõe o todo. Através de uns descobrimos mais de outros. A princípio, esse ponto pode causar confusão no leitor, mas aos poucos, a história, o todo, cada uma das personagens, entra em uma sintonia desregrada e já sabemos quem é quem, por mais que suas histórias possam desconexas entre o começo, o meio e o fim.

Uma das personagens, Sasha, a que tem uma vida das mais contrastantes, inicia o livro num capítulo fluido e intenso. Suas memórias se mesclam à sua consulta no terapeuta que é descrita e entramos tão fundo na narrativa que esquecemos que a própria personagem – ou nós mesmos junto à ela – está deitada no divã rememorando seus problemas. E, em sintonia perfeita ao início da história, que representa o de todas as histórias sem ser, exatamente, o começo dos personagens, o livro se encerra como um ciclo perfeito. Um ciclo perfeito da cruel visita que o tempo faz a cada um deles – de nós.

“Em alguns dias, de manhã, do lado de fora da minha janela o sol parece falso. Fico sentada à mesa da cozinha jogando sal nos pelos do meu braço e uma sensação me sacode por dentro: acabou. Tudo passou sem mim. Nesses dias, sei que não devo fechar os olhos por muito tempo ou então a diversão vai começar para valer.”
“A realidade era a seguinte: se nós, seres humanos, somos máquinas de processamento de informações que leem xizes e zeros e traduzem essa informação naquilo que as pessoas com tanta emoção chamam de “experiência”, e se eu tinha acesso a toda essa mesma informação graças à TV a cabo e a todas as revistas que folheava na banca Hudson News por períodos de quatro a cinco horas nos meus dias de folga (meu recorde eram oito horas, incluindo os trinta minutos que passei no caixa durante o intervalo de almoço de um dos funcionários mais novos, que pensou que eu trabalhasse lá) – se dispunha não apenas da informação mas do talento para moldar essa informação usando o computador que tinha dentro da cabeça (computadores de verdade me davam medo: se você pode encontrá-Los, Eles podem encontrar você, e eu não queria ser encontrado), então, tecnicamente falando, eu não estava tendo todas as mesmas experiências daquelas outras pessoas?”

A beleza da história está onde o título denuncia: na visita cruel que o tempo faz a cada um dos personagens. As vidas parecem seguir um determinado rumo quando os conhecemos e, às vezes, no capítulo seguinte, já não é mais daquela maneira. Separado em A e B, o livro traz dois lados da mesma história. Quase como lados A e B de um cassete. Separados, mas em sintonia com o todo. O que mudou de um ponto ao outro, o meio do caminho, é composto das decisões e escolhas de cada um. Dos passos que deram.

O livro ainda é capaz de despertar os sentimentos mais controversos sobre cada um dos personagens, já que a linearidade de suas vidas não é seguida e, nem sempre, todos os lados de uma história são revelados. Cada descoberta pode gerar desconforto, revolta, compreensão, descrença. E vemos o peso dos dias corroendo os atos cometidos e os resultados de tudo isso aglomerados no lado B de suas vidas, nos seus dias futuros.

“Eles eram jovens, tinham sorte, tinham força – por que se preocupar? Se não gostassem do resultado, podiam voltar e começar tudo de novo. E agora Bosco estava doente, mal conseguia andar, e planejava de maneira febril a própria morte. Seria esse desfecho uma aberração monstruosa da realidade, ou seria normal – algo que eles deveriam ter previsto? Será que de alguma forma haviam provocado aquilo?”
“A gente vai se lembrar deste dia mesmo quando não se conhecer mais.”
“Vamos nos esforçar para ser sempre assim.” E nessa hora os seus pensamentos estavam tão sintonizados que Ted soube exatamente por que Susan tinha dito aquilo: não por terem transado naquela manhã ou bebido uma garrafa de Pouilly-Fuissé no almoço – porque ela havia sentido a passagem do tempo. E então Ted também o sentiu, na água escura que pulava, nos barcos que passavam depressa, no vento – movimento e caos por toda parte –, e segurou a mão de Susan e disse: ‘Sempre. Vai ser assim sempre.'”

Tudo isso sem deixar de lado questionamentos que nós mesmos enfrentamos cotidianamente. Seja em relação à um relacionamento, a certo e errado, a confiança, seja em relação aos efeitos do mundo hiperveloz que se espalha através de conexões invisíveis. Qual a relevância de cada um nesse mundo, afinal de contas? Qual influência cada um é capaz de exercer? Qual o momento exato para que um sonho se realize? O que precisamos fazer para alcançar? Não existem respostas claras e objetivas, é claro, mas falar sobre a vida não é uma assertiva de certo e errado e Egan deixa isso bem claro ao mostrar a visita do tempo na vida de seus personagens.

A leitura foi uma perfeita surpresa. Não apenas pelo enredo intrincado, narrativa fluida e diversificada, mas por apresentar a vida nua e crua, com personagens absurdamente realistas. Imperfeitos. Defeituosos. Perdidos, muitas vezes. Levados pelo tempo, pelas águas de um rio, pelas batidas de uma música, arrancados da trilha de suas vidas pela crueldade com o que o tempo pode vir a se apresentar. A verdade é que o tempo é cruel… mas nem sempre tão cruel assim.

Aleatoriedades
  • O livro foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca, e a escolha foi por indicação do namorado, que disse que a narrativa da autora merecia ser lida. E realmente, zero arrependimentos. Um livro que merece ser lido!
  • Quando fui à Bienal do Livro do Rio de Janeiro, que aconteceu no fim de agosto, início de setembro desse ano, já garanti outro título da autora. Ainda não havia terminado a leitura de A Visita Cruel do Tempo, mas a narrativa me cativou tanto que sabia que iria querer ler outro livro dela. Assim, Praia de Manhatan veio para casa e até participou dos cliques…
A Visita Cruel do Tempo está disponível na Amazon, em versão física e em e-book. E, comprando pelo link do blog, você ajuda o Retipatia e não gasta nada a mais com isso!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: uma playlist infinita de George Ezra

Medicina dos Horrores ♥ Lindsey Fitzharris

Medicina dos Horrores: A história de Joseph Lister, o homem que revolucionou o apavorante mundo das cirurgias do século XIX
Lindsey Fitzharris
Editora Intrínseca
“As dissecações públicas eram apresentações teatrais, uma forma de entretenimento tão popular quanto as rinhas de galos ou o açulamento de cães contra ursos aprisionados. Nem todos, porém, tinham estômago para elas.”

Sobre a Autora

Lindsey Fitzharris recebeu seu grau de doutora em história da ciência e da medicina na Universidade de Oxford. É a criadora do site popular The Chirurgeon’s Apprentice, bem como autora e apresentadora da série Under the Knife, no YouTube. Escreveu para veículos como The Guardian, The Huffington Post, The Lancet e New Scientist. Atualmente, mora no interior da Inglaterra com o marido, Adrian Teal, e seus dois gatos.

Sinopse

Em Medicina dos Horrores, a historiadora Lindsey Fitzharris narra como era o chocante mundo da cirurgia do século XIX, que estava às vésperas de uma profunda transformação. A autora evoca os primeiros anfiteatros de operações — lugares abafados onde os procedimentos eram feitos diante de plateias lotadas — e cirurgiões pioneiros, cujo ofício era saudado não pela precisão, mas pela velocidade e pela força bruta, uma vez que não havia anestesia. Não à toa, os mais célebres cirurgiões da época eram capazes de amputar uma perna em menos de trinta segundos. Trabalhando sem luvas e sem qualquer cuidado com a higiene básica, esses profissionais, alheios à existência de micro-organismos, ficavam perplexos com as infecções pós-operatórias, o que mantinha as taxas de mortalidade implacavelmente elevadas.

É nesse cenário, em que se considerava mais provável um homem sobreviver à guerra do que ao hospital, que emerge a figura de Joseph Lister, um jovem médico que desvendaria esse enigma mortal e mudaria o curso da história. Concentrando-se no tumultuado período entre 1850 e 1875, a autora nos apresenta Lister e seus contemporâneos e nos conduz por imundas escolas de medicina, os sórdidos hospitais onde eles aprimoravam sua arte, as “casas da morte” onde estudavam anatomia e os cemitérios, que eles volta e meia invadiam para roubar cadáveres.

Chocante e revelador, Medicina dos Horrores celebra o triunfo de um visionário, cuja busca para atribuir um caráter científico à medicina terminou por salvar milhões de vidas.

Medicina dos Horrores

O espetáculo é banhado a sangue, dores e gritos pela dor escruciante provenientes dos cortes que o bisturi e o serrote provocam no paciente que tem pele, nervos, tecidos, artérias e ossos dilapidados e arrancados sem qualquer tipo de anestésico.

Esse é o cenário a que somos apresentados logo no começo de Medicina dos Horrores, com um verdadeiro espetáculo de carnificina a ser exibido em anfiteatros lotados, abafados e imundos em que ocorriam as cirurgias na época vitoriana.

“Ao contrário do que acontece hoje em dia, os alunos não podiam fugir dos mortos durante os estudos, e era comum viverem lado a lado com os corpos que dissecavam. Mesmo aqueles que não moravam em locais adjacentes a uma escola de anatomia portavam sinais de suas atividades grotescas, porque ninguém usava luvas nem outras formas de proteção no interior da sala de dissecação. Na verdade, não era incomum ver um estudante de medicina com pedaços de carne, vísceras ou cérebro grudados na roupa após o fim das aulas.”

As transformações até os dias atuais não poderiam ser mais gritantes. Não havia o conhecimento de algum anestésico, assim, os cirurgiões eram, de fato, trabalhadores braçais que precisam ser rápidos na hora de efetuar quaisquer procedimentos, já que tudo que ocorresse, seria sentido pelo paciente. Além disso, condições de higiene não era algo a se levar em conta nem mesmo no momento das cirurgias. Não apenas o local era empesteado pelo sangue que escorria dos procedimentos, como os utensílios, roupas e mesmo as mãos dos profissionais não eram limpos entre um e outro atendimento.

Apenas por vota de 1847, com a descoberta do uso do éter como medida anestésica, e com créditos para seu uso em cirurgia para o cirurgião Robert Liston – que era capaz de amputar uma perna em 30 segundos – foi que a situação, em parte, começou a ser alterada. Como os cirurgiões ganharam mais tempo para trabalhar, aos poucos, a visão de que este seria apenas um trabalho braçal, ganhou outro panorama, com profissionais mais audaciosos, querendo realizar procedimentos mais invasivos e que antes mostravam-se impossíveis.

“As lesões e aflições com que os cirurgiões lidavam eram tão variadas quanto a própria população londrina. A cidade estava em incessante expansão na época em que Lister trabalhou com Erichsen. Milhares de trabalhadores migravam todo ano para a cidade. Não só essas pessoas viviam na imundície, em decorrência da escassez de moradias acarretada pela urbanização acelerada, como seus empregos tinham consequências para a saúde. As enfermarias hospitalares ficavam abarrotadas de gente que tinha ficado cega ou fora mutilada, sufocada e aleijada pelas realidades arriscadas do mundo em modernização.”

Contudo, o principal problema persistia: ser operado continuava a ser a última opção, já que as chances de sobrevivência eram tão pequenas quanto caso a cirurgia não fosse realizada. E como resolução desse problema surge o nome de Joseph Lister, que dedicou sua vida a desvendar as causas das infecções pós-operatórias e que era a maior razão das vidas ceifadas daqueles que passavam por procedimentos cirúrgicos.

Numa narrativa ágil e surpreendente, a autora nos leva de volta à era vitoriana para nos mostrar a realidade não apenas das condições operatórias da época, mas também das condições gerais dos hospitais existentes e que eram, no mínimo, deploráveis. Para se ter uma noção, o termo fedentina hospitalar era costumeiramente dito para referir-se ao cheiro pútrido de fezes, sangue e vômito que empesteava o lugar. Além disso, hospitais eram sinônimos de Casas da Morte. Ir para lá, sem dúvidas, era a última opção de alguém. Claro que os que mais sofriam com isso era a população abarrotada que se esmerilava pelas ruas londrinas e, também, das cidades escocesas Glascow e Edimburgo, que são apresentadas em paralelo com a vida de Lister. Em opção mais segura (ou com menos riscos), era possível realizar os procedimentos cirúrgicos nas residências, mas isso, claro, apenas para os abastados. A massa estava sob o fio do bisturi dos cirurgiões nos anfiteatros e salas contaminadas dos hospitais.

“A política hospitalar ordenava que os incuráveis não fossem internados, de modo que Lister liberou Chappell para voltar ao contato com a população. A comunidade médica ainda não sabia que a tuberculose era uma doença altamente contagiosa. O fato de Chappell ter sido obrigada a dormir no mesmo quarto com cinco ou seis colegas de trabalho nos leva a perguntar quantas outras pessoas ele terá infectado.”

Numa costura perfeita entre a vida pessoal de Lister, com enfoque na trajetória de sua carreira, acompanhamos os estudos que o levaram a não apenas mudar a forma de tratamento das infecções, mas a criar um sistema de técnicas que revolucionou todo o sistema hospitalar e as cirurgias, dando a elas o verdadeiro caráter curatório que sempre deveriam ter. Sem se esquecer, é claro, de todo pano de fundo que levou Lister à suas descobertas e as figuras que fizeram parte disso.

A descoberta de Lister não advém de uma trajetória curta e desprovida de esforço e estudos, sem várias barreiras a serem vencidas, como o ceticismo de toda a classe médica, mas de toda uma vida amparada em profissionais renomados da época e no desenvolvimento de estudos para tentar decifrar o enigma das infecções que levavam a maior parte dos pacientes à morte.

“As novas opiniões sempre despertam suspeita e, em geral, oposição, sem qualquer outra razão que não o fato de já não serem comuns.” John Locke

Outras acertos históricos são perfeitamente alinhados pela autora, que norteia o leitor o tempo todo da situação em que se dava os acontecimentos e, claro, com descrições de alguns casos que, apesar de não serem notórios, foram relevantes para aqueles envolvidos e que, especialmente, trazem choque ao leitor contemporâneo, como os que dizem respeito às agressões feitas por maridos à suas esposas, que não eram permitidas a se separarem de seus esposos a não ser que se provasse que eles a traíam e que a agrediam. Um clausuro com respaldo legal.

Sem dúvidas, o tipo de livro que impregna na gente durante a leitura, cheguei até mesmo a comentar alguns trechos com as pessoas que estavam perto de mim (só conhecidos, ok! ahaha) e sempre ficava um tempo com o assunto na cabeça quando pausava a leitura. A escrita da autora permite que o texto seja compreendido com facilidade e, ao mesmo tempo, não peca em levar o leitor a ver a realidade dura e cruel dos séculos passados e entender a complexidade dos temas envolvidos. Uma das melhores não ficções que já li, um livro que, ao virar a última página, não irá cessar de surtir efeitos em quem lê!

Medicina dos Horrores foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca e é uma das edições mais incríveis que tenho na estante. Além da capa dura, o livro tem corte colorido em preto, folhas de guarda estampadas e detalhes com ilustrações e ferramentas cirúrgicas junto ao texto. Uma edição sem defeitos!

Medicina dos Horrores da Lindsey Fitzharris está disponível na Amazon em versão física e e-book.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

A Garota que Lia as Estrelas ♥ Kiran Millwood Hargrave

A Garota que Lia as Estrelas
Kiran Millwood Hargrave
Editora Jangada
“Cada um de nós carrega o mapa de nossa vida impresso na pele, na maneira como caminhamos, até mesmo na maneira como crescemos, dizia papai.”

Sobre a Autora

Kiran Millwood Hargrave nasceu em Londres, em 1990. Estudou nas Universidades de Cambridge e Oxford, e é poetisa e dramaturga premiada. Seus escritos a levaram das florestas do Canadá às montanhas do Japão. Foi vencedora em 2017 da categoria livro infantil dos prêmios Waterstones e British Book; finalista do prêmio Jhalak de livro do ano por Writer of Colour; finalista do prêmio Branford Boase de 2017; finalista do Little Rebels de 2017 e indicada para a Carnegie Medal de 2017. A Garota que Lia as Estrelas é seu primeiro romance.

Sinopse

Isabella mora numa ilha cercada de lendas e sonha em visitar as terras distantes que seu pai, um cartógrafo, um dia mapeou. Quando sua melhor amiga desaparece, ela decide fazer parte da equipe de busca e, guiada por mapas antigos e o conhecimento que tem das estrelas, viaja pelos Territórios Esquecidos da ilha, repletos de perigos e criaturas horríveis. Mas sob os rios secos e florestas mortas, uma lenda está despertando de seu sono…

A Garota que Lia as Estrelas

Isabella mora na ilha de Joya cercada em sua casa pelos mapas que seu pai, Riosse, o único cartógrafo de toda a ilha, ainda preserva. Isso porque o novo Governador não quer saber de ninguém explorando outras terras, sejam elas no além-mar, sejam os territórios proibidos da própria Joya.

Os dias pacatos na vida de Isabella cessam quando um evento aterrador ocorre na ilha e um caos digno de guerra civil esgueira por cada esquina de Joya. Como se tudo isso não bastasse, eventos estranhos acontecem e sua melhor amiga, Lupe, filha do Governador, desaparece. Uma comitiva de busca é montada e Isabella usa seus conhecimentos em cartografia para conseguir fazer parte da expedição. A aventura está apenas começando.

“As estrelas são os mapas mais antigos, os mais precisos. Elas podem dizer onde você está melhor do que uma bússola – afinal, têm uma visão panorâmica. Se você aprender a ler as estrelas, jamais se perderá.”

Talvez seja difícil explicar como uma história tão pequena pode ser tão completa e que, claro, entrou para a lista de favoritos do ano. Obra da autora, sem dúvidas, que tem uma narrativa ágil, balanceada, bonita e capaz de prender o leitor em todas as páginas da trajetória de Isabella. É exatamente assim que o livro se mostra: personagens complexos, reais, um enredo fascinante, uma aventura fantástica e ensinamentos profundos e necessários.

Em A Garota que Lia as Estrelas, Isabella é nossa heroína. Não apenas por ter em suas veias o sangue de uma cartógrafa decidida a desvendar novas terras, mas por ser alguém que se preocupa com o outro e, especialmente com Joya, a ilha que é seu lar.

“Todas as coisas têm um ciclo, Isabella, um hábito de retornar ao lugar de onde vieram. As estações, a água, as vidas, talvez até mesmo as árvores. Nem sempre você precisa de um mapa para encontrar seu caminho de volta. Embora muitas vezes isso ajude. E então, no que você acredita?”

Uma das coisas mais bonitas que a personagem consegue demonstrar é a força que suas crenças podem ter. Mesmo quando criticada, questionada e desacreditada, ela sabe o que é real e pelo que vale a pena lutar. Não desiste daquilo ao qual foi ensinada e tem um espírito capaz de ver além do que está escrito nas linhas dos mapas aos quais fora ensinada a ler e confeccionar.

E, falando em mapas, o livro traz ainda uma relação pai e filha linda de se ler, o cartógrafo nutre um amor pelos mapas tão grande que foi passado para a filha, a nossa leitora de estrelas. E, sem dúvidas, é uma relação natural, cheia de nuances, que traz muita riqueza para a história, tanto quanto as relações de amizade que são apresentadas, com os personagens de Lupe e Pablo. E não podemos esquecer que a história contada tem sua própria história, com pesos do passado que reverberam nos personagens, especialmente na família de Isa e do Governador.

“Papai não acreditava no destino, mas em cada decisão afetando a próxima, como um grito iniciando um deslizamento de terra.”

É incrível como, através de Isa, desbravamos as lendas que permeiam as terras de Joya ao mesmo tempo que encontramos debates e questionamentos tão similares aos das terras menos míticas nas quais vivemos. São pontos que vão desde o papel das mulheres na sociedade à regimes totalitários. É impossível ler e ficar alheio aos dramas e dificuldades dos personagens, tanto quanto não se pegar imaginando que cada uma das lendas, são verdadeiras. Afinal, toda lenda vem de algo verdadeiro, mas que aconteceu há muito tempo…

A jornada de Isa é a jornada de Joya, é o desabrochar de uma menina e de uma ilha inteira. É aprender que forças maiores do que nós regem a terra que pisamos, mas que cada passo que damos, é capaz de definir para onde iremos a seguir. É saber que toda luta tem seu preço e que continuar em frente, é a melhor maneira de se lembrar de tudo que lhe foi cobrado.

Com A Garota que Lia as Estrelas, é possível se apaixonar por cartografia, desejar poder desbravar terras desconhecidas, saber se guiar por labirintos e ter a certeza de que a garra de uma garota jamais será sobrepujada por qualquer perigo, seja ele dos homens que comandam a terra, seja ele proveniente de seres lendários.

Aleatoriedades
  • Sem palavras para descrever essa edição recebida em parceria com a Editora Jangada! Além da capa linda, temos mapas nas guardas e também, várias ilustrações e outros mapas que remetem à história, nas páginas do miolo. O papel é amarelado e de ótima gramatura e a diagramação boa para a leitura.

  • A classificação do livro é infanto-juvenil, mas esse é daqueles casos que a história sem dúvidas é sutil o suficiente para as mentes jovens e madura o suficiente para adultos. Recomendo muito para quem curte fantasia, histórias inspiradoras e que sejam leituras rápidas. Esse dá pra devorar em um dia!

A Garota que Lia as Estrelas está disponível na Amazon em versão física e e-book e, comprando pelo link do blog, você contribui com o Retipatia, sem gastar nada a mais com isso!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: Grow Old With Me – Tom Odell

E Se Fosse A Gente? ♥ Becky Albertalli e Adam Silvera

E Se Fosse A Gente?
Becky Albertalli & Adam Silvera
Intrínseca
“Tenho certeza de que é o destino agindo. Como se tivéssemos que nos conhecer, depois nos perder um do outro e voltar a nos encontrar. Então esse encontro tem que ser extraordinário. Esse encontro precisa de caças ao tesouro e passeios de carruagem e fogos de artifício e rodas-gigantes.”

Sobre os Autores

Becky Albertalli é psicóloga, o que lhe proporcionou o privilégio de trabalhar com muitos adolescentes inteligentes, estranhos e irresistíveis, e por sete anos foi orientadora de um grupo de apoio em Washington para crianças com não conformidade de gênero. Mora em Atlanta com o marido e os dois filhos. Simon vs. a agenda Homo Sapiens é seu primeiro livro.

Adam Silvera nasceu e cresceu no Bronx. Ele era livreiro antes de entrar no ramo editorial infantojuvenil, e já trabalhou em uma empresa de desenvolvimento literário, um website de escrita criativa para adolescentes e como crítico de romances infantojuvenis e de jovens adultos. Ele é alto, por nenhum motivo aparente, e mora na cidade de Nova York.

Sinopse

Em E se fosse a gente?, Becky Albertalli se une ao escritor Adam Silvera para narrar o encontro de dois garotos que não poderiam estar em momentos mais diferentes da vida, mas que vão desafiar os poderes do universo para ficarem juntos.

De férias em Nova York, Arthur está determinado a viver uma aventura digna de um musical da Broadway antes de voltar para casa. Já Ben acabou de terminar seu primeiro relacionamento, e tudo o que mais quer é se livrar da caixa com todas as lembranças do ex-namorado.

Quando eles se conhecem em uma agência dos correios, parece que o universo está mandando um recado claro. Bem, talvez não tão claro assim, já que os dois acabam tomando rumos diferentes sem ao menos saberem o nome ou telefone um do outro.

Em meio a encontros e desencontros — sempre embalados por referências a musicais e à cultura pop ¬—, Ben e Arthur se perguntam: e se a vida não for como os musicais da Broadway e os dois não estiverem destinados a ficarem juntos? Mas e se estiverem? Aos poucos, eles percebem que às vezes as coisas não precisam ser perfeitas para darem certo e que os planos do universo podem ser mais surpreendentes do que eles imaginam.

E Se Fosse A Gente?

A pergunta do título do livro paira junto ao ar elétrico de Nova York. Mais especificadamente, colocando dois jovens numa agência dos Correios no mesmo momento. Uma conexão que só pode ser explicada pelo acaso promovido pelo próprio Universo. Um momento digno de um show da Broadway. Um momento que irá mudar a vida de Ben e Arthur e, sem dúvidas, fazer com que qualquer leitor acredite no acaso, no Universo ou na magia que corre as ruas cinzentas de Nova York.

Arthur deveria estar indo buscar um café para o pessoal do escritório em que está fazendo um estágio de férias. Estar em Nova York não corresponde exatamente à sua ideia de verão ideal, já que está longe de seus amigos, longe de sua casa na Geórgia. Para completar, ainda têm o atrito constante entre seus pais, por causa do desemprego de seu pai que parece uma erva daninha a corroer o relacionamento familiar. Isso até que ele encontra um rapaz de nome desconhecido numa agência do Correio. Isso até que seu coração bata desenfreado. Até que o garoto desapareça junto à um show de flash mob. Seria ele apenas parte daquilo tudo ou o universo está realmente lhe mandando uma mensagem?

Ben só quer uma coisa: se livrar daquela caixa. Talvez um pouco mais, na verdade, já que estar de recuperação com seu ex namorado é, sem dúvidas, algo que irá conseguir deixar os dias de detenção ainda piores. Ele preferia muito mais estar em casa, jogando The Sims e escrevendo A Saga do Mago XXX. Saindo com seu melhor amigo Dylan, vez por outra. Isso sim seria a definição de verão perfeito. Mas então, ele resolve mandar a caixa do término pelos Correios. E daí, aquele garoto. Ele não deveria estar pensando em garotos tão cedo, deveria? E ainda por cima um que usa uma gravata de cachorro quente. Mas então, por que será que Arthur não sai da sua cabeça?

E Se Fosse A Gente? é sobre a procura. De um pelo outro, da expectativa de reencontro. Da possibilidade de ver que as coisas nem sempre são do jeito que imaginamos, mas que isso não as faz menos importantes ou marcantes em nossas vidas. É a ideia de que existindo ou não destino, as pessoas têm sim sua parcela no curso de suas vidas. São decisões, das mais corriqueiras às mais complexas, que nos levam a determinado lugar, a determinada hora. Que nos levam a conhecer ou não alguém. E, quem sabe, a se apaixonar ou não por alguém.

O livro segue intercalando as narrativas de Arthur e Ben, de um modo que é possível sempre conhecer os dois lados da história, o que têm acontecido com cada um desde aquele dia dos correios. Ambas as narrativas são fluidas, mas confesso que tenho certa preferência pela de Arthur, que é escrito pela Becky Albertalli (esse é o quarto livro da autora que leio), sendo Ben escrito por Adam Silvera (meu primeiro contato com a escrita dele). Apesar da minha preferência, os estilos dos escritores se mesclam bem, funcionam como complementares e fazem a história seguir num ritmo coerente.

O foco em E Se Fosse A Gente? é todo do romance, o que fez achar que em alguns momentos a história poderia ter sido um pouco mais ágil e ter a impressão que alguns acontecimentos foram colocados apenas como justificativas de um caminho que os escritores pretendiam que a história seguisse. Mas, fora isso, o romance têm aquele teor já conhecido dos romances da Becky: um alto grau de fofura, que sempre irá mesclar temas importantes, como primeira vez, relacionamentos (amizade, amor e tudo o mais), responsabilidade e amadurecimento.

Os personagens passam por dias doces e tribulados durante o verão e precisam descobrir se o que construíram, se o que possuem é forte o suficiente para sobreviver ao fim das férias e à distância, já que Arthur irá voltar para a Geórgia. São muitos questionamentos que pairam sobre o relacionamento de Arthur e Ben e, ao mesmo tempo, cada um tem seus outros próprios universos entre família e amigos, que precisam de atenção. Afinal, a vida não para quando se começa um relacionamento novo. O universo está sempre trabalhando e essa é uma das discussões mais legais que o livro traz. Essa questão de saber balancear a vida para que as pessoas importantes para você não fiquem de fora quando outras surgirem.

E Se Fosse A Gente? é uma história para acreditar que podemos ter quantas primeiras vezes quisermos, que devemos deixar o universo fazer o trabalho dele, mas que não podemos nos esquecer de que o que depende de nós, nem o universo dá conta sozinho. E, claro, se houverem tickets para um musical da Broadway, é bom saber aproveitar o show, seja ele como for!

Aleatoriedades
  • Essa leitura super especial foi feita em parceria com a Editora Intrínseca (obrigada pelo livro!) e para o evento de Encontro de Fãs da Becky Albertalli que rolou no dia 27/07 e que tive o prazer de realizar junto ao blog Coisas de Mineira e a Leitura Shopping Cidade de Beagá.
  • Esse foi meu quarto contato com a escrita da Becky Albertalli e, apesar de não ser o livro favorito, é muito legal notar como ela mantém o estilo e leveza das histórias, mesmo escrevendo em parceria com outro autor. Os outros livros dela já lidos e resenhados por aqui são: Com Amor, Simon; Os 27 Crushes de Molly e Leah Fora de Sintonia.
E Se Fosse a Gente? está disponível na Amazon e, comprando pelo link do Retipatia, você ajuda o blog, sem gastar mais nada com isso!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia