Categoria "Contos"

Conto ♥ Você Olha ou Você Vê?

Em 08.11.2017   Arquivado em Contos

Aqueles olhos que refletem a cor do mundo inteiro, que sempre veem o que enxergam. Ou que veem tudo que os outros são apenas capazes de enxergar.

– Quando foi exatamente que isso começou?

– Quando caímos no sono, ou quando exatamente anoitece? Quando nos apaixonamos ou quando, de fato, sentimos o passar do tempo? Ou quando foi exatamente que tudo começou a dar errado na humanidade?

– Não me responda com outra pergunta, Gisele.

– Sempre respondem às minhas perguntas com outras perguntas…

– Quem? (mais…)

Conto ♥ Jack

Em 25.08.2017   Arquivado em Contos

Os passos ecoam forte no chão de terra. Os galhos secos e as folhas se esfacelam com o pisar, ranhuras são feitas nas solas dos pés, que não cessam, assim como o resfolegar que segue tão próximo que parece vir em baforadas na nuca.

O coração se aperta a cada bombear de sangue, que corre rápido pelas veias que queimam pela adrenalina. O vestido de tecido fino gruda no corpo pelo transpirar.

Raios de sol penetram pelas copas das árvores, que começam a ficar mais escassas. Uma brisa fresca toca meu rosto junto ao primeiro fio de esperança. Depois de tanto tempo.

Como num último fôlego, minhas pernas conseguem imprimir mais velocidade, é a sede por liberdade. Tudo seria perfeito se não fossem as unhas que se assemelham a garras que seguram meu ombro, fazendo-me virar, torcer, tropeçar. Vou ao chão. Desabo mais em mente que em corpo. (mais…)

Conto ♥ Stubborn Love

Em 28.07.2017   Arquivado em Contos

Leia ouvindo Stubborn Love, dos The Lumineers

É como um relógio, todas as peças precisam estar funcionando para que ele consiga marcar as horas. Se um pequeno elo se rompe, se o dente de uma engrenagem se desgasta mais que os demais, o ciclo natural do andar das horas é comprometido. Se atrasa. As horas correm em tempo distinto ao que deveriam.

O que é o tempo, afinal de contas? Mera convenção social. Arcaica, retrógrada. Feita para delimitar os afazeres, prender as etapas da vida. Contar o que não deveria ser contado.

– Está fugindo do tema, Helena.

– Estou? – Ela assente.

– Sim, tem visto seu marido?

– A expressão ‘tem visto’ é um pouco vaga. O que exatamente quer dizer com isso? (mais…)

Conto ♥ Devolva-me

Em 19.07.2017   Arquivado em Contos

Leia ouvindo Devolva-me da Adriana Calcanhoto

São as amarras invisíveis as que mais prendem. Sufocam. São como âncoras soltas em alto-mar, que fazem naufragar em meio ao turbilhão de ondas fortes e agitadas que não cessam.

E são ondas extenuantes, repetitivas. Sempre fazem voltar ao fundo, ao silêncio maciço que as águas tomam por debaixo da maré.

Retornam os mesmos sentimentos. Revoltosos. A pergunta que não quer calar é sempre a mesma: as remadas são fortes o suficiente para combater a tempestade ou não?

Perder todas as amarras, todos os nós cegos que fazem ver o que os outros desejam ver e não aquilo que deveria ver. O que é a realidade afinal de contas? Aquilo que se vê ou aquilo que se crê?

Não há menção ou lista, guia ou manual. Nada que faça com que seja mais fácil descascar todas as camadas intangíveis que foram vestidas ao longo dos anos. (mais…)

Conto ♥ Halfway

Em 17.06.2017   Arquivado em Contos

Leia ouvindo: Drink-Me – Anna Nalick

Que me perdoem aqueles que detestam o estrangeirismo, mas não há palavra que melhor descreva o sentimento ou a sensação.

Numa trilha que só se pode seguir para dois planos, um que habitualmente chamamos de mundo real e o outro, para o qual não há melhor denominação do que país das maravilhas, encontro-me, exatamente, halfway.

Se preferir, entenda como ‘a meio caminho’, mas não é exatamente o que quero dizer, se é que você me entende. Ou talvez não entenda, exatamente porque você encontra-se, deliberadamente, em algum lugar e, não, halfway.

Meus All Stars azuis param bem ao lado das roseiras e as observo com minúcia. É possível perceber as imperfeições na tinta vermelha. Pequenos pontos, descascados, ranhuras que mostram sua verdadeira cor. Não desejava nenhuma delas, ou nada delas, por isso sigo em frente.

O sol do outono aquece minha pele e meus cachos volumosos fazem aquela sombra desconexa no chão de ladrilhos. Já perdi a conta dos meus passos quando ecos soam em meus ouvidos. Não são abafados e densos como o som que meus tênis produzem. São do tipo que nenhum sapato que eu conheço faria. (mais…)

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