Categoria "Contos & Crônicas"

Once Upon an Ice Cream…

Em 23.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Once upon an ice cream eu queria todos os sabores juntos. Todos mesmo, de maracujá a chocolate. De beterraba a maresia. E queria também com gosto de céu e estrelas cadentes, aquelas que povoam o céu que nunca vi, mas acredito que existe, junto aos unicórnios que cavalgam as florestas repletas de tempestades de arco-íris.

Mas só tinha de iogurte. E não gosto de coisas com gostos que não são delas. Iogurte tem que ter gosto de iogurte. Sorvete, de sorvete. E não venha dizer que eu queria todos os sabores, queria todos os sabores reais. Não os de iogurte.

Então, não conseguindo decidir entre o sabor de água fresca e gergelim, coloquei todos eles, até mesmo iogurte. E a boca misturou todos antes que se misturassem lá dentro. Que diferença faria? Já tinha também calda de veludo com damascos, granulados de nozes e pérolas.

O sabor. Esse ficou misturado-errado. Ficou do jeito, com gosto de nada. Coisa em demasia fez isso, fez nada. E de nada saboreei até o fim do pote, o preço do quilo não deixaria desperdiçar granulado algum. (mais…)

Os blues do Djavan e a Luz de Tieta

Em 22.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Fico a divagar sobre as pessoas. Não de me preocupar se desperdiçam os blues do Djavan ou com quem se deita.

Importo-me com o que fazem dentro de si, se o olhar que atravessa janela do ônibus tem sentido por causa dos fones dos ouvidos ou se o gole da cerveja do boteco de copo sujo chique na segunda-feira, é de cevada menos amarga que a de domingo.

Não sei, talvez seja coisa da minha cabeça pensar porque o rapaz está entre as portas do próprio prédio, sem nem vir nem ir. Mas estranho mesmo é que sempre acabo tentando entender porque algumas casas tem duas portas, nos fazendo entrar duas vezes nelas.

Tento ler o título do livro da colega ao lado e lembro da garota que me perguntou o que eu lia no ponto de ônibus. A parte boa é que ela se desprendeu pelo título, ele gastou meus minutos mesmo sem valer a passagem dos olhos. Só que dizem que tudo agrega, que tudo que se lê passa a fazer parte da gente, a nos compor. Acho que fiquei descomposta. (mais…)

dentre tantos, favoritos e prediletos…

Em 19.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

dentre tantos, favoritos e prediletos…

Não sou de ter um ou dois. Até mesmo mesmo três ou quatro… é pouco em demasia.  Enumerar em ordem de preferência é, provavelmente, algo ao qual não fui letrada.

Variam de estado. De estado de espírito. Da meu e do deles.

Não é ser feito de células, carne, osso e líquido rubro. É de ideias, de rabiscar da ponta do lápis-caneta-lapiseira ao papel, ou até ao dedilhar das teclas da máquina de escrita ou teclado.

É ser feito de tempestade, fúria, inconformismo e indigna-inação, como diria o Skank. É quem transpira pelas palavras, pelos gestos e pelas consoantes. Que ama e desama as vogais. Que faz o queixo de leitor cair, traz perplexidade pela alma destroçada, esmiuçada e analisada sob o crivo do bom legista que é.

Sangra em cada palavra. Traça cada uma em mente para então buscar a sonância, a cadência que mais lhe atrai como primeiro leitor que é de si mesmo. (mais…)

P & B

Em 11.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Era o ano de 1950 e a família se reunia na sala de abajures e sofá de estampa de flores outonais, enquanto o patriarca ajustava a antena até que os chuviscos do aparelho sumissem e a imagem ganhasse as devidas escalas de cinza.

Os garotos, que já passavam dos trinta, riam ao lado de suas esposas e as crianças iam de lado a outro perguntando ao avô se já estava pronto.

A única alheia a tudo aquilo, imersa na página do último romance que seu pai encomendara da livraria, era Antonella. Seguia as linhas e adentrava a floresta com a donzela, que fugia do vilão até esbarrar no lindo príncipe que cavalgava a esmo pelas terras banhadas à luz da lua. Luz essa que era da cor da leitora, tão pálida e de saúde tão débil que não lhe era permitido sair de casa. A família a tratava como se fosse feita de papel e, como tal, era proibido que se molhasse no ar das ruas da cidade.

Cerceada da vida do lado de fora, viaja pelas páginas como se adentrasse em navio pirata e velejasse até terras desconhecidas, sem se importar com as mínimas coisas que a tirariam do lugar.

– Antonella, largue esse livro. Olhe como as imagens são bonitas! É bem melhor do que um livro!

Se a irmã mais velha era enclausurada, não havia autoridade no patriarca e em sua esposa capaz de podar as asas amplas as quais já nasceram com Angelina. Os livros eram muito parados para seu espírito vivaz e a melodia das festas e o ar das praças lhe pareciam muito mais imaginativos. (mais…)

Fumaça, Cinza e Coca-Cola

Em 16.08.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Saindo do trabalho algumas dezenas de minutos depois do habitual, paro no passeio, esperando a maré de carros cessar enquanto abria a bala que iria comer no ônibus – enquanto ler-ia –  e tinha à mente uma trivialidade qualquer que me levaria a analisar o glitter prateado de meus sapatos e à constatação, não muito revestida de novidade, de que tenho especial apreço por vestimentas na cor cinza – calçados inclusos – e, no soar do plástico que envolve a massa cor de rosa, o chiado da pólvora a incendiar se faz presente.

Num gesto automaticamente antipático, que vem depois do olhar de esguelha que identifica o sujeito alinhado da ação torpe, que agora incendeia o cigarro que é aparado na mesma mão em que jaz uma lata de Coca-Cola, espanto o ar para tentar espalhar o resquício já conhecido do cheiro do apagar do fósforo que tanto me faz pensar de ser esta a pior parte de se acender uma vela, fato este acompanhado de um singelo passo para trás na vã tentativa de evitar a fatídica primeira baforada que sempre se segue à primeira tragada. A cabeça que sai do terno repete meu olhar de esguelha, mas a mão livre da Coca abana a fumaça que vivamente, como se soubesse de minha fuga e me persegue, agindo como reflexo constrangido à antipatia. Abanada a fumaça, cigarro abaixado junto da lata, vai passos para trás. (mais…)

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