Resenhas Literárias

VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue ♥ Cesar Bravo

VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue
Cesar Bravo
DarkSide Books
2019 / 288 páginas
“O senhor precisa entender que muito sangue já foi derramado nessas terras, sangue que a terra foi obrigada a engolir. E uma coisa que se alimenta com sangue por tanto tempo, logo pega gosto pela coisa.”
Sobre Cesar Bravo

Nascido em 1977, em Monte Alto, São Paulo, foi apenas recentemente que Cesar Bravo deu voz à sua relação visceral com a literatura. Durante sua vida, já teve diversos empregos — ocupando cargos na indústria da música, na construção civil e no varejo. É farmacêutico de formação. Bravo publicou suas primeiras obras de forma independente, e em pouco tempo ganhou reconhecimento dos leitores e da imprensa especializada. É autor e coautor de contos, romances, enredos, roteiros e blogs. Transitando por diferentes estilos, possui uma escrita afiada, que ilumina os becos mais escuros da psique humana. Suas linhas, recheadas de suspense, exploram o bem e o mal em suas formas mais intensas, se tornando verdadeiros atalhos para os piores pesadelos humanos.

Cesar é um admirador e seguidor dos grande mestres, devoto de Edgar Allan Poe e H.P. Lovecraft. Com uma voz única e muito brasileira, o terror nacional volta a respirar na pele da nova geração de autores e leitores sedentos por histórias que dêem voz a nossa identidade, mas que nos levem muito além da carne.

Sinopse

Dizem que segredos não sobrevivem por muito tempo em cidades pequenas. Mas, em Três Rios, eles estão por toda parte há tempo demais. Sombrios, aterrorizantes e indecifráveis — um espelho da cidadezinha onde tudo aquilo que é estranho e profano sempre encontra um jeito de se manifestar na superfície.

Em VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue, Bravo guia os leitores amaldiçoados até os cantos mais sombrios de nossas mentes. E a cidadezinha de Três Rios, localizada no noroeste paulista, é o palco principal — um ponto de encontro de todas as coisas estranhas que acontecem nas redondezas. O inferno corre por essas águas e lança suas sementes nessa terra. Um lugar vivo e pronto para devorar o próximo filho que renegar sua origem.

VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue se passa em um período especial e repleto de esquisitices, entre 1985 e 1995, e tem início em uma videolocadora peculiar capaz de alugar os sonhos e as vidas de seus clientes. Quem viveu nessa época vai ter para sempre suas lembranças com textura de VHS. Bravo constrói a narrativa de seu novo romance de horror fragmentado com base em registros orais, casos sinistros e uma porção de detalhes que rodeiam a vida dos moradores de Três Rios — mandingas macabras, crimes brutais, animais soturnos e inúmeros mapas, notícias de jornais e anúncios compõem o imaginário de um local esquecido pelo tempo.

VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue

Tiras coloridas verticais surgem na tela: ajuste agora as cores e o som do seu equipamento. Surgem os trailers e, então, o que você realmente estava esperando: o filme. Assim que acaba, você não espera o letreiro finalizar, dá stop e manda o videocassete rebobinar. Apesar de ser um saco esperar a fita voltar, você não quer pagar multa na locadora por algo tão besta, mas não tira o olho do relógio porque depois das 17h a devolução também tem multa.

“E quem disse que existe uma idade pra gente deixar de ter medo?” Branco como algodão

Talvez o ritual pode ser desconhecido para muitos, mas se você está pelo menos na casa dos trinta ou quase nela, é provável que já tenha assistido alguma coisa em um videocassete. Ou mesmo esteja familiarizado com a rotina de visitar uma locadora e escolher um VHS para assistir.

E o livro VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue pega esse marco da memória coletiva brasileira e a transforma em algo sobrenatural, aterrorizante e, ainda assim, totalmente reverente à cultura popular brasileira.

“Eles também não eram mais humanos. Não percebiam, mas a cada novo golpe um pouco de suas almas ia embora. Talvez eles não se importassem, estavam imbuídos com a espada da justiça, gente assim não recua. Eles continuariam até terminarem o serviço.” Bicho-papão

Desde mitos populares como a loira do banheiro a crenças populares religiosas e com um pé na ficção científica vamos conhecer os 20 contos que compõem o livro. Todos se passando na cidade de Três Rios e região. Um lugar em que você ficará contente de nunca ter colocado os pés.

E como carta de bem-vindo à cidade, somos levados ao lugar mais histórico-comum: a videolocadora Firestar. Aqui você pode deixar seu VHS antigo e ganhar desconto na nova locação. Você também pode pagar multa se não rebobinar a fita, mas talvez, consiga que Dênis alivie sua barra.

“Todo ser humano gosta de assistir outro ser humano sofrendo. É coisa nossa, a gente se comove com a dor do outro, então passamos a sentir esse tipo de interesse bizarro.” Torniquete

Mas não pense que tudo são flores, uma chuva forte e muito suspeita pode acabar com tudo pelo caminho. Uma praga que ataca os animais está a espreita e talvez um caminhão o persiga em uma estrada do além mundo. Talvez rezar um pai nosso seja aconselhado, se você acredita nesse tipo de coisa, ou não.

Uma das maiores belezas de VHS não está [apenas] no sangue a jorrar do torniquete ou no último centavo mais bem gasto da Senhora Shin. Ela está na capacidade do autor em chocar, enervar, criar coceiras (desafio os leitores de Torniquete a não se coçarem uma vez sequer), temores, medos, risadas (às vezes de nervoso, é claro) e asco não pelo sobrenatural ou irreal, mas pela criatura que está no topo da cadeia alimentar: nós, seres humanos.

“Não entendemos nada do mundo, é o que eu sei. Homens como a gente não conhecem nada além do que a TV mostra. E a TV é cheia dessa gente que se diz esperta, essa corja de cientistas e astronautas, eles não conhecem nem a profundidade do próprio cu.” Lugar Algum

O terror que vemos em cada um dos contos é o elo mais tangível na sociedade em que vivemos, é aquele que nós mesmos podemos criar, ver ao andar na rua ou se deparar no noticiário. É aquele que não te faz temer a criatura debaixo da cama, ou o inferno após a morte, mas a que caminha ao seu lado ou é sua vizinha. Quem sabe, seu próprio familiar. Afinal, até que ponto estamos dispostos à ir para combater o mal?

Com uma narrativa ágil, brasileira e na medida certa para contar cada um dos causos, Bravo consegue estabelecer uma conexão forte entre as histórias criadas, nos permitindo criar teorias (algumas até conspiratórias) para saber o que realmente se dá em Três Rios e porque aquelas terras são tão assombradas (e assombrosas). O elo, a verdade, está exatamente onde se espera: no pior que cada um pode ter. Na irrefreabilidade do ser humano.

“Descobri que pânico era o que eu sentia naquele momento, pânico é quando você percebe que não pode fugir do seu destino.” Talheres de ossos do rei invertebrado

Cada conto, que se inicia com um trecho de música que casa com a história prestes a ser lida, pede para que a leitura continue e continue e, ao chegar ao último, vendo todos os laços criados, a certeza é de que se pode voltar a primeira página e maravilhar-se novamente. O livro sem dúvidas entrou para o roll de favoritos.

VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue é um livro tenso, denso, sangrento. Traz à tona todo o mundo sombrio que reverbera debaixo da pele de cada ser humano no enlace perfeito de terror psicológico e prosa brasileira. Uma ode de nostalgia da época inesquecível de fitas a serem rebobinadas.

“Sabe, doutor, eu precisei rodar todo esse país para entender o que coloca a humanidade no topo da cadeia alimentar. Nós não somos os mais aptos e resistentes, muito menos os mais fortes. Mas somos impiedosos, dr. Milton, impiedosos e práticos.” HSBF6-X

Não esqueça de rebobinar a fita antes de devolver e consulte um médico em caso de uma coceira persistente.

Sobe o letreiro.

Aleatoriedades
  • VHS foi recebido em parceria com a DarkSide Books para participar da Leitura Coletiva de Verdadeiras Histórias de Sangue! Obrigada Dark e Clarissa pelo convite!
  • VHS: Verdadeiras Histórias de Sangue está disponível na Amazon!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...