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Para Sempre Alice ♥ Lisa Genova

Para Sempre Alice (Still Alice)
Lisa Genova
HarperCollins Brasil
2019 / 320 páginas
“Temo com frequência o amanhã. E se eu acordar e não souber quem é o meu marido? E se não souber onde estou nem me reconhecer no espelho? Quando deixarei de ser eu mesma? Será que a parte do meu cérebro que responde por minha personalidade é vulnerável a esta doença? Ou será que minha identidade é algo que transcende neurônios, proteínas e moléculas de DNA defeituosas? Estarão minha alma e meu espírito imunes à devastação da doença de Alzheimer? Acredito que sim.”
Sobre Lisa Genova

Lisa Genova é Ph.D. em neurociência por Harvard, e viaja pelo mundo inteiro dando palestras sobre o Alzheimer e outros males da mente, além de ter feito aparições em diversos programas de TV e apresentado um TED Talk com mais de três milhões de visualizações. Para sempre Alice foi seu livro de estreia, publicado pela primeira vez em 2007, e adaptado para os cinemas em 2014, com Julianne Moore no papel principal. Lisa mora com a família em Massachusetts, nos Estados Unidos.

Sinopse

Alice Howland é uma mulher feliz, bem casada e com três filhos crescidos, que está no auge de sua carreira como professora universitária. De repente, ela percebe que está começando a se esquecer das coisas. Conforme a confusão nubla cada vez mais sua mente e a memória dela continua a traí-la, ela recebe um diagnóstico que mudará sua vida para sempre: mal de Alzheimer precoce. Corajosa e independente, Alice luta para manter seu estilo de vida e viver o presente ao máximo, mesmo com seu senso de identidade escapando por entre os dedos. Este livro best-seller do The New York Times é um retrato fiel e realista de uma pessoa que lentamente vai perdendo seus pensamentos e suas lembranças para o mal de Alzheimer e nos ensina que, mesmo com os aspectos da vida desaparecendo de nossa mente aos poucos, cada dia também traz uma nova oportunidade de viver e amar.

Para Sempre Alice

Alice Howland é pesquisadora e professora universitária, dona de uma memória inigualável, mas não apenas isso. Sua carreira está no auge, sua família, com filhos encaminhados, um casamento feliz. Quando ela olha para trás, não há arrependimentos, o que Alice vê é a construção da vida que ela sempre sonhou. Afinal, não é qualquer um que pode se dar ao luxo de alcançar seus objetivos nessas duas esferas da vida.

Todo mundo esquecia essas coisas, especialmente ao ficar mais velho. Somando a isso a menopausa e o fato de ela estar sempre fazendo três coisas ao mesmo tempo e pensando em outras doze, aqueles lapsos de memória de repente lhe pareceram pequenos, corriqueiros, inofensivos e até razoavelmente esperáveis. Todo mundo ficava tenso. Todo mundo sentia cansaço. ‘Todo mundo esquece coisas.‘”

As coisas que pareciam bem normais começam a mudar quando Alice, em uma palestra, se esquece de uma palavra. O que é muito estranho e incomum para a titular da cátedra William James de psicologia da Universidade de Harvard.

“O pior aparecia sob o título de ‘Comunicação’: a fala é quase ininteligível. O paciente não compreende o que as pessoas dizem. Desiste de ler. Nunca escreve. Não usa mais a linguagem. […] Tudo o que fazia e amava, tudo o que ela era, exigia a linguagem.”

O detalhe é que o episódio não é o único chegando ao extremo de Alice estar fazendo sua corrida habitual – que repete há anos, inclusive – e esquecer onde estava e qual seria o caminho de volta para casa.

O episódio, somado à outros pormenores, faz com que ela procure ajuda médica e, depois da insistência na procura por vários profissionais, a resposta surge: mal de Alzheimer precoce.

Será que ela era suficientemente competente para compreender o que se dizia? Será que estava com o cérebro danificado e confuso demais para admiti-lo? Ela sempre fora tratada com grande respeito. Se sua superioridade intelectual fosse cada vez mais substituída pela doença mental, o que viria a substituir esse grande respeito? Pena? Condescendência? Constrangimento?

A partir daí, surgem várias questões e debates na história: a negação à doença, a busca quase insana por uma cura ou algum tratamento experimental para retardar os efeitos da doença. O abalo que isso causa no núcleo familiar e na própria Alice.

“Desejou estar com câncer. Trocaria o mal de Alzheimer pelo câncer sem pestanejar. Envergonhou-se de desejar isso, o que decerto era uma barganha inútil, mas, ainda assim, permitiu-se fantasiar. No câncer ela teria algo a combater. Havia a cirurgia, a radioterapia e a quimioterapia. Haveria uma possibilidade de que ela vencesse. Sua família e a comunidade de Harvard se uniriam a sua batalha e a considerariam nobre. E, ainda que no fim ela fosse derrotada, poderia olhá-los nos olhos, consciente, e se despedir antes de ir embora. A doença de Alzheimer era um monstro de um tipo completamente diferente. Não havia armas capazes de matá-lo.”

Um dos pontos mais fortes dessa história é que, com sua narrativa simples e fluida, a autora segue em terceira pessoa, pelos pensamentos da própria Alice, seguindo-a tão de perto que parece que ela mesma nos relata os ocorridos. Isso nos dá um vislumbre totalmente diferenciado não apenas da doença, mas em como funciona o seu avanço em um paciente.

No caso de Alice, alguém tão brilhante, o impacto parece ser ainda mais forte. Alguém que sempre usou a linguagem, que trabalha com isso durante toda a vida vê, aos poucos, em como tudo começa a se perder e pensamentos mais básicos e triviais tornam-se dificultados. É um balanço difícil já que, a própria inteligência de Alice fez com que seu diagnóstico fosse um pouco atrasado, já que seu cérebro tentava compensar de outra maneira os efeitos do Alzheimer e, assim, velando os sintomas já presentes por pelo menos um ano.

“[…] queria viver para segurar o bebê de Anna no colo e saber que era seu neto. Queria ver Lydia representar um papel de que se orgulhasse. Queria ver Tom apaixonar-se. Queria mais um ano sabático com John. Queria ler todos os livros que pudesse, antes que não conseguisse mais ler.”

Apesar da leitura ser fluida, existem muitos termos científicos e médicos que são citados, sendo muitos aspectos dedutíveis e ou explicados diante do contexto da história. Ainda, é interessante notar como a autora se vale do próprio estágio da doença de Alice para se expressar capítulo a capítulo, às vezes é ágil e sagaz, por vezes, repetitivo e desconcertante. A mulher que conhecemos no primeiro capítulo, Setembro de 2003, numa olhada superficial em nada tem a ver com a que nos deparamos em Setembro de 2005.

“Conversavam sobre Alice como se ela não estivesse sentada na poltrona, a poucos metros de distância. Falavam dela, em sua presença, como se ela fosse surda. Falavam dela, na sua frente, sem incluí-la, como se ela sofresse de mal de Alzheimer.”

E aí eis o cerne dessa história, bem além de mostrar o avanço da doença sob o ponto de vista de uma paciente, é perguntar: o quanto nossas memórias nos definem? Deixamos de ser nós mesmos quando não temos mais as nossas memórias?

Talvez a questão possa parecer não ter resposta certa ou errada, mas o título do livro Para Sempre Alice, assim como em seu original Still Alice (em tradução livre algo que passa a ideia de ‘ainda sou Alice’), nos remete claramente ao fato de que o portador de Alzheimer não deixa de ser quem é diante da enfermidade. Não deixa de ser alguém.

“Mas, será que eu sempre a amarei? O meu amor por ela está na minha cabeça ou no meu coração?”

É impossível passar incólume pela leitura, não apenas pelo drama de Alice, mas em como suas relações deterioram junto de sua memória. Em um ano, a incapacidade de manter-se em sua cadeira em Harvard. Mais um e já quase impossível se lembrar dos próprios filhos e de que sua irmã e mãe, há muito enterradas, não estão prestes a chegar em casa.

“Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente. Num amanhã próximo, esquecerei que estive aqui diante de vocês e que fiz este discurso. Mas o simples fato de eu vir a esquecê-lo num amanhã qualquer não significa que hoje eu não tenha vivido cada segundo dele. Esquecerei o hoje, mas isso não significa que o hoje não tem importância.”

Aos poucos, o que parece é que Alice está a perder-se de si. Não apenas sua inteligência, mas quem ela é. Porque, novamente, lembramos o quanto nossas memórias definem quem somos e porquê o somos. Mas voltamos ao outro ponto: para sempre Alice, still Alice. Percebemos que, nos pequenos detalhes, nos vislumbres de memória, nos pequenos hábitos, aquela que conhecemos ainda está lá. Presente, ainda que a própria mente esteja tentando anuviar-se e esquecer.

O livro é uma leitura profunda, que traz reflexão e sensibilidade. Não apenas para os pacientes de Alzheimer ou suas famílias, mas também em como tratamos o envelhecer, a perda da memória, o passar do tempo. Em como priorizamos aqueles que nos são especiais, o que estamos dispostos a abrir mão por eles. É um lembrete sobre empatia.

“[…] as lições que havia aprendido no caminho. Deu-lhes cinco: sejam criativos, sejam úteis, sejam práticos, sejam generosos e acabem em grande estilo. “Já fui todas essas coisas, eu acho. Só que ainda não acabei. Não acabei em grande estilo.”

Para Sempre Alice é um lembrete de que podemos ter parte de nós definidas por memórias, mas que mesmo sem elas, não deixamos de ser quem somos. Não deixamos de merecer amor, carinho, atenção, de ser alguém com vontades, desejos e gostos, e, em especial, de merecer respeito.

Para Sempre Alice: O Filme

Revi o filme estrelado por Julianne Moore depois da leitura e, sem dúvidas é impossível não perceber porque a atriz ganhou o Oscar e vários outros prêmios por sua atuação. Apesar de características físicas diferentes das descritas para Alice no livro, na tela, é impossível não ver a personagem das páginas em Julianne. Ela se transformou em Alice em cada minuto do filme.

Dirigido e escrito por Wash Westmoreland e Richard Glatze, o filme inspirado no romance de Lisa Genova foi lançado em 2015 e conta também com Alec Baldwin no papel de John Holland, marido de Alice e Kirsten Stwart como Lydia, Kate Bosworth como Anna e Hunter Parrish como Hunter, filhos de Alice.

O enredo segue a trama que vemos no livro, claro que de maneira mais enxuta e dando alguns vislumbres que o livro não atinge, como momentos entre a família em que Alice não está presente. Apesar de ter uma nota geral não muito boa, considero-a um tanto injusta. O filme traz uma abordagem distinta do livro, até mesmo considerando o tipo de mídia, seria difícil prender-se em Alice, mas é um bom relato sobre os efeitos da doença tanto na paciente quanto em sua vida e núcleo familiar.

Salvo o fato de que a passagem do tempo poderia ser um pouco mais clara (o que é um ponto muito positivo no livro, já que nele os capítulos são datados), a história de Alice é para lembrar que ela é uma lutadora, para viver e apreciar cada momento de sua vida, o que ela ainda possui, está lá, especialmente com o lindo discurso que temos no livro e também no filme.

É um longa que vale a pena ser assistido não apenas pela interpretação de Julianne Moore, mas pela história e necessidade de que conheçamos e estabeleçamos uma noção de empatia e respeito por aqueles que, de alguma maneira, vivem com o mal de Alzheimer.

Aleatoriedades
  • Para Sempre Alice foi recebido em parceria com a HarperCollins Brasil, obrigada Harper!
  • O livro foi relançado em nova edição, formando um padrão para as capas dos títulos da Lisa Genova que foram publicados pela HarperCollins no Brasil. A primeira edição é de 2009, com a capa do filme e a de 2019 compõe o estilo com A Família O’Brien, Com Amor, Anthony e A Outra Metade de Sarah. É interessante notar que os livros da autora seguem o estilo de histórias impactantes, sempre relacionados à temas atuais e da área da saúde, tratando em A Família O’Brien sobre a doença de Huntington; em Com Amor, Anthony sobre autismo e A Outra Metade de Sarah um dano cerebral que afeta a percepção do lado esquerdo do cérebro.
  • Os títulos da Lisa Genova publicados pela HarperCollins Brasil estão disponíveis na Amazon em versão física e e-book: Para Sempre Alice | A Família O’Brien | Com Amor, Anthony | A Outra Metade de Sarah

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

1 comentário

  1. Gostei bastante do artigo de hoje, sempre estou aqui acompanhando seu blog. Tenho aprendido muitas coisas legais aqui e te agradeço por compartilhar…

    Beijos .

    Meu Blog: Samara Silva

Repense, renove, rediscuta...