Resenhas Literárias

Café da Manhã dos Campeões ♥ Kurt Vonnegut

Café da Manhã dos Campeões
Kurt Vonnegut
Intrínseca
2019 / 400 páginas
“A expressão ‘Café da manhã dos campeões’ é marca registrada da General Mills, Inc., utilizada num cereal matinal. O uso da expressão idêntica no título deste livro não tem a intenção de indicar um patrocínio da General Mills, ou fazer uma associação, nem pretende ridicularizar seus ótimos produtos.”
Sobre Kurt Vonnegut

Kurt Vonnegut Jr. (Indianapolis, 11 de novembro de 1922 – Nova York, 11 de Abril de 2007) foi um escritor estadunidense de ascendência germânica. Concluída a formação em Química, alistou-se no exército e combateu na Segunda Guerra Mundial. Feito prisioneiro, presenciou o bombardeamento de Dresden. Após a Guerra, formou-se em Antropologia.

É autor de vários romances, ensaios e peças de teatro, entre os quais se destacam Player Piano (Revolução no Futuro) de 1952, Cat’s Cradle de 1963, Slaughterhouse-Five (Matadouro 5) de 1969, Breakfast of Champions (Café-da-Manhã dos Campeões) de 1973 e Galápagos de 1985. Sua última obra foi Look at the Birdie de 2009, livro póstumo com uma coleção de contos e ensaios.

Vonnegut morreu em 11 de abril de 2007, semanas após uma queda em sua casa em Manhattan que resultou em graves complicações cerebrais.

Sinopse

Em um de seus maiores best-sellers, Vonnegut mantém o estilo ácido e engraçado que o tornou um dos escritores norte-americanos mais importantes do século XX.

Neste livro — lançado originalmente em 1973, uma sátira sobre guerra, sexo, racismo, sucesso e política nos Estados Unidos — um dos personagens mais emblemáticos e alter ego de Vonnegut, o autor de livros de ficção científica Kilgore Trout, descobre que Dwayne Hoover, um vendedor de carros americano aparentemente normal, está levando a sua ficção ao pé da letra e perdendo o juízo. Com a ajuda de seus famosos desenhos, Vonnegut conduz o leitor por um texto bem-humorado e crítico da sociedade norte-americana neste clássico moderno que o consagrou como um dos autores mais instigantes do nosso tempo.

Café da Manhã dos Campeões ou Adeus Segunda-feira Triste

Prepara-se para uma boa dose de sarcasmo ao adentrar às páginas de Café da Manhã dos Campeões de Kurt Vonnegut. Nada que ande desacompanhado, já que o café da manhã também vem bem regrado de críticas e um punhado de humor (às vezes bem ácido, é claro). Nada que fuja do estilo incrível de Vonnegut.

“A premissa do livro era a seguinte: a vida era um experimento do Criador do Universo, que queria testar um novo tipo de criatura que Ele estava pensando em gerar. Essa criatura tinha a habilidade de pensar por conta própria. Todas as demais eram robôs inteiramente programados.”

Café da Manhã dos Campeões ou Adeus Segunda-feira Triste é meu segundo contato com o autor. O primeiro foi através de Matadouro Cinco, primeiro lançamento da Intrínseca do autor, numa edição comemorativa pra lá de bonita. Café da Manhã não foi diferente, os estilos das capas se mantiveram e capa dura com corte branco, também (confere a resenha e fotos de Matadouro Cinco).

Mas garanto que uma edição bonita aos olhos não é suficiente para me conquistar. O conteúdo é que faz a real diferença e, nesse caso, Vonnegut, apesar de lidos apenas dois livros dele, se tornou um dos meus autores favoritos. Cada detalhe da sua narrativa e a composição que escolhia para personagens, lugares e até a quebra da quarta parede, que temos aqui, faz com que o livro não seja apenas uma obra completa, mas assertiva e tão crítica hoje como quando foi lançada nos anos 70.

“Eu nunca vou me entender direito até eu descobrir se a vida é séria ou não. Ela é perigosa, eu sei, e pode machucar muito. Mas isso não significa necessariamente que ela também seja séria.”

Café da Manhã é seu sétimo romance publicado e, à época, 1973, muitos acreditavam que era uma história de despedida. Talvez pelo próprio tom que vemos no livro, desde o Prefácio como em seu encerramento em que o autor frisa que precisava tirar certas coisas da cabeça e que o livro “é uma calçada abarrotada de lixo” , assim como por ter passado por uma fase de bloqueio em sua escrita e também, em relação à esse livro. Contudo, o autor continuou com sua carreira, lançando livros surpreendentes por muito tempo, sendo sua última obra publicada Um Homem Sem Pátria em 2005 e ainda alguns póstumos: Look at the Birdie (2009); While Mortals Sleeps (2011); e If This Isn’t Nice, What Is?: Advice to the Young (2013).

A história de Café da Manhã dos Campeões

A história vai nos apresentar três personagens principais: Kilgore Trout, um escritor de ficção científica nem um pouco renomado à época da história, mas que está prestes a se tornar um fenômeno mundial. Dwayne Hoover, um bem-sucedido vendedor de carros que está ficando louco. E, ouso acrescentar o narrador/escritor, que conversa por vezes com o público e tem uma relação intromissiva e dúbia quanto aos personagens que criara. Pode ser visto aqui como o próprio Vonnegut, utilizando-se da metaficção.

“A insanidade incipiente de Dwayne era, em sua maior parte, uma questão química, é claro. O corpo de Dwayne Hoover estava produzindo certas substâncias que desequilibravam sua mente. Mas Dwayne, assim como todo aprendiz de lunático, também precisava de algumas ideias erradas para que sua loucura tomasse forma e direção. Ideias erradas e substância químicas erradas são o yin-yang da loucura. Yin-yang é o símbolo chinês de harmonia.”

A história segue sob o fio que as ligará: são as ideias de Trout que levarão Hoover ao perder o que lhe resta de sanidade. É claro que seu quadro é indicativo de uma doença, mas se palavras podem incendiar alguém e fazer com que o processo seja mais rápido, bem, estas são as ideias de Trout.

Isso porque estamos falando da história em que ele começa contando ao leitor que sim, você é o único humano real, que sente, vive, respira e assim por diante. Todo o resto da humanidade foi feito e colocado aqui para servir à você, seja como for, para causar um impacto, uma reação, um sentimento, qualquer que seja. E isso para uma mente enfraquecida, é a gota final.

“Ei, escuta só: você é a única criatura que possui livre-arbítrio. Como você se sente em relação a isso?”

O mais interessante de tudo isso é que o desfecho da história é logo lhe apresentado nas primeiras páginas e, mesmo sabendo como tudo vai acabar e que talvez você não entenda bulhufas de como as coisas chegarão naquele patarmar, a certeza que fica é a de que você precisa saber o que acontece até que ele realmente aconteça.

A narrativa e os personagens em Café da Manhã dos Campeões

Com sua narrativa inteligente, imaginativa e também simples e direta, Vonnegut conduz a história até o ponto crítico dos personagens, em como, para alguns sua sorte parece se reverter ou mesmo em como caminhos antes tão absurdamente distintos, não apenas se encontram, como quase colidem.

“Quanto a mim: eu tinha chegado à conclusão de que não havia nada sagrado a meu respeito ou a respeito de qualquer outro ser humano, que nós todos éramos máquinas, condenadas a colidir e colidir sem parar.”

Acompanhamos Hoover, cuidando de seus negócios, sua família, o luto da perda da esposa, o caso com a secretária, a relação com seus funcionários. Tudo seguindo o fio habitual de seu cotidiano enquanto sua mente definha.

Já Trout, vemos o golpe, um tanto quanto de sorte, um tanto quanto de azar, que o destino lhe prega ao ser convidado para participar de um grande evento de artes para falar de seus livros que, até então, só eram publicados em revistas pornô para preencher as páginas vazias. É claro que ele não era pago por isso, mas acabou que um figurão leu e gostou de suas histórias. A partir daí, sua vida não seria mais a mesma.

“Nossa consciência é tudo aquilo que está vivo e que talvez seja sagrado em cada um de nós. Todo o resto é apenas um monte de maquinário sem vida.”

O interessante é que, seguindo a vida dos dois, e, também, um pouco a opinião do seu narrador, o Vonnegut pincela mazelas da sociedade atual de forma singular, fazendo paralelos com o livre arbítrio. E ressaltando ideias pelas expressões como ‘bulhufas‘ e ‘e assim por diante‘, que se mostram mais versáteis do que se possa imaginar a princípio.

Dos desenhos ao humor em Café da Manhã dos Campeões

Os desenhos que aparecem durante todo o livro (os desenhos foram mesmo feitos por Vonnegut) também são recheados de humor ácido. Não porque mostram coisas absurdas, mas exatamente pelo oposto: por explicarem, junto do texto que os acompanha, coisas por demasiado óbvias, como uma jaqueta, um óculos, a bandeira dos Estados Unidos ou um cu.

“Então, com o intuito de sobreviver, as mulheres se condicionaram a serem máquinas de concordar em vez de máquinas de pensar. Tudo de que seus cérebros precisavam fazer era descobrir o que as outras pessoas estavam pensando, e aí pensar daquela forma também.”

Nesse último ponto, o humor, aos desavisados, pode soar uma parte aqui e acolá como exagerada ou mesmo preconceituosa se não devidamente inserida em seu contexto e vista pelo que é: uma forte crítica. Como quando as pessoas: começam a ser descritas por suas medidas: os homens pelo tamanho do pênis: comprimento e diâmetro. As mulheres: cintura, busto e quadril. E assim por diante. Relata isso como qualquer outro fato, não lhe destacando nem ignorando importância, mas, inegavelmente, ironizando a forma como a capacidade e valor das pessoas costuma ser medido: por suas medidas.

Kilgore Trout: o alter ego de Kurt Vonnegut

É ainda muito legal observar a figura de Kilgore Trout, que é mencionado também em Matadouro Cinco e em várias outras obras (Galápagos; A Man Without a Country; God Bless You, Dr. Kevorkian). O personagem é considerado por alguns como o alterego de Vonnegut e suas aparições variam tanto como personagem principal como secundário.

Como a maioria dos escritores de ficção científica, Trout não sabia praticamente nada sobre ciência – a quantidade de detalhes técnicos o deixava morrendo de tédio.”

Em Café da Manhã é interessante ver toda o desenvolvimento da história do personagem, desde sua ânsia em ser publicado, aceitando que suas histórias saiam nas revistas pornô de graça; à sua gana em chegar ao evento, mesmo quando o trajeto parece muito tortuoso, quase como se houvesse uma conspiração sobrenatural para que ele não chegasse lá. Além disso, a forma com que o personagem vê o mundo, as pessoas ao seu redor, é única, já que ao mesmo tempo parecem não importar nada para ele, trazem sempre reflexões, especialmente em relação às histórias que sua mente está sempre a produzir.

Uma leitura que vai passar de maneira satírica e inteligente pela violência, família, relações interpessoais, sexo, preconceito, livre arbítrio, racismo, política setentista e assim por diante, numa obra crítica e atemporal sobre quem somos nesse mundo.

“No âmago de cada pessoa que lê este livro existe um feixe de luz inabalável.”

Vale a pena ler e refletir sobre a obra e se permitir rir e divertir também. Kurt Vonnegut conseguiu criar em Café da Manhã dos Campeões não apenas uma história de ficção científica com elementos típicos do gênero, mas algo que dialoga com o ser humano e no que isso representa.

Café da Manhã dos Campeões: Filme

O livro de Vonnegut ganhou adaptação para os cinemas, com filme chamado Breakfast of Champions e no Brasil, lançado como À Beira da Loucura em 1999.

No elenco, o longa conta com Bruce Willis no papel de Dwayne Hoover, Albert Finney como Kilgore Trout e foi dirigido por Alan Rudolph.

O filme tenta seguir o estilo satírico da obra de Vonnegut, mas, pela reputação do filme, ficou longe de alcançar, já que as principais reclamações são de que o filme é superficial e nada além de uma comédia pastelão. Características que não podiam estar mais distantes da obra de Kurt Vonnegut.

Particularmente, acho difícil representar em tela o que temos no livro, tanto pelas explicações explícitas quanto pelo tom e desenvolvimento da história. Matadouro Cinco também chegou a ser adaptado para o cinema, com um foco maior na parte da guerra, mas ainda assim, não chega a ser um filme aclamado.

Aleatoriedades
  • Café da Manhã dos Campeões foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca.
  • Ainda que propriamente o café da manhã dos campeões do livro seja de outro teor, a ideia pras fotos foi explorar a obviedade que o nome pode sugerir, caso o leitor não conheça a ideia por detrás.
  • Esse é o segundo livro que leio de Vonnegut, conferira também a resenha de Matadouro Cinco.
  • Café da Manhã dos Campeões e Matadouro Cinco estão disponíveis na Amazon em versão física e e-book.

Adeus, segunda-feira triste!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...