Resenhas

Um Lugar Bem Longe Daqui ♥ Delia Owens

Um Lugar Bem Longe Daqui (Where the Crawdads Sing)
Delia Owens
Editora Intrínseca
2019 / 336 páginas
“…ser deixada totalmente sozinha era uma sensação tão vasta que chegava a ecoar…”

Sobre a Autora

Delia Owens é cientista e escritora, coautora de três best-sellers que exploram suas jornadas à África. Já ganhou o John Burroughs Award for Nature Writing e teve artigos publicados em diversos periódicos, como Nature, The African Journal of Ecology e International Wildlife. Um Lugar Bem Longe Daqui é seu primeiro romance e teve os direitos de tradução adquiridos em 39 idiomas. Delia atualmente mora no estado americano de Idaho, onde dá continuidade a seu trabalho de ajuda aos habitantes e à vida natural da Zâmbia.

Sinopse

Fenômeno editorial, com mais de 2 milhões de cópias vendidas, Um Lugar Bem Longe Daqui figura nas listas de best-sellers dos Estados Unidos desde seu lançamento original, em agosto de 2018.

Por anos, boatos sobre Kya Clark, a “Menina do Brejo”, assombraram Barkley Cove, uma calma cidade costeira da Carolina do Norte. Ela, no entanto, não é o que todos dizem. Sensata e inteligente, Kya sobreviveu por anos sozinha no pântano que chama de lar, tendo as gaivotas como amigas e a areia como professora. Abandonada pela mãe, que não conseguiu suportar o marido abusivo e alcoólatra, e depois pelos irmãos, a menina viveu algum tempo na companhia negligente e por vezes brutal do pai, que acabou também por deixá-la.

Anos depois, quando dois jovens da cidade ficam intrigados com sua beleza selvagem, Kya se permite experimentar uma nova vida — até que o impensável acontece e um deles é encontrado morto.

Ao mesmo tempo uma ode à natureza, um emocionante romance de formação e uma surpreendente história de mistério, Um Lugar Bem Longe Daqui relembra que somos moldados pela criança que fomos um dia e que estamos todos sujeitos à beleza e à violência dos segredos que a natureza guarda.

A obra foi incluída no clube de livros de Reese Witherspoon, que posteriormente adquiriu os direitos de adaptação cinematográfica e vai produzir o filme com a Fox 2000.

Um Lugar Bem Longe Daqui

Prepare-se para adentrar no brejo. Talvez à primeira vista não passe de um matagal, um pântano com alguns animais selvagens, dentre eles, uma menina. A Menina do Brejo, como costumam dizer.

O que a maior das pessoas não sabe é que essa menina tem uma história, contada através dos anos de sua vida sozinha junto à natureza, vivendo num barracão no brejo.

No meio disso tudo, um assassinato, no ano de 1969. Dele, acompanhamos a investigação, enquanto, de outro lado, vemos os anos anteriores de Kya, desde 1952 até alcançarmos 1969, em que o corpo de Chase Andrews fora encontrado.

“Seu pai tinha lhe dito muitas vezes que um homem de verdade era aquele que chorava sem pudor, lia poesia com o coração, sentia a ópera na alma, e fazia o que fosse necessário para defender uma mulher.”
“Kya jamais havia imaginado que seria Ma quem partiria e Pa quem ficaria. Mas sabia que a mãe não iria abandoná-la para sempre; se ela estivesse em algum lugar do mundo lá fora, iria voltar.”
“Escutem agora o que eu vou dizer: o que aconteceu foi uma verdadeira lição de vida. Sim, nós encalhamos, mas o que nós, meninas, fazemos? Nos divertimos e rimos. É para isso que servem as irmãs e as amigas. Para ficarem juntas mesmo no meio da lama, especialmente no meio da lama.”

Primeiro, foi Ma quem foi embora pela estradinha de terra, com seus sapatos de pele falsa de jacaré. Depois foram Missy, Murph e Mandy. E então, foi Jodie. Pa foi o último a ir embora e não deixou despedidas, tampouco. E então, Um Lugar Bem Distante Daqui desbrava, de tempo em tempo, a vida de Kya, seu crescimento, amadurecimento e todas as mazelas e dificuldades que podem ser impostas à uma criança abandonada à própria sorte no brejo.

O que vemos, na narrativa descritiva e poética de Delia Owens é o revelar de uma pessoa, em detalhes, tal qual a descoberta de um mundo magnífico dentro do brejo, que é muito mais do que um aglomerado pantanoso. É um ecossistema inteiro, uma vida inteira, uma infinidade de nuances e belezas, cores e aromas, gestos, voos. São as conchas recolhidas por Kya até as aquarelas que ela desenha. São as penas deixadas no tronco de árvore tanto quanto aprender qual número vem depois do vinte e nove. São aprender a ler e descobrir que a gravidade não é como contam nos livros escolares.

“Eu não sabia que palavras podiam ter tanta coisa. Não sabia que uma frase podia ser tão cheia.”
“Você precisa de amigas, meu bem, porque amigas são para sempre. Sem precisar de aliança. Um grupo de mulheres é o lugar mais carinhoso e sólido que existe.”
“Ela olhou por cima do ombro e meneou a cabeça. Ele saltou da lancha e estendeu a mão para ela: dedos compridos e bronzeados, palma aberta. Ela hesitou; tocar em alguém significava abrir mão de parte de si, um pedaço que ela nunca recuperava.”

No caminho dessa história, nos apegamos à Kya. Não vou negar que, em dados momentos, queria fazer parte daquela história, para lhe afagar com um abraço e dizer que sim, tudo iria ficar bem. Mas será que ia mesmo? O destino lhe reservou bem mais do que uma vida difícil em meio à natureza, mas também o descaso e o preconceito dos habitantes da cidadezinha mais próxima, por ela viver no brejo. O lixo do brejo, é o que diziam.

Da mesma forma, não podemos negar, o destino lhe reservou a beleza e imensidão do brejo. E, tal como ele, temos a beleza daqueles que, vez por outra, chegaram a rodear Kya. Pulinho, Mabel, Tate, Jodie, até mesmo Pa e Ma. Cada um com seu jeito, seu carinho, seus erros, suas faltas e acertos. Todos humanos, tal como a garota que desbravou bem mais que terras inabitadas.

“Alguns insetos fêmeas devoram o parceiro, mães mamíferas estressadas abandonam crias, muitos machos inventam maneiras arriscadas ou ardilosas de vencer os espermatozoides dos concorrentes. Nada parecia ser excessivamente indecoroso, contanto que o ciclo da vida se perpetuasse. Ela sabia que aquele não era um lado obscuro da natureza, apenas modos inventivos de sobreviver contra todos os obstáculos. Com certeza no caso dos humanos não devia ser só isso.”
“Ao zarpar, sabia que ninguém nunca mais veria aquele banco de areia. Os elementos haviam criado um sorriso de areia breve, movediço e de inclinação precisa. A maré e a correnteza seguinte desenhariam um banco de areia diferente e depois outro, porém nunca mais aquele dali. Não o que a tinha resgatado. que lhe ensinara uma coisinha ou outra.”
“Vamos ser honestos, muitas vezes o amor não dá certo. Mas, mesmo quando fracassa, conecta você aos outros, e no fim isso é tudo o que você tem: conexões.”

Kya é um ser único. Acompanhar seu crescimento e desenvolvimento ao longo da história não é apenas enriquecedor. É uma verdadeira aula sobre amor próprio, compaixão, perdão e relações interpessoais. É saber que estar sozinho não é ser solitário. E é também uma aula de amor para com o brejo, a natureza.

A história, ao mesmo tempo que é rica em detalhes, com várias informações interessantes sobre a flora e a fauna do brejo, é também sutil, suave. Envolve um suspense e um mistério em volta do corpo encontrado, é claro. Mas consegue ser de uma leveza que se vê em poucos livros. Tem o condão de lhe fazer crer que tudo o que foi narrado está ali, à sua frente, a desenrolar. Não como num filme, mas como história que presenciamos. Uma das mágicas da narrativa, sem dúvidas. E a sutileza se dá mesmo quando presentes o bruto, o triste e o violento. É o modo tênue com que são abordados que traz a profundidade para todos os sentimentos que vão brotar durante a leitura.

Um Lugar Bem Longe Daqui é a história da Menina do Brejo, não do jeito que ouviram falar dela, mas sim do jeito que ela viveu, do jeito que ela construiu seus dias e noites envolta do lugar que a acolheu quando ninguém mais o fez.

“Como tudo mais no universo, nós despencamos em direção àqueles que têm a massa maior.”

Aleatoriedades
  • Um Lugar Bem Longe Daqui foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca, obrigada por trazer esse livro para o Brasil, sem dúvidas uma obra única e atemporal!
  • As fotos da vez foram inspiradas no brejo, é claro, mas também na composição mara que a Intrínseca fez no stand da bienal com o tema desse livro (não que meu cenário tenha chegado aos pés do da bienal, é claro… ahaha).
  • Um Lugar Bem Longe Daqui está disponível na Amazon (com preço ótimo nessa semana de Black Friday) ! E está rolando um sorteio de um exemplar do livro lá no Instagram, só acessar o @retipatia e seguir as regrinhas!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Ouvindo: the crawdads sing…

Repense, renove, rediscuta...