Resenhas

Do Incrível ao Bizarro

Enciclopédia Do Incrível ao Bizarro
Marina Ávila & Valquíria Vlad
Editora Wish
“Nada é tão presente quanto o passado. A história nos direcionou para o que somos hoje, e conhecer as artes antigas é entrar em contato com todos esses pensamentos, ideias e superstições. Do Incrível ao Bizarro é uma jornada para os livros medievais, renascentistas, góticos e vitorianos para os apaixonados por arte, história, literatura e psicologia.”

Sinopse

Do Incrível ao Bizarro é uma enciclopédia sobre livros antigos para colecionadores, curiosos e criadores de conteúdo. Temas explorados:

Manuscrito original de Lewis Carrol para Alice; A Bíblia de Gutenberg, um dos livros mais valiosos do mundo; Um bestiário com criaturas reais e fantasiosas; As mais belas ilustrações botânicas; Estudos do corpo humano e medicina, ilustrados como conhecidos na época; Belíssimos manuscritos medievais em alta qualidade; Um dicionário de criaturas das trevas; Estudos sobre o Universo e sistema solar, como conhecidos na época; Invenções e inovações em todas as áreas; Pássaros da América, um dos maiores (e mais lindos) livros do mundo; Ilustrações de criaturas meio-flor, meio-humanas; Livro de receitas vitoriano, sem qualquer produto industrial; Os mais absurdos ornamentos e ilustrações, desde o período medieval, até 1920 e muitas outras obras! Cada obra possui seu texto explicativo em português e diversas ilustrações originais.

Do Incrível ao Bizarro

Uma enciclopédia é uma coletânea sistematizada de textos, imagens, informações, referenciadas à um assunto específico, ou de maneira geral sobre o conhecimento humano. Indo de um manual anti escravidão a vários e vários manuais sobre dissecações, cirurgias e concepções sobre o corpo humano, chegando até as mais variadas criaturas da natureza – algumas reais e outras nem tanto assim -, que seguem tão bem detalhadas como os mais variados tipos de demônios e criaturas míticas, Do Incrível ao Bizarro é a reunião fantástica de livros marcantes da humanidade e que permitem, em sua análise conjunta, uma apreciação das muitas invenções, crenças e ideologias que existiram ao longo do tempo.

Em uma edição rica em detalhes e impressão de alto nível, é possível apreciar as imagens, ilustrações e textos reproduzidos como se a própria obra estivesse ao nosso alcance. As folhas são de alta gramatura, em papel encerado e o livro, além da capa dura, conta com uma sobrecapa que deixa difícil definir se é ela ou a capa original a mais bonita.

A obra inicia com o Prefácio de Marina Ávila, idealizadora e curadora da Enciclopédia, buscando luz aos tempos de trevas atuais que parecem ecos do mundo que existiu outrora. Em seguida, uma incrível Introdução situa o leitor quanto à evolução dos livros: de manuscritos, verdadeiros artigos de luxo reservados apenas à nobreza e ao clero, à sua modernização e atendimento das massas com a Era da Luz trazida com o advento das prensas móveis por Gutenberg.

A folha de guarda ilustrada (foto acima) conta com reprodução de ilustrações do Formas de Arte na Natureza, um livro composto por 100 litografias de organismos, alguns descritos pela primeira vez pelo próprio autor, Ernst Haeckel (foto abaixo).

Até mesmo o Sumário conta com ilustrações, facilitando a busca de conteúdo (foto abaixo):

A partir daí, seguimos viagem do incrível ao bizarro e de um à outro. Voltamos no tempo com as ilustrações de obras que remontam à tempos antigos (mas longe de serem esquecidos) e que tratam tanto de temas fantasiosos e supersticiosos, quanto também de assuntos sérios e estudados à época de sua confecção. Alguns mesclam ainda as duas coisas, como O Livro da Vida, que traz informações científicas e religiosas na análise da unicidade do homem.

O conteúdo do livro permite não apenas ver como a humanidade tratava o conhecimento e as crenças que já foram lei e dogmas, mas também, permitem assimilações com conteúdos presentes na literatura e cinema atuais, como vou exemplificar em alguns casos a seguir.

Mesclando-se à uma das mais aclamadas obras de fantasia atual, o Pergaminho de Ripley (foto acima), ensina, através da alquimia, a fazer a lendária pedra filosofal. Alguns fãs de Harry Potter (e mesmo não fãs, é fácil conhecer o título do primeiro volume, Harry Potter e a Pedra Filosofal), vão se lembrar da saga do bruxinho e do potencial da pedra. No mundo Potteriano, ainda temos a representação das mandrágoras, num manuscrito de plantas medicinais que envolve folclore da época medieval (foto abaixo).

Em assunto totalmente diverso, temos o livro de frenologia que traz a Leitura das Personalidades de Yaught, que é uma pseudociência que diz que o caráter, a personalidade e o intelecto de uma pessoa pode ser identificado através do formato de seu crânio. Vale lembrar como esse tipo de informação leva apenas à perpetuação de preconceitos de limpeza raciais. É impossível aqui não se lembrar dos conceitos citados em Lady Killers, da Tori Telfer, que traz uma exumação das mulheres seriais killers ao longo dos anos (foto abaixo).

Ainda nessa vibe um tanto quanto bizarra, temos o Manual de Anatomias, com ilustrações um tanto quanto grotescas do corpo humano e de possíveis ferimentos que ele pode vir a sofrer. O livro conta com dois tratados médicos e a representação (um tanto quanto estranha) de alguns órgãos internos. Nada poderia remeter com maior precisão os tratamentos médicos que se assemelhavam à carnificina de abatedouros e que são descritos no livro Medicina dos Horrores, da autora Lindsey Fitzharris (resenha do livro aqui).

É possível ainda se lembrar do O Livro dos Mortos do Antigo Egito que aparecem em vários filmes de múmias, como o popular A Múmia de 1999 em que estrelou Brendan Fraser e Rachel Weisz. O único detalhe é que, à época das múmias, não existiam livros tais quais conhecemos hoje, o livro dos mortos é, na verdade, composto por vários capítulos de orações, feitiços, hinos e fórmulas mágicas, que tinham o intuito de ajudar aqueles que morriam a seguir sua jornada. Os capítulos eram dependurados próximos aos túmulos e nunca foram encontrados todos os capítulos juntos, para compor, exatamente, um livro, como se pode vir a pensar.

Um dos livros retratados que é dos mais curiosos, talvez tendendo mais para o bizarro do que o incrível, é O Livro dos Gatos, em que vários gatos com acessórios e fantasiados foram fotografados e, sob suas fotos, legendas divertidas foram acompanhadas. Se isso não é o berço dos memes, não sabemos o que mais poderia ser (foto acima).

Para os fãs de literatura, ainda contamos com uma mostra do primeiro manuscrito de Alice no País das Maravilhas, então intitulado de Aventuras de Alice no Subterrâneo (foto acima) e o interessantíssimo Manuscrito de Voynich, que foi escrito em código e que jamais fora decifrado.

Deixando a mente viajar um pouquinho mais, é possível encontrar uma infinidade de referências que reverberam até os tempos atuais, nos mais diversos tipos de arte. Um exemplo são as Flores Animadas, criadas por um cartunista parisiense chamado J. J. Grandville que fizeram lembrar as criaturas da Corte Primaveril do livro Corte de Espinhos e Rosas, volume primeiro da trilogia da autora Sarah J. Maas (tem resenha dele aqui! – Foto acima.).

Alguns outros conteúdos, em que é difícil definir se são bizarros ou incríveis, encantam por serem extremos, grotescos e, muitas vezes, tão irreais quanto idílicos. Na foto acima, temos o Compêndio de Demonologia e Magia, um bestiário do século XVIII com aquarelas de figuras fantásticas.

Inversamente ao que vemos no bestiário, algumas obras são sutis, delicadas e estranhamente reconfortantes, como o livro Um Outro Mundo (foto acima), que traz ilustrações e texto descrevendo um mundo paralelo em que demiurgos fazem excursões através do espaço-tempo.

Depois de ler a Enciclopédia Do Incrível ao Bizarro, ninguém jamais duvidará de como o ser humano é bizarramente incrível!

Aleatoriedades

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...