Tempo Estranho ♥ Joe Hill

Tempo Estranho
Joe Hill
HarperCollins Brasil
“Qualquer padrão repetido sem parar acaba por se tornar um papel de parede, seja ele composto por flores ou cadáveres.”

Sobre o Autor

Joe Hill, autor best-seller do The New York Times, vive em New Hampshire com a esposa e os filhos. É autor de A Estrada da Noite, Fantasmas do Século XX, O Pacto (adaptado para os cinemas como Amaldiçoado), Nosferatu e Mestre das Chamas, além da série de quadrinhos ganhadora do Eisner, Locke & Key.

Tempo Estranho

Tempo Estranho é intenso. Cada um dos contos que compõe o livro: Instantâneo, Carregado, Nas Alturas e Chuva, ainda que possam recorrer a elementos fantasiosos para dar vida a narrativa, vão bem além da ficção. É essa a magia de Joe Hill: contar histórias que instigam o pensar de uma maneira inteligente e perspicaz, sem deixar de lado a boa e velha história que todo mundo gosta, aquela que surpreende, que te faz torcer pelos personagens e, vez por outra, detestar alguns outros.

O conto que abre o livro, Instantâneo tem seu quê de fantasia. Mas a verossimilhança da história é tão grande, o personagem central tão bem construído que, mesmo na narrativa curta, passamos por todo o processo que ocorre em um romance longo, por assim dizer (o autor se refere aos contos do livro como romances curtos). Conhecemos o o personagem e aqueles que o rodeiam e percorremos as páginas querendo decifrar o enigma, saber como tudo irá se resolver (se resolver, é claro) e criamos mil e uma teorias. Em Instantâneo, iremos com o jovem Michael decifrar o enigma do Homem da Polaroid. Vamos nos afeiçoar por Shelly, a senhora com alzheimer que sai andando sozinha pelo bairro e talvez, ver as polaroids de um outro ângulo, ao virar a última página.

“Eu não tinha medo de Shelly Beukes. Eu achava que ela poderia esquecer tudo sobre mim, e tudo sobre si mesma, e ainda assim isso não mudaria sua essência fundamental, que era carinhosa, eficiente e incapaz de qualquer maldade real.” Instantâneo

O segundo conto, Carregado, tem o nome mais justo de todos. É carregado do tipo pesado, forte, impactante, mas também, significa munido. A saga tem um quê de suspense que te faz virar as páginas e querer saber como é que tudo vai se desenrolar. E é tenso, revoltante, e talvez te dê vontade de bater no autor. Pode acontecer… Mas, não fosse a dose de realidade injetada em cada parte dos acontecimentos, a trama não seria tão alinhada, tão bem elaborada, tão condizente com o mundo atual. Em Carregado, vamos acompanhar a história de Kellaway, um segurança de shopping que se envolve em um incidente e Lanternglass, a repórter disposta a saber todas as vírgulas e pingos nos i’s de qualquer história que se disponha a relatar. De um jeito ou de outro, a verdade sempre vem à tona, as consequências disso, bem, aí já é outra história… Recomendo este fortemente para todos que já refletiram sobre a questão de armamento no Brasil e fora dele.

“Dizem que armas não matam pessoas, que pessoas matam pessoas. Mas eu senti que a arma queria matar os dois. É verdade. Yasmin Haswar pulou do nada, como se soubesse que havia uma bala esperando por ela, e a arma disparou sozinha. Às vezes, as armas matam mesmo as pessoas.” Carregado

O terceiro conto é Nas Alturas e sua literalidade tem um quê de tragicômico. Fundado fortemente em fantasias inexplicáveis, a história traz uma trajetória solo de crescimento e descobrimento. É um conto lúdico, de certa maneira, mas mantém segue a linha de instigar o leitor e de imaginar como tudo será desenvolvido. No começo, não imaginava o rumo que a história levaria e, de certa forma, ele traz uma mensagem bem menos explícita que os demais contos, o que também, é feito com maestria pelo autor. Em Nas Alturas, iremos acompanhar Aubrey, um rapaz que morre de medo de altura prestes a saltar de paraquedas em homenagem à sua amiga que faleceu de câncer. O que acontece quando ele salta é, sem melhor definição, imprevisível.

“O Junicórnio estava desgrenhado e gasto, o que o tornava ainda mais precioso. Aubrey estava feliz por ter algo que não possuía a perfeição fria e harmoniosa dos objetos feitos de nuvem, feliz por ter algo que fosse real para poder segurar. Era possível saber o que era real não pelas qualidades, mas pelas imperfeições.”

O quarto e último conto, Chuva tem o tom do barulho de gotas pingando forte do lado de fora da janela enquanto estamos abrigados do lado de dentro. Surge um clarão e, o coração acelera, parece que caiu do lado da sua casa, mas, na verdade, nem foi tão perto assim. Quer dizer, poderia estar acontecendo aqui mesmo ou em qualquer pedaço do mundo. Outro nome que lhe cairia bem seria “como guerras mundiais são deflagradas“, mas seria longo demais e destoaria do estilo de Tempo Estranho. Aqui, os seres humanos são exatamente tudo o que já estamos cansados de saber sobre nós mesmos: capazes de bondade e maldades sem medidas em tempos estranhos. Em Chuva, uma chuva estranha de agulhas cai em Denver, Colorado. Os estragos vão bem além do número de mortos e dos locais destruídos. É a degeneração do ser em cada uma das agulhas que cobrem as ruas, mas é também, a possibilidade de que, no fim, talvez o ser humano possa encontrar o bem onde menos se espera.

“O presidente desaparecera em um local seguro, mas reagiu com força total na sua conta do Twitter. Ele postou: ‘NOSSOS INIMIGOS NÃO SABEM O QUE COMEÇARAM! A VINGANÇA SERÁ MALIGNA!!! #Denver #Colorado #América!!’ O vice-presidente prometeu rezar o máximo possível para os sobreviventes e os mortos; ele se comprometeu a passar o dia e a noite de joelhos. Era reconfortante saber que nossos líderes estavam usando todos os recursos que tinham à mão para ajudar os desesperados: as redes sociais e Jesus.”

Finalizar a leitura dos contos trouxe uma certeza: já sou fã do Joe Hill. A forma de sua escrita tem o condão não apenas de entreter, mas de fazer pensar e querer devorar histórias. Além disso, a narrativa é fluida, bonita e as descrições que faz são bem colocadas e pontuadas. Sem exageros, sem ser rebuscado ou floreado de maneira desnecessária (já falei em outras resenhas que gosto do estilo rebuscado, mas acho que isso tem que ter sintonia com a narrativa do autor, se encaixar, ou se torna um monte de floreios enjoativos no texto…). As histórias são limpas e diretas, mas ao mesmo tempo não deixam a desejar para quem não está muito habituado a ler contos e sim romances. As histórias têm a construção e desenvolvimentos necessários e são, de maneira geral, mais longas que contos tradicionais (o livro tem 446 páginas, o que dá, em média, 111 páginas para cada história).

“Ele me lembrou da máxima de Carl Sagan de que alegações extraordinárias exigem provas extraordinárias.”

Uma leitura instigante, inteligente e repleta de críticas veladas à sociedade e ao mundo atual. Passando por temas como doenças degenerativas, armamento, crescimento pessoal e apocalipse, o autor mostra que uma história não precisa ser grande para ser excelente e passar sua mensagem. Leitura indispensável!

Aleatoriedades
  • O livro foi recebido em parceria com a HarperCollins Brasil, obrigada por me proporcionar essa experiência incrível de leitura e me apresentar ao Joe Hill!
  • A edição do livro conta com ilustrações de diferentes autorias, no começo e fim de cada conto. É muito interessante analisá-las antes e após a leitura dos contos e ver o que representam. Também adorei o nome Tempo Estranho, faz muito sentido com as histórias e casa tanto com o tempo em que vivemos!
  • Sobre as fotos… apesar de terem me dito que as flores ficaram parecendo pipoca, e de elas não se relacionarem exatamente com o conteúdo do livro, gostei do resultado final… O que está na moldura, com a imagem da capa do livro, é uma camiseta que veio junto do livro (e que eu adorei!)!
  • Tempo Estranho está disponível na Amazon e, comprando pelo link do blog, você ajuda com o crescimento do Retipatia, sem pagar nada a mais por isso!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: Put Your Records On… Corinne Bailey Rae (only in my mind…)

Repense, renove, rediscuta...