Resenhas

Medicina dos Horrores ♥ Lindsey Fitzharris

Medicina dos Horrores: A história de Joseph Lister, o homem que revolucionou o apavorante mundo das cirurgias do século XIX
Lindsey Fitzharris
Editora Intrínseca
“As dissecações públicas eram apresentações teatrais, uma forma de entretenimento tão popular quanto as rinhas de galos ou o açulamento de cães contra ursos aprisionados. Nem todos, porém, tinham estômago para elas.”

Sobre a Autora

Lindsey Fitzharris recebeu seu grau de doutora em história da ciência e da medicina na Universidade de Oxford. É a criadora do site popular The Chirurgeon’s Apprentice, bem como autora e apresentadora da série Under the Knife, no YouTube. Escreveu para veículos como The Guardian, The Huffington Post, The Lancet e New Scientist. Atualmente, mora no interior da Inglaterra com o marido, Adrian Teal, e seus dois gatos.

Sinopse

Em Medicina dos Horrores, a historiadora Lindsey Fitzharris narra como era o chocante mundo da cirurgia do século XIX, que estava às vésperas de uma profunda transformação. A autora evoca os primeiros anfiteatros de operações — lugares abafados onde os procedimentos eram feitos diante de plateias lotadas — e cirurgiões pioneiros, cujo ofício era saudado não pela precisão, mas pela velocidade e pela força bruta, uma vez que não havia anestesia. Não à toa, os mais célebres cirurgiões da época eram capazes de amputar uma perna em menos de trinta segundos. Trabalhando sem luvas e sem qualquer cuidado com a higiene básica, esses profissionais, alheios à existência de micro-organismos, ficavam perplexos com as infecções pós-operatórias, o que mantinha as taxas de mortalidade implacavelmente elevadas.

É nesse cenário, em que se considerava mais provável um homem sobreviver à guerra do que ao hospital, que emerge a figura de Joseph Lister, um jovem médico que desvendaria esse enigma mortal e mudaria o curso da história. Concentrando-se no tumultuado período entre 1850 e 1875, a autora nos apresenta Lister e seus contemporâneos e nos conduz por imundas escolas de medicina, os sórdidos hospitais onde eles aprimoravam sua arte, as “casas da morte” onde estudavam anatomia e os cemitérios, que eles volta e meia invadiam para roubar cadáveres.

Chocante e revelador, Medicina dos Horrores celebra o triunfo de um visionário, cuja busca para atribuir um caráter científico à medicina terminou por salvar milhões de vidas.

Medicina dos Horrores

O espetáculo é banhado a sangue, dores e gritos pela dor escruciante provenientes dos cortes que o bisturi e o serrote provocam no paciente que tem pele, nervos, tecidos, artérias e ossos dilapidados e arrancados sem qualquer tipo de anestésico.

Esse é o cenário a que somos apresentados logo no começo de Medicina dos Horrores, com um verdadeiro espetáculo de carnificina a ser exibido em anfiteatros lotados, abafados e imundos em que ocorriam as cirurgias na época vitoriana.

“Ao contrário do que acontece hoje em dia, os alunos não podiam fugir dos mortos durante os estudos, e era comum viverem lado a lado com os corpos que dissecavam. Mesmo aqueles que não moravam em locais adjacentes a uma escola de anatomia portavam sinais de suas atividades grotescas, porque ninguém usava luvas nem outras formas de proteção no interior da sala de dissecação. Na verdade, não era incomum ver um estudante de medicina com pedaços de carne, vísceras ou cérebro grudados na roupa após o fim das aulas.”

As transformações até os dias atuais não poderiam ser mais gritantes. Não havia o conhecimento de algum anestésico, assim, os cirurgiões eram, de fato, trabalhadores braçais que precisam ser rápidos na hora de efetuar quaisquer procedimentos, já que tudo que ocorresse, seria sentido pelo paciente. Além disso, condições de higiene não era algo a se levar em conta nem mesmo no momento das cirurgias. Não apenas o local era empesteado pelo sangue que escorria dos procedimentos, como os utensílios, roupas e mesmo as mãos dos profissionais não eram limpos entre um e outro atendimento.

Apenas por vota de 1847, com a descoberta do uso do éter como medida anestésica, e com créditos para seu uso em cirurgia para o cirurgião Robert Liston – que era capaz de amputar uma perna em 30 segundos – foi que a situação, em parte, começou a ser alterada. Como os cirurgiões ganharam mais tempo para trabalhar, aos poucos, a visão de que este seria apenas um trabalho braçal, ganhou outro panorama, com profissionais mais audaciosos, querendo realizar procedimentos mais invasivos e que antes mostravam-se impossíveis.

“As lesões e aflições com que os cirurgiões lidavam eram tão variadas quanto a própria população londrina. A cidade estava em incessante expansão na época em que Lister trabalhou com Erichsen. Milhares de trabalhadores migravam todo ano para a cidade. Não só essas pessoas viviam na imundície, em decorrência da escassez de moradias acarretada pela urbanização acelerada, como seus empregos tinham consequências para a saúde. As enfermarias hospitalares ficavam abarrotadas de gente que tinha ficado cega ou fora mutilada, sufocada e aleijada pelas realidades arriscadas do mundo em modernização.”

Contudo, o principal problema persistia: ser operado continuava a ser a última opção, já que as chances de sobrevivência eram tão pequenas quanto caso a cirurgia não fosse realizada. E como resolução desse problema surge o nome de Joseph Lister, que dedicou sua vida a desvendar as causas das infecções pós-operatórias e que era a maior razão das vidas ceifadas daqueles que passavam por procedimentos cirúrgicos.

Numa narrativa ágil e surpreendente, a autora nos leva de volta à era vitoriana para nos mostrar a realidade não apenas das condições operatórias da época, mas também das condições gerais dos hospitais existentes e que eram, no mínimo, deploráveis. Para se ter uma noção, o termo fedentina hospitalar era costumeiramente dito para referir-se ao cheiro pútrido de fezes, sangue e vômito que empesteava o lugar. Além disso, hospitais eram sinônimos de Casas da Morte. Ir para lá, sem dúvidas, era a última opção de alguém. Claro que os que mais sofriam com isso era a população abarrotada que se esmerilava pelas ruas londrinas e, também, das cidades escocesas Glascow e Edimburgo, que são apresentadas em paralelo com a vida de Lister. Em opção mais segura (ou com menos riscos), era possível realizar os procedimentos cirúrgicos nas residências, mas isso, claro, apenas para os abastados. A massa estava sob o fio do bisturi dos cirurgiões nos anfiteatros e salas contaminadas dos hospitais.

“A política hospitalar ordenava que os incuráveis não fossem internados, de modo que Lister liberou Chappell para voltar ao contato com a população. A comunidade médica ainda não sabia que a tuberculose era uma doença altamente contagiosa. O fato de Chappell ter sido obrigada a dormir no mesmo quarto com cinco ou seis colegas de trabalho nos leva a perguntar quantas outras pessoas ele terá infectado.”

Numa costura perfeita entre a vida pessoal de Lister, com enfoque na trajetória de sua carreira, acompanhamos os estudos que o levaram a não apenas mudar a forma de tratamento das infecções, mas a criar um sistema de técnicas que revolucionou todo o sistema hospitalar e as cirurgias, dando a elas o verdadeiro caráter curatório que sempre deveriam ter. Sem se esquecer, é claro, de todo pano de fundo que levou Lister à suas descobertas e as figuras que fizeram parte disso.

A descoberta de Lister não advém de uma trajetória curta e desprovida de esforço e estudos, sem várias barreiras a serem vencidas, como o ceticismo de toda a classe médica, mas de toda uma vida amparada em profissionais renomados da época e no desenvolvimento de estudos para tentar decifrar o enigma das infecções que levavam a maior parte dos pacientes à morte.

“As novas opiniões sempre despertam suspeita e, em geral, oposição, sem qualquer outra razão que não o fato de já não serem comuns.” John Locke

Outras acertos históricos são perfeitamente alinhados pela autora, que norteia o leitor o tempo todo da situação em que se dava os acontecimentos e, claro, com descrições de alguns casos que, apesar de não serem notórios, foram relevantes para aqueles envolvidos e que, especialmente, trazem choque ao leitor contemporâneo, como os que dizem respeito às agressões feitas por maridos à suas esposas, que não eram permitidas a se separarem de seus esposos a não ser que se provasse que eles a traíam e que a agrediam. Um clausuro com respaldo legal.

Sem dúvidas, o tipo de livro que impregna na gente durante a leitura, cheguei até mesmo a comentar alguns trechos com as pessoas que estavam perto de mim (só conhecidos, ok! ahaha) e sempre ficava um tempo com o assunto na cabeça quando pausava a leitura. A escrita da autora permite que o texto seja compreendido com facilidade e, ao mesmo tempo, não peca em levar o leitor a ver a realidade dura e cruel dos séculos passados e entender a complexidade dos temas envolvidos. Uma das melhores não ficções que já li, um livro que, ao virar a última página, não irá cessar de surtir efeitos em quem lê!

Medicina dos Horrores foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca e é uma das edições mais incríveis que tenho na estante. Além da capa dura, o livro tem corte colorido em preto, folhas de guarda estampadas e detalhes com ilustrações e ferramentas cirúrgicas junto ao texto. Uma edição sem defeitos!

Medicina dos Horrores da Lindsey Fitzharris está disponível na Amazon em versão física e e-book.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

3 Comments

  1. Imagino quantos horrores vistos por nós nos dias de hj nos deparamos durante a leitura, e imagino as dificuldades que o médico deve ter encontrado até implantar suas técnicas que realmente iriam curar em vez de acelerar as mortes da epóca.
    E pelo que vi nos seus stories durante as fotos vc manchou o livro? foi isso mesmo?? se for que pena, porque o cenário ficou perfeito.

    1. Oi Tatiane!
      Sem dúvidas, o livro traz muitas surpresas, espanto e alguns momentos agoniantes. E sempre que uma ideia é nova ela costuma ser rechaçada apenas por ser nova, imagine nessa época e com as implicações que assumir o novo método trazia. ahaha Sim, dei uma manchinha no topo de algumas páginas, mas não chega a aparecer com o livro fechado porque o corte dele é preto! 🙂 ehehe Eu e minhas loucuras pra fazer alguns cliques… rs
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  2. […] Ainda nessa vibe um tanto quanto bizarra, temos o Manual de Anatomias, com ilustrações um tanto quanto grotescas do corpo humano e de possíveis ferimentos que ele pode vir a sofrer. O livro conta com dois tratados médicos e a representação (um tanto quanto estranha) de alguns órgãos internos. Nada poderia remeter com maior precisão os tratamentos médicos que se assemelhavam à carnificina de abatedouros e que são descritos no livro Medicina dos Horrores, da autora Lindsey Fitzharris (resenha do livro aqui). […]

Repense, renove, rediscuta...