Resenhas

O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres

O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres
Organização Valquíria Vlad & Karine Ribeiro
Editora Wish
“Eu quero ser tudo que sou capaz de me tornar.” Katherine Mansfield

Sinopse

Uma época perigosa e autêntica para a força feminina.

O período vitoriano é conhecido por ser muito singular na relação de gêneros, trabalho, casamento e diversos outros tabus do passado. Mulheres precisavam de muita energia, força e coragem para saírem dos padrões tão comuns da sociedade. Neste livro de ficção, você conhecerá histórias de mulheres que se sobressaíram das mais diversas maneiras, publicadas em uma coluna de jornal conhecida como O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres.

O Clube das Mulheres Livres

Infame, vitoriano e feminino. Assim era o Clube das Mulheres Livres, uma coluna de jornal que lançava periodicamente histórias de mulheres fortes, livres e sonhadoras que lutaram para encontrar seu caminho para a felicidade e triunfar sobre a opressão de toda uma era.

O Clube nasceu na Inglaterra vitoriana do século XIX, quando uma mulher quebrou todos os paradigmas impostos pela sociedade ao publicar contos para o público feminino. Apelidaram-na de A Dama, e pouco se sabia sobre sua origem até que um misterioso baú foi encontrado na antiga sede do jornal, décadas depois do Clube ter sido encerrado. Dentro dele, haviam exemplares do periódico contendo as histórias assinadas pela Dama, e cartas originais que narravam escândalos, aventuras, perseguições, casamentos infelizes e luta por igualdade. Histórias reais que a inspiraram a escrever seus contos, que por si só inspiraram outras mulheres daquele tempo.

Os textos são apenas fragmentos do material encontrado dentro deste misterioso baú. Alguns deles trazem pistas que podem nos levar a descobrir quem era A Dama, e outros nos mostram como as mulheres são, acima de tudo, detentoras de seu próprio destino.

O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres

Cara Dama,

Talvez esta seja apenas mais uma das inúmeras missivas as quais constantemente devem lhe ser remetidas. Algumas com teores dignos de serem publicados na coluna do Clube das Mulheres Livres, outras, talvez perigosas demais para a ousadia de uma página de jornal e, talvez, algumas tantas quanto a presente.

É provável que meus feitos não sejam comparáveis aos das Lady’s que desafiaram seus algozes, mas chega a ser, ao menos, necessária de nota, para um minuto ou dois de distração que seja.

Talvez seja melhor que tudo se inicie exatamente deste modo, do princípio. E foi ele em um começo de noite repleto de sons costumeiros de uma casa de família – aqui me dou a liberdade em confessar que não atrelarei a presente narrativa ao meu nome ou a qualquer um que possa ser remetido à mim ou aos meus. Imagino que entende e que não seja novidade em sua correspondência. Um ponto bordado à meia luz da chama enquanto uma palavra ou outra saia da boca das mulheres no ambiente.

Nada demais teria acontecido não fosse o som de algo oco a cair no tapete sem que ninguém se movesse. O barulho aparentemente chamou apenas minha atenção, tanto que me levou a furar o dedo com agulha em mãos. Mas o fato foi logo apaziguado com o que chamou atenção de meus olhos. Bem ali, próximo a meus pés, um exemplar já gasto, em capa de um alaranjado debotado pela clara ação do tempo.

Deixei de lado o bordado, já sem importância o furo do dedo e logo apanhei o exemplar. Não o reconheci da biblioteca de nossa casa, apesar de poder também dizer que não conheço todos os livros que por lá permanecem. Mas este, com detalhes e capa lisa, não me parece algo que eu sequer já havia visto antes. As folhas mais grossas que o habitual, uma impressão que parece perfeita demais para ser real. Não sei dizer, parece até um devaneio a descrever assim, ou que esta que lhes subscreve, não passa de uma mulher inculta que jamais viu, de fato, um livro.

Mas não bastassem esses detalhes esplêndidos, o que mais chamou a atenção foi o título, não me julgue mal, mas apenas reproduzo o que li e que foi gravado em minha memória: O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres. É claro que isto não é uma brincadeira que lhe faço. Chamaram o Clube das Mulheres Livres de ‘infame’ (ora essa!) e ainda tiveram a ousadia em colocá-lo na capa de um livro.

Passada – ao menos em parte – minha surpresa – eis que decido recolher-me aos meus aposentos para fazer uma análise detalhada do livro, que não pareceu despertar qualquer curiosidade ou lembrança nas minhas parentas.

Em solidão, abro as páginas. São muitas referências e, de imediato, difícil saber o que quer dizer. Algumas propagandas – fiquei a indagar, ingenuamente, se talvez foram estas que patrocinaram o livro – e então, intercalados, alguns textos. Comecei o primeiro, despretensiosamente, até perceber que já fora logo em seguida fisgada pelo segundo e terceiro.

E posso dizer que, logo em seguida, os outros textos me tragaram, não estava mais em meu quarto, mas vivendo as vidas de mulheres outras, desbravando terras longínquas, enfrentando o ódio desarrazoado de muitos e contrariando todas as regras sociais e religiosas. Vesti pele em cada uma delas que contou sua história e fui marcada por seus atos. Já pareciam meus, já sentia como seu eu mesma pudesse tê-los feito ou que estava prestes a repeti-los.

Como um todo, somou-se uma grande voz que me dizia que todas ali estavam por todas e que nenhuma de nós seria deixada para trás. Um alvoroço em minha mente que fez o corpo inteiro se arrepiar e percebi que, de maneira ou de outra, precisava dizer isso a alguém. Mas, claramente a quem compreenderia. Tamanho devaneio, tamanha estranheza e beleza que a leitura proporcionou.

Minha mente trabalhava e trabalhava e a única saída seria, logo pela manhã, partir em busca de ao menos um exemplar ou dois, para que pudesse talvez chamar algumas das minhas amigas do círculo mais íntimo e compartilhar o que comecei a achar que toda mulher que se preze deveria ler.

O sol já estava prestes a nascer quando meus planos pareceram sólidos o suficiente para me permitir dormir e, então, ainda com as roupas do dia, desabei em minha cama, ainda com o exemplar em mãos.

Ocorre que a verdadeira estranheza se abateu naquela manhã, quando acordei já de mãos vazias, sem vestígios de que livros quaisquer tivesse passado em meu quarto. Uma página sequer fora localizada, nem mesmo quando comovi todos da casa na procura.

Já fazem mais de trinta anos dessa data e acredito que o clube que vossa Dama criou não mais exista, tampouco. Mas ainda resta a esperança de que, um dia desses, irei abrir a gaveta de meu criado mudo e ele estará ali, me esperando ou, quem sabe, quando eu buscar por um exemplar qualquer na biblioteca, sua lombada levemente alaranjada, com uma lady desenhada, estará lá, esperando que meus dedos o alcancem. De fato, isso nada mais é do que o desejo de uma mulher que gosta de rememorar coisas do passado. Acredito, em verdade, que ele foi cair ao lado dos pés de alguma outra senhorita, que, aflita, precisava de uma dose de coragem, para viver a vida que deseja e não aquela que lhe deram. De mim, posso garantir que funcionou.

Com carinho,

Lady Borges

Aleatoriedades
  • O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres foi recebido em parceria com a Editora Wish e conta com uma seleção especial de contos com histórias bem elaboradas, escritas e com narrativas que nos remetem à época vitoriana. Um enlace perfeito do tema da antologia com cada conto escrito e com uma qualidade impecável, que vai desde o conteúdo, até a edição que está repleta de ilustrações de propagandas da época e um papel de alta gramatura. Unindo tudo isso à incrível mensagem de empoderamento e liberdade das mulheres – seja em que época for, temos uma leitura inspiradora e marcante!
  • A resenha foi escrita em forma de missiva, inspirada no estilo da antologia e de alguns dos contos, que também seguiram o padrão de cartas remetidas à Dama.
O Infame Clube Vitoriano das Mulheres Livres está disponível no site da Editora Wish!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: Say Love – James TW (only in my mind…)

4 Comments

  1. Gisele Thais says:

    Muito clichê se eu disser que amei?! Nunca li um conto porém vontade não falta, e se todos forem tão bons como esse eu vou correndo comprar pra devorar!! Eu simplesmente estou encantada por estas ilustrações, e suas fotos (quando eu crescer quero tirar fotos igual você). Obrigada por essa dica!

    1. Oi Gisele!
      Ah feliz que tenha gostado do conto, mas os do livro são melhores que esse, eu garanto! E as ilustrações do livro são realmente incríveis, a edição é toda linda! Feliz que gostou das fotos, qualquer pessoa consegue, pode ter certeza, só praticar! 🙂
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  2. Eu já quero esse livro!!!E mais uma vez me encantei pelo seu conto, além de suas fotos me deixarem com muita vontade de tomar um chá com a Lady Borges para discurtimos tudo que essas mulheres viveram.

    1. Oi Tatiane!
      Ah esse livro está maravilhoso! Vale muito a pena e leitura e vem que a Lady aqui oferece chá com pão de queijo! ahahah
      Obrigada pela visita!
      xoxo

Repense, renove, rediscuta...