Resenhas

Matadouro Cinco ♥ Kurt Vonnegut

Matadouro Cinco
Kurt Vonnegut
Intrínseca
“- Sabe o que eu costumo dizer quando alguém me fala que está escrevendo livros antiguerra?
– Não, Harrison Starr. O que você diz?
– Eu digo ‘Por que em vez disso você não escreve um livro antigeleiras?’.
Com isso, é claro, ele queria dizer que as guerras sempre existiram e que são tão simples de eliminar quanto as geleiras. Também acredito nisso.
E, mesmo se as guerras não despontassem por aí feito geleiras, ainda existiria a boa e velha morte.”

Sobre o Autor

Kurt Vonnegut Jr. (Indianapolis, 11 de novembro de 1922 – Nova York, 11 de Abril de 2007) foi um escritor estadunidense de ascendência germânica.

Concluída a formação em Química, alistou-se no exército e combateu na Segunda Guerra Mundial. Feito prisioneiro, presenciou o bombardeamento de Dresden. Após a Guerra, formou-se em Antropologia.

É autor de vários romances, ensaios e peças de teatro, entre os quais se destacam Player Piano (Revolução no Futuro) de 1952, Cat’s Cradle de 1963, Slaughterhouse-Five (Matadouro 5) de 1969, Breakfast of Champions (Café-da-Manhã dos Campeões) de 1973 e Galápagos de 1985.[1] Sua última obra foi Look at the Birdie de 2009, livro póstumo com uma coleção de contos e ensaios.

Vonnegut morreu em 11 de abril de 2007, semanas após uma queda em sua casa em Manhattan que resultou em graves complicações cerebrais.

Sinopse

Edição comemora os 50 anos de um clássico moderno, o mais importante da obra de Kurt Vonnegut.

O humor e estilo únicos e originais de Kurt Vonnegut o fizeram um dos escritores mais importantes da literatura norte-americana. Sarcástico, ele foi capaz de escrever sobre a brutal destruição da cidade de Dresden, na Alemanha, durante a Segunda Guerra Mundial — sem apelar para descrições sensacionalistas. Em vez disso, criou uma história imaginativa, muitas vezes engraçada e quase psicodélica, estrategicamente situada entre uma introdução e um epílogo autobiográficos.

Assim como Billy Pilgrim, o protagonista de Matadouro-Cinco, Vonnegut testemunhou como prisioneiro de guerra, em 1945, a morte de milhares de civis, a maior parte deles por queimaduras e asfixia, no bombardeio que destruiu a cidade alemã. Billy tinha sido capturado e destacado para fazer suplementos vitamínicos em um depósito de carnes subterrâneo, onde os prisioneiros se refugiaram do ataque dos Aliados. Salvo pelo trabalho, depois de ter visto toda sorte de mortes e crueldades arbitrárias e absurdas, Billy volta à vida de consumo norte-americana e relata sua pacata biografia, intercalando sua trajetória aparentemente comum com episódios fantásticos de viagens no tempo e no espaço.

Ao capturar o espírito de seu tempo e a imaginação de uma geração — afinal, o livro foi publicado originalmente em 1969, em plena guerra do Vietnã e de intensos protestos e movimentos culturais —, o livro logo virou um fenômeno e sua história e estrutura inovadoras se tornaram metáforas para uma nova era que se aproximava. Ao combinar uma escrita cotidiana, ficção científica, piadas e filosofia, o autor também falou das banalidades da cultura do consumismo, da maldade humana e da nossa capacidade de nos acostumarmos com tudo. Qualquer semelhança com a atualidade não é mera coincidência.

Matadouro Cinco

É assim mesmo. Talvez o livro inteiro possa ser resumido nessa singela frase. É ela que cobre a contracapa da edição comemorativa de 50 anos da obra de Kurt Vonnegut e que aparece repetidamente durante a narrativa ágil, concisa e fluida que permeia cada página de Matadouro Cinco.

“O livro é tão curto, tão confuso, tão desarmônico, Sam, porque nada de inteligente pode ser dito sobre um massacre. Todos devem estar mortos, sem nunca mais dizer ou querer nada. Tudo deve ser muito quieto depois de um massacre, e sempre é, exceto pelos passarinhos.
E o que dizem os passarinhos? Tudo o que pode ser dito sobre um massacre, coisas como ‘pu-ti-iít?'”

O próprio título já desperta a curiosidade. Um livro sobre a guerra antiguerra chamado Matadouro Cinco? Quais atrocidades estarão descritas nessas linhas, afinal de contas? Mas essa é uma das surpresas da história, da narrativa.

Vonnegut descreve e conduz a trama com nada menos que maestria. As palavras são simples, diretas, sem floreios e rodeios. É como se o camarada sentasse ao seu lado com o copo de cerveja ainda gelado e começasse a rememorar o que foi a guerra. A guerra das crianças, aquela que foi travada por corpos, muitas vezes, sem preparo: jovens ou velhos demais para a coisa toda. É assim mesmo.

“Os seres humanos do vagão defecavam em capacetes de aço que eram passados para quem estava postado nos respiradouros, que então os descarregavam. Billy era um dos descarregadores. Os seres humanos também passavam cantis, que os guardas enchiam d’água. Quando entrava alimento, os seres humanos ficavam silenciosos, crédulos e belos. Compartilhavam.”

É daí que veio o subtítulo pelo qual a obra também pode ser identificada: Matadouro Cinco ou A Cruzada das Crianças: Uma Dança Compulsória com a Morte. A referência às Cruzadas não é à toa, o livro é cheio de referências e vai bem além de mostrar o panorama durante a Segunda Guerra Mundial.

A história começa pelos passos do narrador, que também lutou na Guerra, mas não o segue. Quem de fato acompanhamos é Billy Pilgrim. Ah, e o detalhe principal: Billy foi abduzido por alienígenas. Tralmadorianos, para ser exata. E eles o mantiveram em cativeiro para estudar o que são esses tais seres humanos, mas também deram a ele conhecimento das coisas. Como de que o tempo não é linear e, assim, vemos os acontecimentos da vida de Billy na ordem ou da maneira que seguiram, o que pode parecer, para a linearidade típica dos humanos, um tanto quanto fora de ordem.

“É apenas ilusória a impressão que temos aqui na Terra de que um momento se segue a outro, como se fossem contas em um cordão, e, uma vez acabado o momento, está para sempre acabado.”

Passamos das trincheiras ao seu casamento, da sua lua de mel ao matadouro cinco, do bombardeio à consulta que ele dá como optometrista. E viajamos com Billy, vivemos fora de ordem, mas apesar do aparente caos que a ideia possa sugerir, a narrativa é tão afiada e bem elaborada, que os quadros se encaixam e formam o todo de maneira circular, não é difícil acompanhar. É, de fato, interessantíssimo perceber que, às vezes, saber o depois antes do antes, nem é tão ruim assim. Pode fazer toda a diferença.

E, apesar da loucura que a filha de Billy insiste em ver, o acompanhamos e aos tralmadorianos. Já é uma certeza de que o tempo não é mesmo linear. Billy tem toda razão e, com ela, decide que todos deveriam saber disso. É assim mesmo. Talvez seja por aí que tudo começou, sem necessariamente, ser o começo de tudo, se é que você me entende.

“Não existe início, nem meio, nem fim, nenhuma moral, nenhuma causa, nenhum efeito. Em nossos livros, o que amamos é a profundidade de muitos momentos maravilhosos, vistos todos de uma só vez.”

A narrativa de um momento tão sangrento e violento da Guerra pode causar náuseas apenas de se imaginar, mas Matadouro Cinco está bem longe disso. Com a união do tema histórico ao sci-fi, a fórmula mágica se completa com a narrativa do autor, que segue até o humor negro, por vezes, mas sempre natural demais para não ser compreendida. Cenas que chocam são belamente finalizadas com o já costumeiro ‘É assim mesmo.‘ (segundo o site Nexo Jornal, a frase aparecem 106 vezes no livro) e, com isso, o autor não quer desmerecer qualquer dos ocorridos, simplificá-los ou dizê-los corriqueiros. Pelo contrário, a afirmativa acaba por reforçar o que já está por demais evidente: que nada daquilo deveria ser natural aos olhos de ninguém.

Seria até pouco classificar Matadouro Cinco como uma leitura excelente, é mais do tipo que facilmente entra para o roll de melhores da vida e, claro, toda vez que penso no livro, tenho vontade de ter mil exemplares para sair pelas ruas entregando e dizendo: já ouviu a palavra do Vonnegut hoje? Ah, mas você realmente precisar ouvir! Brincadeiras a parte, o livro é essencial e, mesmo com o tom descontraído que toma as linhas, traz muita reflexão. Do tipo que está explícita nas palavras usadas pelo autor, tanto quanto no modo como ele usa algumas delas. Um trecho em especial, ganhou destaque: ‘ser humano‘ é repetido várias vezes num trecho e não por repetição inócua. Ele quer chamar a atenção para ela, para seu significado e para o porquê ele escolheu utilizá-la naquele momento, daquela maneira. Sem dúvida alguma, são muitas as entrelinhas contidas na obra, cabe ao leitor perceber e interpretar cada uma delas.

“Esta história quase não tem personagens nem confrontos dramáticos, pois a maioria das pessoas que aparecem nela está muito abatida e não passa de joguete de forças descomunais. Um dos principais efeitos da guerra, afinal, é fazer com que as pessoas não se animem a ser personagens.”

Nas palavras do autor, “Nenhuma arte é possível sem uma dança com a morte…”.Matadouro Cinco é uma verdadeira obra de arte. Um quadro a ser estudado, uma música a ser analisada para apurar os ouvidos. É uma escultura que tomou forma de palavras e papel e que impressiona, encanta, diverte e deixa clara sua mensagem sobre a guerra, sobre qualquer guerra, na verdade: É assim mesmo.

Aleatoriedades
  • Matadouro Cinco foi recebido em parceria com a Editora Intrínseca, obrigada pela oportunidade, Intrínseca!
  • A edição comemorativa de 50 anos do lançamento de Matadouro Cinco está impecável: capa dura, arte da capa e contracapa balanceadas, que remetem ao tema e combinam com a história, por dentro folhas amareladas com corte branco (achei isso muito incrível!) e ilustrações na folha de guarda e dentro do livro que remetem e ilustram a história. Sem defeitos!
  • As fotos para esse livro foram bem difíceis de acertar. Fiz umas duas sessões diferentes, que não curti muito e acabei optando por algo mais ‘clean’, que desse destaque ao livro e ficasse, ainda, com a cara das minhas fotos… espero ter atingido o objetivo… rsrs
  • E vocês, já ouviram a palavra do Vonnegut hoje?
Matadouro Cinco está disponível para venda nas livrarias físicas do país e em lojas online, para conferir é só acessar o site da Editora Intrínseca!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

4 Comments

  1. Nossa, esse livro parece incrível! Primeiro, ler que a temática está relacionada a Segunda Guerra Mundial já me chamou a atenção, por se tratar de um tema que sempre me interessa, seja em obras ficcionais ou não. Depois, o uso da linguagem ” alegre e quase psicodélica” que você citou aumentou um pouquinho mais meu interesse. Agora, quando surgiram extraterrestres no meio da história, minha curiosidade gritou! rs Nunca tinha ouvido falar desse livro e agora quero ler pra ontem!

    1. Oi Juliana!
      Ahhh feliz de ver sua empolgação com esse livro! É dos mais incríveis que eu já li e realmente a junção de temas e narrativa do autor fazem toda a diferença. Esse livro chega a ser necessário, porque ele fala praticamente de tudo sobre a vida de um modo que todo mundo se identifica em certo grau. E sim, os extraterrestres vem com grande estilo, é muito boa a interação do personagem com eles! Espero que possa lê-lo em breve! <3
      xoxo

  2. Pronto… a curiosidade se estabeleceu em minha matéria humana.
    O tempo enquanto invenção humana é algo bastante curioso porque passa com menos velocidade na infância e de repente acelera, dispara e se perde de nós. Há ainda as questão de erro e acerto relacionado ao passado e a maneira como se comporta em nós. O ontem não desaparece, mas não pode ser “tocado” ou revisado. Mesmo assim as coisas se repetem como se fossem o ontem se revoltando contra nós. Ok. parei.
    Quero esse livro para ontem… livraria da vila, aqui vou eu!. rs

    bacio

    Ps. Reparou que eu fui breve-rápida hoje! Contive os delírios dentro da caixinha. rá

    1. Oi Lunna!
      Eu também adoro pensar nessa questão do tempo e, do modo que a narrativa foi elaborada, ficou ainda melhor. Sobre o nosso tempo, sem dúvidas que as coisas se repetem, se embolam, de misturam e são visitadas-vividas-revistas, às vezes acho que de um gole só!
      E tô feliz em saber que você já até comprou (ahaha você não aguentou mais que um dia pra fazê-lo, não é mesmo!? rsrs).
      p.s.: mesmo breve-rápida, continua você. O que eu adoro, a propósito!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

Repense, renove, rediscuta...