Quando Ela Desaparecer ♥ Victor Bonini

Quando Ela Desaparecer
Victor Bonini
Faro Editorial
“Esperar. É a tortura de qualquer parente nessa situação. Muitas vezes, esperam para sempre. Seus amados foram embora e nunca mais voltarão.”

Sobre o Autor

Victor Bonini nasceu em São Paulo, morou em Vinhedo, interior do estado, e voltou à capital aos dezoito anos para cursar jornalismo. Sempre lhe perguntam se, ao longo da vida, havia indícios de que seria um autor de mistério. Aos sete anos, escolheu o filme Pânico como tema da festa de aniversário. Na adolescência, devorou todos os livros policiais e de terror que pôde encontrar. Na universidade, seu elogiado trabalho de conclusão de curso, em parceria com Mariana Janjácomo, foi um livro sobre o caso Pesseghini, apresentando vários aspectos do crime que chocou o país em 2013. O trabalho não foi publicado a pedido da família das vítimas. E aos vinte e dois anos, quando lançou seu primeiro livro, Colega de Quarto, pela Faro Editorial, ele finalmente entendeu que escrever é a forma de dar vazão a debates internos sobre a lógica de crimes e a mente dos psicopatas — pensamentos que o assombram como ideias para a ficção, querendo emergir. Victor passou pelas redações da GloboNews, TV Gazeta e Revista Veja. Atualmente é repórter da TV Globo, em São Paulo.

Sinopse

Uma garota de dezesseis anos desaparece durante uma excursão escolar. Mas não se trata de qualquer garota. Dois anos atrás, ela esteve à beira da morte, e quando foi encontrada, ninguém acreditou que sobreviveria.

Agora, há dois meses desaparecida, não restam dúvidas de que esteja morta. Rastros de sangue e um colar arrancado são as únicas pistas. Pressionados, os policiais estão desesperados por respostas, mas ninguém na longa lista de suspeitos parece ter forte motivação para cometer um crime.

Até que o caso vira de cabeça para baixo e segredos muito bem enterrados emergem para revelar o lado cruel de um lugar aparentemente tranquilo. No meio de tantos possíveis culpados, os inocentes é que estão mais aflitos… porque alguns deles começaram a morrer.

Quando Ela Desaparecer…

A história que lhe será contada aconteceu no Cecap. Foi real, mais real ainda pra todo mundo que mora lá ou tanto quanto outra que se veja no telejornal. Todo mundo passou por tudo, de certa forma. É provável que você tenha acompanhado pelos jornais, apareceu em quase todos e não foi só nos de São Paulo. Imagino que nem que seja pela internet você deva ter visto.

Ou sentido. O desespero, a angústia, o medo. O que parecia um lugar seguro se tornou um poço de desconfiança. É como se qualquer um ao seu redor se tornasse, de repente, suspeito. De sequestro e de coisa pior. Se é que dá pra medir esse tipo de coisa.

A jornalista Sarah nos dá o panorama do crime que parou o Cecap, que bagunçou a vida de muita gente. Ela mostra os trechos das gravações, as conversas, as lembranças e tudo mais que foi manchete. É claro que, ao longo da jornada que é a procura de Kika, ela também dá sua opinião. Mas, não vamos nos adiantar.

Foi a Kika quem desapareceu, aquela garota linda que ganhou o concurso de Miss Guarulhos e depois aconteceu aquela barbaridade. E, dois anos depois, ela desaparecida. É de dar aperto no coração, ainda mais quando se conhece a mãe dela, a Maria João. Dois dedos de prosa a gente já percebe que ela é pessoa boa, querida, coração bom, sabe?

Imagina a angústia de quase perder a filha uma vez e, depois, ela sumir? Tem coisas que jamais se deseja pra alguém, por mais que não seja alguém que sejamos próximos ou gostamos muito. Essa é uma delas. Mãe é o tipo de criatura que jamais deveria passar esse tipo de aperto no peito.

E, falando em aperto, é como a Polícia fica, os investigadores, toda pista parece sempre dar em nada. Nada de nada. E daí, quanto mais se cava, mais ideias surgem, mais sem sentido fica e parece que todos são culpados ou ninguém o é. São vários personagens-pessoas-suspeitos-inocentes-culpados que se misturam a todo tempo.

“Como sera possível que uma garota de dezesseis anos sumisse do mapa sem gritos? Sem testemunha? Sem vestígio?”

Tem segredo sujo que parece ainda grudado debaixo da unha das pessoas, um ar pesado e sensação de embrulho no estômago que atinge até o colégio que a Kika estudava. E aqueles que eram próximos dela, qualquer um que, um instante sequer, tenha passado perto dela, por bem dizer. Tem segredo pipocando, mas as peças não se encaixam e, ao correr os olhos pelas novas manchetes, é preciso reler. Será mesmo possível? Como ninguém pensou nisso antes? Como ninguém esperava por isso? Como que ninguém viu? Como mesmo que isso aconteceu? Será verdade?

Quando ela desapareceu ficou um buraco, dele saiu fedor, coisas horríveis, bullying, injustiça, crimes, um bando de coisa muitas vezes varrida pra debaixo do tapete, por medo, por não acreditar, até por amor. E então, muita gente abriu os olhos, máscaras caíram e o horrível tomou forma. Será isso mesmo?

Quando Ela Desaparecer é um misto de investigação policial, suspense e mistério, pronto para fazer brotar mil e uma teorias na mente do leitor, mas jamais permitir que a verdade brote no meio disso, ela foi enterrada muito bem pelos culpados, estão sempre a dois passos à frente de quem desbrava as páginas do livro. Repleto de críticas sociais e ao sistema investigativo policial brasileiro, o livro é uma leitura ágil e traz um caso curioso a ser estudado: quando ela desaparecer, o que será que vai surgir?

Um ponto que poderia ter sido melhor trabalhado durante a trama é intrínseco ao plot twist que acontece no fim do livro, já que a reviravolta não se justifica com firmeza sobre os elementos que são apresentados durante o desenvolvimento da história. O que torna a reviravolta, de fato, imprevisível para o leitor, mas, ao mesmo tempo, sem base concreta que se formar. Especialmente no tocante ao transtorno de personalidade antissocial, pela leitura que a obra expõe, ele se resume à umas três características pouco marcantes que podem também fazer parte de outros transtornos ou mesmo de comportamentos justificados por outras razões. Esse fato desabonou parte da leitura, pois a surpresa no fim da trama, trouxe, na verdade, certa indignação, já que a ideia pareceu não se sustentar. Um dos pontos altos em um suspense é notar o como as peças foram dispostas para o leitor de maneira inteligente ao longo da história e notadas pelo leitor apenas ao fim, embasando o final, infelizmente não foi essa sensação que a leitura deixou.

“Eu via meus amigos próximos virarem bárbaros, estava, seriamente falando em espancar gente. Perdi o chão ao relfetir como a violência é fácil. Lembrei-me daquilo que o próprio pastor Bartolomeu tinha exclamado à mesa, durante o jantar: ‘O diabo é nosso vizinho no dia a dia, sabe? É tão presente que… bem, que poderia muito bem estar aí, sentado na mesa com a gente’.”

Ainda assim, uma leitura que faz pensar, especialmente sobre as críticas bem intrínsecas à trama: bullying escolar, stalkers, preconceito, descobertas da época da puberdade, o sistema brasileiro de investigação, a precariedade de recursos para tanto, a violência e a facilidade com que culpados são tachados, vidas são destruídas e palcos para execução são armados com ajuda da mídia e opinião popular.

Aleatoriedades
  • O livro foi recebido em parceria do Resenhando por Marina com a Faro Editorial e a resenha foi originalmente postada no Resenhando.
  • A edição da Faro Editorial mais uma vez mostrou primor na edição: uma capa que condiz à trama proposta, uma edição repleta de destaques, que separa bem as narrativas temporais do livro, que traz imagens e textos em destaque para contribuir na narrativa investigativa. Um prato cheio para os olhos e para a mente.
  • As fotos da vez foram feitas, como em raros casos, antes da leitura, mas mudaria bem pouco nelas após finalizar o texto. Talvez um colar com pingente de coração aparecesse por aí.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia
Ouvindo: George Erza – Blame It On Me

Repense, renove, rediscuta...

  1. Eu comecei a ler esse ontem e já estou presa à leitura. Estava bem ansiosa pelas resenhas lidas.
    Achei uma pena isso que você falou do final. Depois venho te contar o que achei.
    A edição está linda, a Faro é um capricho nessa parte. Eu adoro!
    Adorei a resenha e as fotos.

    bjs
    Fernanda

    • Oi Fê!
      Ah que delícia saber disso, espero que goste e desbrave o enigma! ehehe Foi um ponto que me incomodou bastante, mas que de todo jeito não tira todo o mérito da obra, que tem uma construção muito boa em outros aspectos. E realmente essa edição da Faro está incrível, achei muito bem elaborada! 🙂
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  2. Estou muito curioso para ler essa obra, espero poder estar realizando essa leitura ainda nesse semestre, pois as obras do Bonini são muito bem escritas e seus enredos muito bem elaborados. Parabéns pela resenha, ficou ótima!!!

    • Oi Gustavo!
      Ah vale muito a pena conhecer, é o primeiro contato que tive com a escrita do Bonini, mas sempre vejo o pessoal falando muito bem dos outros livros também!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  3. Menina do céu! Que livro, hein?! Bem estilo filme americano de suspense! Adorei a resenha! Fotos perfeitas, viu?! Tenho visto muita divulgação positiva entorno do trabalho de Victor Bonini e essa obra! Esse livro com certeza vai entrar para minha wish list! Você, mais uma vez, arrasou! Palmas!!!
    Beijos!

    • Oi Ana Cláudia!
      Ah com certeza um baita livro! Parece mesmo que estamos lendo um caso real que poderia bem ser tema de um filme! Os livros do Bonini tem mesmo um feedback muito bom, espero que tenha a oportunidade de ler! 🙂
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  4. No momento não estou lembrada desse caso, mas vou pesquisar porque devo saber do que se trata, só não estou ligando o nome a pessoa. Histórias reais sempre têm um quê a mais de intrigantes, algumas até se tornam mais aterrorizantes que qualquer filme de terror. Imagino que seja um livro forte, por conta da violência implícita no desaparecimento da Kika. Fiquei com muita pena da mãe dela, realmente é um destino que não se deseja a ninguém.

    • Oi Patrícia!
      Ah a história é ficção, mas toda ela parece muito real no livro e a construção é feita para nos fazer pensar que realmente o caso aconteceu. Muita gente que leu já foi pesquisar pra ver o que realmente tinha sido noticiado e daí que descobriu que era ficção mesmo! ehehe
      E realmente, esse livro traz muitos sentimentos e, especialmente sobre a mãe de Kika, é muita coisa pra se lidar e, com as reviravoltas da trama, estamos sempre mais e mais angustiados e divididos. Vale a pena conhecer a história, é muito próxima de vários casos reais!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  5. Buongiorno Renata.
    Passei alguns minutos a repetir o título do livro. Não sei te dizer o que me incomodou.
    Fui lendo e me localizando nesse tempo louco em que tangas coisas acontecem. Tantos crimes que se narram por aí com seus detalhes de horror. A mente já nem sabe em que direção ir. Apenas repete “mais um crime”. Já não espanta. E isso é absurdo. Ontem mesmo alguém me disse ‘o marido arrancou a orelha da mulher”. E eu só perguntei’ de novo? ‘. Respirei fundo.
    Voltando a história, acho muito complicado escrever nesse gênero porque a tendência natural é se perder, cometer erros. Algo sempre fica pelo caminho.
    Estou a trabalhar numa trama, um romance, que tem um mistério em suas linhas e confesso o meu desconforto em alinhavar os elementos. A personagem é apenas uma vítima (mais uma) e parece fácil, simples, mas estruturar tudo isso de maneira lógica está mais para desaforo mesmo.
    No mais, gosto de historias locais. Marcos Rey escreveu sobre São Paulo. Cuenca sobre o Rio e Manu sobre o Recife. Já a Letícia escreveu sobre o Sul e seu passado e não me agradou. A louca = eu!.

    Bacio

    • Oi Lunna!
      Sabe quando lemos e esperamos a frase do título brotar em dado momento? Fiquei assim durante toda a leitura, mas não foi um desejo realizado. Apesar de compreender a escolha do título, não acho seu som aos ouvidos dos melhores e acho que poderia ser mais, digamos… não sei dizer, conciso, direto ao ponto, ou sugestivo para outro aspecto, já que a relação com o momento de ‘quando ela desaparecer’ não é exatamente abordado na trama…
      Como diria Hannah Arendt é a banalização do mal, infelizmente é o que vemos jorrar dos jornais diariamente e o que deveria causar sempre espanto, encontra um conformismo em todos nós. Que possamos voltar a nos chocar e, chocados, reagir.
      Confesso que histórias locais nem sempre me chamam a atenção, o que me levou a essa foi mais a parte do suspense, da investigação mesmo. E sem dúvidas amarrar histórias é um trabalho e tanto, longe dos mais fáceis! 🙂
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  6. Que resenha ein? Podemos fazer muitas coisas com a palavra humanidade, menos generalizar. Dalai Lama e hitler foram humanos (até que se prove o contrário…) e olha o tom da diferença. É fato que um acontecimento tão triste e violento acaba influenciando nosso julgamento, semeando insegurança e até mudando o que sentir por um lugar. No final, eu evito esse tipo de relato por motivos próprio, sou bem fraco para esse tipo de assunto, mas entendo que em alguns casos geram reflexões necessárias.

    xoxo

    • Oi Daniel!
      Realmente é uma história que traz muitas reflexões, especialmente porque a plot twist que acontece traz uma reviravolta que muda o rumo de tudo. Vale a pena conferir!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  7. Nossa…. adoro livro assim, instigante… e como vc faz a resenha nos deixa com mais vontade aí da de ler!!! Obrigada pela dica…. vai é trás na minha wishlist!

    • Oi Darlene!
      Ah se quiser experimentar o gênero, acho que é uma boa leitura, tem muitas reviravoltas e um tom realístico na história muito bem trabalhado!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  8. Que fotos perfeitas! ❤ É o tipo de livro que eu amo. Adoro livros que falam de suspense, fatos reais e política ❤ Obrigade por compartilhar! Espero que seja um livro cheinho pra eu poder aproveitar bem ❤❤❤❤❤

    • Oie!
      Ah obrigada! Esse livro é mesmo bem bolado e tem todos esses elementos (mas o caso é fictício, mas trabalhado como se fosse real), vale a pena ler se gosta do estilo! 🙂
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  9. Nossa, eu “conheço” o Victor da época do Orkut, de um grupo sobre a Agatha Christie! Tempo atrás vi comentários que ele estava escrevendo/tinha escrito um livro, mas acabei perdendo a informação de vista. Gostei de ver a resenha por aqui e, claro, me interessei na leitura, tanto pela sua resenha quanto pela história em si e por conta de ter sido escrita pelo Victor. Fiquei meio assim pela questão do plot twist que você mencionou mas apesar disso a sinopse ainda desperta a curiosidade, então anotei aqui para ir atrás do livro em breve.

    • Oi Juliana!
      Ah gente, como diriam, que mundo pequeno! ehehe O trabalho do Bonini tem se destacado bastante e vejo o pessoal elogiado muito, que tem crescido mais a cada livro! 🙂 Com certeza vale dar uma chance para a leitura! 🙂
      Obrigada pela visita!
      xoxo