A Pequena Sereia e O Reino das Ilusões ♥ Louise O’Neill

A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões

Louise O’Neill

DarkSide Books

“Queria que meus olhos fossem de outra cor. Lá em cima, dizem, as mulheres têm olhos em tons de castanho e verde, violeta e mel. A pele delas é parda e negra e amarela e branca. Lá em cima, as mulheres podem ser diferentes.”
Sobre a Autora

LOUISE O’NEILL é jornalista e escritora. Nasceu em 1985 em West Cork, na Irlanda e se mudou para Nova York para trabalhar na revista Elle, vivendo o dia-a-dia do mercado de moda intensamente. Voltou para sua cidade natal em 2011 e focou em sua carreira como escritora. Desde então, publicou quatro livros e recebeu diversos prêmios e nomeações com suas obras YA. Atualmente escreve artigos sobre feminismo, moda e cultura pop para uma variedade de jornais e revistas irlandesas.

Sinopse

TUDO PARECIA CALMO E COMUM NA SUPERFÍCIE… MAS NO FUNDO ERA O INICIO DE UMA REVOLUÇÃO!

Esqueça as histórias sobre sereias que você conhece. Esta é uma história diferente — e necessária. E tudo começa no fundo do mar. Com uma garota chamada Gaia, que sonha em ser livre de seu pai controlador, fugir de um casamento arranjado e descobrir o que realmente aconteceu à sua mãe desaparecida.

Em seu aniversário de quinze anos, quando finalmente sobe à superfície para conhecer o mundo de cima, Gaia avista um rapaz em um naufrágio e se convence de que precisa conhecê-lo. Mas do que ela precisa abrir mão para transformar seu sonho em realidade? E será que vale a pena?

A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões chega para trazer um pouco mais de contos de fadas para a linha DarkLove, da DarkSide® Books. Mas não do jeito que você espera; aqui, a história original de Hans Christian Andersen — e também suas versões coloridas e afáveis em desenhos animados — é reimaginada através de lentes feministas e ambientada em um mundo aquático em que mulheres são silenciadas diariamente — um mundo que não difere tanto assim da sociedade em que vivemos.

No reino de ilusões comandado pelo Rei dos Mares, as sereias não recebem educação, não têm direito de fala, devem se encaixar em um padrão de beleza impossível e sempre sorrir. É neste cenário que a autora irlandesa Louise O’Neill apresenta uma história sobre empoderamento e força feminina. Com narrativa e olhar afiados, a autora ainda desenvolve aspectos do conto original que passaram batido, como o relacionamento de Gaia com as irmãs e as camadas complexas da Bruxa do Mar.

A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões, que chega ao mundo acima da superfície da água com o padrão de qualidade que virou marca registrada da DarkSide® Books, mostra como, em um reino comandado pelo patriarcado, ter uma voz é arriscado. Mas também como querer usá-la é uma atitude extremamente poderosa e valiosa. Ainda mais em tempos tão sombrios.

No Reino das Ilusões

Nas profundezas do oceano, tão fundo que é até difícil de imaginar, há um reino onde tritões e sereias vivem entre algas e estrelas-do-mar. Lá também vive uma pequena sereia de longos cabelos avermelhados, que sonha com o dia em que poderá subir a superfície e conhecer de perto todas aquelas coisas as quais só chegam acompanhadas de destroços de navios afundados.

“Ergo as mãos em direção à superfície, como se para tocar o navio ou a baleia, mas estão muito longe. Nós estamos enterrados vivos aqui embaixo.”

Mas, sob a superfície, há bem mais do que os olhos podem ver… sonhos reprimidos e uma pequena sereia que quer a chance de mudar seu destino. De ter pernas ao invés de uma cauda, de respirar o ar e sentir o sol queimar sua pele. De viver sem amarras, sem um pai poderoso e onipresente, sem a promessa de um casamento que não deseja. E é por isso que ela faz a escolha mais difícil de sua vida, abrir mão da única coisa que lhe traz felicidade e, com isso, ganhar as pernas que tanto desejou e a chance de conquistar seu verdadeiro amor.

Falando assim, a história pode soar um tanto quanto com o conto de fadas que conhecemos, especialmente, em sua versão Disney com a cantante Ariel a plenos pulmões e enamorando-se de Eric sob o embalante som de Kiss The Girl. Mas a inspiração da autora foi mais distante do que a animação de 1989, encontra um fundo mais próximo da versão da Pequena Sereia de Hans Christian Andersen, que não se preocupava com a necessidade Disney de enfeitar e florear todas as histórias e seus finais.

“Às vezes eu queria conseguir odiar minha mãe e ser capaz de me ressentir por ela ter nos anbandonado. Mas a única coisa que consigo fazer é sentir saudade dela.”

Sob a introdução das editoras com ‘Sobre sereias, mulheres e contos de fadas sombrios‘, somos apresentados ao que virá nas páginas de A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões: um mar revolto de sentimentos, injustiças e personagens marcantes.

Conhecemos a pérola mais bela de todo o oceano e, como tal, a mais valiosa, já que estamos em um lugar onde sereias têm seu valor medido por sua beleza, pelo padrão que conseguem seguir e o quão silenciosas e obedientes conseguem ser.

“O vento ergue sua cabeçorra pesada, fungando profundamente, inalando a fúria do mar. Ele quer participar. Também quer colocar os humanos em seus devidos lugares.”

Nesse meio aquático, nos deparamos com conceitos e paradigmas sufocantes para as sereias, restritivos, machistas e que as colocam como submissas e inferiores. Não muito distinto do que costumamos ver na sociedade em terra.

A necessidade de se libertar das amarras e de descobrir o que aconteceu com sua mãe, faz com que a jovem Gaia recorra à Ceto, a bruxa do mar, como é conhecida nas águas do Rei Tritão. E lá, ouve palavras as quais parecem distintas demais do que gostaria de escutar.

“As salkas carregam suas dores em seus cabelos; ela é entremeada aos fios como fitas feitas das anêmonas mais finas. E aí há as pernas delas. Tenho vontade de tocá-las, de contar os dedos dos pés e de correr meus dedos pelas coxas, mas sei que não devo fazê-lo.”

Sua jornada estava apenas começando e as descobertas se darão em terra firme, com a ausência de sua voz, dada em pagamento à Ceto, a dor constante de pisar sobre pés que lhe foram dados por magia e o prazo para fazer com que o jovem Oliver se apaixone e a salve de transformar-se em espuma do mar.

A história da pequena sereia, especialmente para quem conhece a versão de Andersen, está toda presente no corpo de O Reino das Ilusões, e é, por assim dizer, a base que construiu cada parte. A autora trouxe elementos adicionais, como as Salkas, e os entremeou à narrativa como se tivessem brotado do próprio fundo do mar. Esses aspectos, além de reforçarem as mensagens que são passadas, servem como enriquecimento da trama, que leva o foco para a jovem Gaia e para aqueles que a circundam.

“Meu nome é Ceto”, rebate ela, se levantando da cadeira até se assomar diante de mim. “É o seu pai que tem insistido em me chamar de ‘bruxa’. Este é simplesmente um termo que os homens dão às mulheres que não têm medo deles, às mulheres que se recusam à submissão.”

E Gaia é tão jovial quanto qualquer sereia que se possa imaginar e, aos seus dezesseis anos, guarda em si ingenuidade e desconhecimento do mundo, das pessoas que o habitam, seja dentro ou fora d’água, assim como de si mesma.

É a vontade de conhecer o desconhecido e a inconformidade que a levam à terra firme e são também elas que a agarram como se fossem uma rede de pescador que não irá soltar até que ela se afogue. E sim, a vida pode ser sufocante mesmo com tanto ar ou água ao redor, seja para quem tem pernas ou cauda.

“Dá pra ver a ponta da língua dele se enfiando no ouvido de Ling, o calafrio dela quase imperceptível. Eu deveria ir até lá e ajudar, assim como gostaria que alguém tivesse intervindo quando Zale botou as mãos em mim. Mas é da minha alçada fazer isso? Será que talvez esse tipo de comportamento simplesmente seja o que as mulheres devam suportar para poder existir no mundo? Somos treinadas para agradar e para angariar a atenção masculina, para ver o olhar deles de confirmação ao nosso valor. Será que somos autorizadas a reclarmar, então, se a atenção não for do tipo que gostamos?”

A ideia que a sereia nos traz é aquela velha conhecida de que a grama do vizinho é sempre mais verde que a nossa. Que nossas dores são as piores e que fugir delas, viver no jardim ao lado, seria, sem dúvidas, melhor. É o brilho do ouro que atrai Gaia e, ao descobrir que na verdade tudo não passava de pepita, é impossível que todos os danos e perdas sejam remediados.

Considerado como um livro feminista, escrito para o ser, o livro traz diversas situações machistas, diversos conceitos e acontecimentos que mostram a desigualdade entre homens e mulheres, entre tritões e sereias e retira da pequena sereia aquilo que exatamente as mulheres e as sereias mais buscam: voz. A voz para lutar por igualdade.

“E então o mar – ah, o mar.
Ele está me chamando, mas não fala comigo, não me chama mais de filha. Sua voz está tão perdida para mim quanto à minha própria, e eu não tenho certeza do que dói mais.”

A autora segue uma narrativa bastante aberta, com falas e pensamentos reflexivos dos personagens que, a princípio, me chamou a atenção. Gosto quando as reflexões são deixadas para o leitor, mas, ao mesmo tempo, me fez refletir sobre o fato de que a mensagem desejada não fosse transmitida se deixada para as entrelinhas. Às vezes, as coisas precisam ser ditas e de maneira bem direta. E assim o machismo abordado em todo o livro é explícito e pinga de gotas salgadas das páginas, surgem ora como ondas de maremoto, ora como leve ondulações na beira da praia.

Os personagens vêm e vão de maneira ondulante, primeiro conhecemos os que vivem sob as águas e, destes, adoraria talvez um livro solo sobre Ceto. Enigmática, empoderada, uma mulher sereia que sabe o próprio poder e que não teme ser quem é. Do lado da terra, conhecemos a inicialmente ambígua Eleanor. Muitas imagens femininas que são mostradas em suas diversas facetas. Ainda assim, preciso acrescentar que senti falta de um personagem masculino que também servisse de contraponto forte, tanto quanto Ceto ou Eleanor. A respeito dos homens/tritões, a vontade que se tem a ler, é juntar a todos em um balaio de descarte, infelizmente. E, nesse ponto, a preocupação que traz é de que alguns podem ver o feminismo como uma luta de mulheres versus homens quando, na verdade, se trata de igualdade e não de superioridade.

“Eu não esperava tantas semelhanças entre este mundo e o do meu pai. Guerra e dinheiro ainda são domínio masculino, conversas sérias e cochichadas em ambientes privados e com charutos. Enquanto isso, espera-se que as mulheres se enfeitem com joias e estejam agradáveis aos olhos. Os homens falam, as mulheres escutam.”

Um dos pontos que é trabalhado de maneira mais sutil e não literal ao longo do livro e que, por isso foi a que mais me chamou a atenção, é sobre a voz. A voz da pequena sereia que lhe arrancada de forma literal (e visceral) e que ela pensa que abriu mão de maneira espontânea. É a mesma voz que ela usa para o canto e para seu próprio deleite e prazer, e é a mesma que, sem que ela perceba, é calada nas profundezas a todo tempo. E, quando ela se vê sem a possibilidade de a usar, é que nota o quanto ela é importante, o quanto estava vinculada à sua capacidade de expressão. E, claro, a voz não se resume ao som que emitimos por nossas bocas. Voz é o que nossos atos demonstram, o que refletem, o que buscamos. E sua importâncias estará sempre além das palavras que proferimos.

Outra mensagem marcante do livro é sobre amor próprio e autoimagem. Os padrões de beleza do fundo do mar não são muito distintos daqueles que vivenciamos na sociedade atual, é marcante o quanto até mesmo esse ponto reflete nas ações da pequena sereia. Na certeza de que aquilo que têm de mais precioso, é a sua aparência, porque é isso que lhe ensinaram, é nisso que ela precisa crer. Do contrário, como irá conseguir seu maior desejo?

“É incrível como fui presunçosa ao abrir mão da minha voz; e quão pouca importâncias eu dava a ela. Desde que fui silenciada, tudo o que quero é poder falar.”

E, falando em maior desejo, temos Oliver. O rapaz por quem Gaia se apaixona à primeira vista, sem conhecer mais do que sua aparência e o som da voz à distância. O próprio relacionamento que surge a partir da ida da pequena sereia para o mundo humano é trabalhado de maneira inteligente, mostrando em como é fácil sair de uma situação de controle, de abuso, para outra.

O final do livro, alguns julgam duro, rígido, outros apropriado. Imagino que foi forjado pelas marés da história que foi contada e, claro, é impossível não reconhecer os traços do conto original no desfecho traçado. Seja como for, a realidade intrínseca à história reverbera durante toda a leitura e é impossível não ver o quanto ela ainda é parecida com o mundo em que vivemos, ainda que, em muitos casos, de maneira velada.

“Eu moro na escuridão porque lá posso ser genuína, e viver genuinamente é a coisa mais importante é a coisa mais importante que qualquer mulher pode fazer.”

A Pequena Sereia e O Reino das Ilusões é uma ode à voz feminina, às suas dores e a necessidade de trazer cada vez mais luz à um movimento tão importante. É sobre amor próprio, irmandade, igualdade e quebra de padrões. É uma história que merece ser lida e refletida.

Aleatoriedades
  • Marca registrada da DarkSide Books, a edição de A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões não poderia ser mais imersiva e apaixonante! Detalhes que remetem ao fundo do mar, a capa com uma ilustração de tirar o fôlego de qualquer sereia e uma sintonia incrível com a leitura. A edição de capa dura, com corte colorido em cores em dégradé aumenta a inspiração. Um verdadeiro deleite aos olhos! O livro ainda acompanha, para as compras pelo site da Editora, um mini sketchbook (tipo Moleskine), que é simplesmente maravilhoso também!
  • A Pequena Sereia e o Reino das Ilusões faz parte do selo DarkLove da DarkSide, que reúne títulos que buscam discussões importantes e dão voz ao feminino!
  • O exemplar foi enviado pela DarkSide Books e  eu não poderia estar mais radiante, feliz e toda boba mesmo pelo carinho e pelo presente!
  • As fotos dessa vez foram super difíceis, fiz umas três sessões até encontrar alguma em que o livro não se perdesse ou não brigasse com os outros elementos. Quem diria que a capa mais linda também seria das mais difíceis de fotografar!? No fim, não acho que foi minha melhor sessão de fotos, mas gostei do estilo e de como ficaram os cliques!
A Pequena Sereia e O Reino das Ilusões + sketchbook está disponível na loja oficial da Caveirinha!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

Repense, renove, rediscuta...

  1. Pingback: A Pequena Sereia de Andersen e de Loiuse O'Neill - retipatia

  2. Sem tirar nem pôr: essa é uma das edições mais lindas da minha estante. Emprestei ele para uma amiga e ela ficou encantada com todo o designer (e eu espero que ela goste da história também hehe).
    Eu gostei tanto dele! Agora, depois de ter lido há umas semanas, passei a ver diversos pontos de maneira diferente e a gostar ainda mais das reflexões que a autora gerou com ele! <3
    Ah, eu vi seu vídeo de unboxing e achei uma graça. Deu match perfeito você e esse livro!

    • Oi Luana!
      Siiim, uma edição de dar suspiros! Ah torcendo pra sua amida gostar, é uma história que rende muito assunto, sem dúvidas!
      Eu também passei por essa fase de avaliação do livro sabe, de sentir, perceber coisas ao longo do tempo e até de mudar algumas impressões que tive em um primeiro momento! Ah feliz que curtiu o unboxing, fiquei tão feliz quando ele chegou! <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo