Resenhas

Contos de Fadas em suas versões originais

Todos nós tivemos contato com os contos de fadas pelos desenhos animados, livros ou contações de histórias. O curioso é que todas essas narrativas foram adaptadas sem muito compromisso com os contos originais, perdendo parte da tirania e sutileza naturais da época.

Neste livro de colecionador, os melhores contos de fadas foram escolhidos de forma criteriosa, cujas histórias centenárias se enveredam por horizontes escuros e sombrios, onde não há censura ou limites. Seus finais nem sempre envolvem casamentos ou futuros felizes, nos quais a moral prevalece sobre os pecados.

Nada mais será escondido ou censurado. A chave para conhecer os contos de fadas mais obscuros está em suas mãos. Você tem coragem de abrir esta porta?

Sinopse da edição de Contos de Fadas em suas versões originais publicado pela Editora Wish

Quem conta um conto…

Era uma vez, em um tempo em que os dias não eram contados e o sol e a lua não se importavam em intercalar-se para surgir no céu, havia um reino feito de papel e palavras. O nome era Reino das Histórias Maravilhosas e, de tão incrível que tudo nele era, chamava até mesmo visitantes das terras mais longínquas.

As paredes de seu castelo, onde viviam os mais célebres escritores, era feito do papel da mais alta gramatura, amarelado, que deixava um perfume permanente pelos corredores. A tinta, especialmente desenvolvida para ser legível sob os raios de sol ou de lua, exalava aroma de lavanda e deixava as palavras em tom anis sobre o papel.

As casas e lojas do Reino também não ficavam atrás, em ruas pavimentadas com papelão decorado das capas mais distintas, eram salpicadas de páginas das mais diversas formas. Ilustradas, escritas à máquina de escrever, escritas à mão e em braile. Uma infinidade tão grande que não existia construção igual a outra.

Praças, parques, todos adornados do mais fino papel, das palavras mais belas, que inspiravam dias cálidos e momentos alegres. As árvores, tinham troncos costurados com intrincadas ranhuras e seus galhos e folhas feitos do origami mais detalhado e belo. Tsurus voam aqui e acolá, cisnes deslizam pelo lago de ondas de dobraduras e coelhos saltitam pela grama de papel picado.

O único detalhe que escapava desse mundo de papel e palavras, eram as pessoas que por ali viviam. Não eram moldadas ou dobradas de papel, tampouco adornadas com palavras. Eram de massa mais sólida, pesada, uma mistura de ossos, carne e pele. Nada suave ou singelo como escritas desenhadas formando cachos para as cabeças ou acentos agudos formando cílios. Nada de capa dura para proteger o papel de dentro, apenas pele fina e mole pra segurar varetas chamadas ossos.

Os rasgos, assim, aconteciam com mais frequência do que era possível restaurar. Ora, vejo só, às vezes, até mesmo era necessário subir paredes em branco, completamente sem palavras ou símbolos ou desenhos quaisquer. Uma afronta que a Escrivã-mor desejava acabar. Mas de nada adiantava, as pessoas não ficavam presas em jaulas de papel, não acreditavam em folhas que estipulavam multas ou penas e sequer se importavam dos amassos que deixavam pelo reino afora.

Certo dia, ao ver dezenas de cisnes despedaçados, a escrivã não suportou a dor de ver tanta vida em papel jogada fora e chorou rios e rios de lágrimas molhadas, aquelas proibidas no Reino das Histórias Maravilhosas.

As lágrimas foram tantas que se formou uma cachoeira, nascida no próprio palácio e que desaguou na principal avenida do reino. Assim, as lágrimas verteram por todo canto do Reino, destruindo tudo que tocava: borrou-se a tinta e amoleceu o papel até esfarelar e murchar e empapar.

A cidade, as ruas, casas, tudo se desfez, morreu e apagou.

A Escrivã-mor desfaleceu de desgosto ao ver a cidade desfeita, o papel junto e amassado e retorcido com corpos de osso-carne-pele, com palavras ainda a escorrer e pintar o rio de lágrimas de anis.

Para aqueles que leem com atenção as entrelinhas, podem ver que ainda restam aqui e acolá, uma palavra ou outra que seguiu o rio e se espalhou para outros reinos de terra e poeira e pedra. Chegaram até o tempo em que a lua e o sol se separaram e não costumam mais aparecer juntos no manto azulado.

Algumas dessas palavras foram lembradas, contadas através do tempo que começou a ser contado. Honradas, foram colocadas em papéis novamente, mas não mais em paredes de chalés e troncos de árvores. Mas em alguns espécimes que começaram a chamar de livros.

Alguns deles, trazem versões antigas de tudo que já foi um dia, começam com era uma vez, mas nem sempre terminam com um e viveram felizes para sempre, porque sabem que lágrimas molhadas podem derreter papel e trazer tristeza.

Seja através de um sapatinho enfeitiçado, uma fada madrinha, um troll maligno, uma criança esfomeada. Até mesmo uma madrasta má e um pai também malvado. Uma garota sonhadora, um gato falante e um segrego guardado por doze princesas. De tanto em tanto, as palavras ressoaram como se levadas pelo canto dos tsurus que tentaram fugir da correnteza. Certeza não há de quase nada, mas… quem sabe não foram eles que voaram dali e recontaram as palavras que outrora viram escritas no Reino das Histórias Maravilhosas?

Aleatoriedades
  • O exemplar lindo de Contos de Fadas em suas versões originais foi recebido em parceria com a Editora Wish. Pensei qual seria a melhor forma de resenha-lo e, por mais que tentasse, seria impossível falar de todos os contos e fazer jus a beleza e profundidade que é possível extrair de cada um. Foi incrível conhecer todos, dos mais populares aos raros, dos que já conhecia aos que já havia assistido alguma versão, a maior parte, em adaptações da Disney.
  • Alguns contos ganham destaque, tanto pela perplexidade que causam ao leitor contemporâneo, tanto pela sutileza ou rudeza dos acontecimentos. É incrível poder avaliar as origens de cada uma dessas histórias, frutos da oralidade e que queriam passar ensinamentos – atualmente bem contestáveis – às crianças. As reflexões vão desde as relações entre familiares – com pais e mães abandonando crianças para morrerem na floresta, à um pai que deseja desposar a própria filha -, interesses amorosos que de amor nada têm, até mesmo num reconhecimento de superioridade de homens sobre mulheres e de ricos sobre pobres – nada que não vejamos eco até nos dias atuais. A influência religiosa também salpica quase todos os contos, deixando vincos profundos que ditam a moral e ia bons costumes de cada época.

  • Escolher apenas um conto como favorito seria injusto, cada um trouxe de si algo novo, surpreendente, chocante e revelador. Mas gosto de dar destaque a Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa; A Rainha da Neve; Cinderella; Barba Azul; As Doze Princesas Dançarinas; O Bravo Soldado de Chumbo; Pele de Asno; Hua Mulan (uma canção original da dinastia Wei – China); Filhos de Lir e Baba Yaga e Vasilissa, A Bela.
  • O livro tem uma edição super especial, em capa dura, com folha de guarda e páginas decoradas, e os 38 contos são divididos em duas partes: contos populares e contos raros (tem um post no blog falando mais sobre essa coleção de contos de fadas da Editora Wish, é só clicar aqui para conhecer).

  • Os contos populares são: A Pequena Sereia; Aladdin e a Lâmpada Maravilhosa; A Bela e a Fera; Branca de Neve; A Bela Adormecida; A Rainha da Neve; Rapunzel; Chapeuzinho Vermelho; Cinderela; Polegarzinha; Os Três Porquinhos; João e Maria; Barba Azul; Rumpelstiltskin; O Gato de Botas; O Príncipe Sapo; A Princesa e a Ervilha; João e o Pé de Feijão; As Doze Princesas Dançarinas; O Bravo Soldado de Chumbo; O Alfaiate Valente; As Roupas Novas do Imperador.
  • Os contos raros são: Sol, Lua e Talia; O Pequeno Polegar; A Pequena Vendedora de Fósforos; Pele de Asno; Hua Mulan; O Semideus Maui; Sapatinhos Vermelhos; Irmãozinho e Irmãzinha; Filhos de Lir; O Flautista de Hamelin; Os Cisnes Selvagens; Chicken Little; A História dos Três Ursos; As Três Irmãs; Baba Yaga e Vasilissa, A Bela; O Rouxinol e o Imperador da China.

  • As fotos dessa vez foram verdadeiro desafio. Sempre tenho dificuldades em fotografar capas e coisas em tom vermelho, tanto pelas combinações, tanto quanto pra que a foto do celular não fique muito saturada. Fiz vários testes para esse livro, alguns cliques dessa sessão com outras das minhas bonecas Pullips não deram certo, então acabaram não vindo para cá. Mas, tem fotos do post no Instagram diferentes das que vieram para esse post. São quase duas sessões para um só livro/resenha. Pra ver o post do IG é só seguir o @retipatia.
  • Para quem gosta de contos de fadas, de embrenhar por esse mundo e redescobrir histórias das mais antigas e que foram transformadas pelo tempo e pelos valores e conceitos contemporâneos, vale muito conferir essa edição belíssima. Aliás, o livro também conta com um prefácio da Ana Maria Merege, A História por Trás dos Contos de Fadas, que trata exatamente da transformação dos contos ao longo do tempo e a importância de se conhecer suas origens. uma leitura mais que recomendada! Apaixonante e do tipo que vale muitas releituras!

Contos de Fadas em suas versões originais está disponível na Loja Virtual da Editora Wish

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Retipatia

7 Comments

  1. Ale Helga says:

    Não tenho coragem de ler…
    Adoro “era uma vez”
    Beijinhos

  2. Que edição belíssima! E por dentro então? Fiquei fascinada em cada foto.
    Eu amo contos de fadas e acho tão curioso e uma leitura tão instigante saber de suas origens, pois creio que as transformações ao longo do tempo foram muitas.
    Amei e já quero!

    bjs

    1. Oi Fê!
      Ah essa edição está um sonho mesmo! E sim, as transformações foram muitas e vários contos me deixaram boquiaberta! Vale muito a pena conhecer!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  3. Oi, Rê! Como vai? Que super presente esse da Editora Wish, não?? Eu sim, aceito adentrar nesta porta para o mistério! Me encanto profundamente por esses clássicos e sei que o tema chega a ser polêmico nos dias de hoje.
    Amei a edição, que está maravilhosa e quero muito! Dá vontade de abraçar e não largar (faço isso com meus livros e me tiram de doida! Rsrsr) As imagens que nos apresentou me deixaram ainda mais ansiosa por ter esse livro em mãos! Parabéns pelo belo trabalho! Admiro muito!
    Bjs

  4. Oi, Rê! Como vai? Que super presente esse da Editora Wish, não?? Eu sim, aceito adentrar nesta porta para o mistério! Me encanto profundamente por esses clássicos e sei que o tema chega a ser polêmico nos dias de hoje.
    Amei a edição, que está maravilhosa e quero muito! Dá vontade de abraçar e não largar (faço isso com meus livros e me tiram de doida! Rsrsr) As imagens que nos apresentou me deixaram ainda mais ansiosa por ter esse livro em mãos! Parabéns pelo belo trabalho! Admiro muito!
    Bjs

    1. Oi Ana Cláudia, tudo bem e contigo?
      Ah essa Editora arrasa mesmo! O tema é realmente muito debatido e acho mesmo que merece muita atenção! Fora essa edição que dá até brilho nos olhos de ver! ehehe Feliz que tenha gostado das fotos também! <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  5. […] também é um autor nórdico (o conto original da pequena sereia está disponível no livro Contos de Fadas em suas versões originais também da Editora […]

Repense, renove, rediscuta...