Resenhas

Um Conto do Mundo Invertido

Mundo Invertido: Suspense dos Anos 80
Organização Stefano Sant’anna e Bruno Godoi
Editora Wish
“Se as luzes piscarem, não repreenda. Pode ser apenas um desesperado tentando se comunicar. Se as luzes se apagarem, esqueça este livro e corra.”

Sinopse

Outros mundos existem e eles estão cheios de monstros…

Já imaginou se o mundo seu fosse apenas o reflexo sombrio de outros? O Mundo Invertido é uma dimensão paralela por onde caminha o Senhor dos Mundos, uma entidade que busca apenas uma coisa: causar medo. Ele atravessa as dimensões com seus tentáculos que abraçam tudo o que tocam. É um olho pulsante que está cansado de viver só, e por isso, Ele chegou, abrindo portas entre os multiversos, disseminando o terror.O Senhor dos Mundos está aqui.

Mundo Invertido
Texto não recomendado para menores de 18 anos.

Feche os olhos. Talvez assim a criatura que espreita da sombra projetada pelos galhos do lado de fora da janela não seja capaz de lhe colocar medo. Ou, talvez, se você não a ver, ela também não será capaz de enxergar-lhe. Mas a verdade é que, mesmo seguro atrás de suas pálpebras, a criatura é capaz de qualquer coisa. O olho gigante envolto em tentáculos como se fossem veias aguarda o momento certo. A hora em que seu suspiro indicará o medo, que sua respiração irá falhar e você estará prestes a sucumbir. É inútil tentar gritar quando sua voz já foi abafada dentro de si como última brasa ao apagar da lareira.

Você pode não ver, mas percebe os tentáculos subindo por sua cama, deslizando feito serpentes que estão prestes a dar o bote. Se encolhe, recolhe as pernas para junto do corpo, a mera ideia da textura fria e pegajosa da criatura é suficiente para fazer a pele arrepiar.

A razão já lhe deixou há muito, quando tentou indagar o que, afinal, poderia um olho fazer além de olhar? Não há boca para devorar ou garras afiadas para perfurar. Ah, mas há os tentáculos! Estes que sobem agora por seus braços e acariciam a pele como se fosse ferro em brasa. Deveriam ser frios… Mas queimam e o odor de pele queimada é tudo que sente, deveria sentir a dor, mas ela já se tornou uma constante que deixa apenas as lágrimas escaparem pelos olhos.

Poderia acordar agora, se ver na cama com os raios do luar a brincar com as sombras da árvore que insiste em projetar-se pela janela. Mas não acorda. Não é sonho, é a certeza disso que faz a boca escancarar desejando que a fagulha de voz reacenda e seja capaz de clamar por ajuda. Ou piedade. Ou apenas que acabe logo.

Ao menos, seu último desejo fora atendido, um tentáculo invade a boca, sufoca, o ar não tem espaço, e é espaço que o tentáculo busca ao seguir mais e mais fundo, até os espasmos cederem, até não haver mais nada se movendo.

Acorda, mas não desperta, o corpo jaz intacto na cama, mas não há ninguém do lado de dentro, foi levado pelos tentáculos ardentes e gosmentos… para o mundo invertido.

Mas isso não significa o fim…

O barulho do livro sendo aberto bem ao seu lado parece soar como agulhas caindo no chão. Ainda que não haja certeza de onde se está, sua mente vagueia até o objeto que parece ser a única coisa existente além de você… se é que existir pode ser usado para te descrever.

As letras parecem recém escritas nas páginas, mas estão secas quando as toca com a ponta dos dedos. A palavra estranho soa em sua mente, mas, ao mesmo tempo, não se aplica. O que é exatamente estranho? As palavras são reconhecidas e, enquanto os olhos correm pelas palavras, a história se desbrava ao seu redor. Um provável fim do mundo à sua volta numa apertada cabana em que os monstros espreitam do lado de fora. A única certeza é a de que está prestes a morrer. Ou está prestes a acontecer, seja lá o que de mais horrendo possa ser feito à sua mente presa ao corpo na cama que não reage e que está, ao mesmo tempo, sentado e bêbado na cabana.

Você não recordo o motivo, mas sabe que estão forçando a porta. O grito vem quando garras languidas estraçalham a madeira e é como se a porta fosse sua carne a rasgar e sangrar… até o pânico lhe fechar os olhos. Estão novamente apenas você e o livro. As páginas passam para a próxima história e, algo na aparência avermelhada do livro não lhe inspira que será coisa boa.

Vê uma amarelinha no chão, algo que leva você à pensar na infância, mas não consegue materializar lembrança alguma e logo ouve o chiado da tevê, ainda que não se lembrasse de ter visto alguma por aqui. O chiado aumenta e você se dirige até ela como se fosse mosca indo atrás de luz. O ruído toma conta de seus ouvidos e, ao tocar na tela de chuviscos, eles sobem por suas mãos, corroendo cada pedaço de pele, a voz fica engasgada e tudo que sai da boca é interferência que sufoca….

O livro aberto novamente.

As folhas secam resvalam sob os pés, o craquelar parece quebrar uma costela sua a cada vez que o som refestela no vazio. Um som distante ressoa nos ouvidos e parece com algo desconhecidamente conhecido… os pés pisam na pedra, fria como gelo que logo é colocada na palma da mão. Inofensiva, você tem certeza que a palavra é ótima para descrevê-la, mas, ao mesmo tempo, não sabe a razão, olha através do buraco no meio, mas não é sua mão que está ali, é a pura escuridão que se adensa e escapa, escorre pela palma da mão e te engole… é difícil saber quando seu corpo inteiro se contorce e expande infinitamente causando uma dor que jamais seria capaz de descrever…

E mais páginas do livro seguem adiante.

Chamam um nome. Seria o seu? A voz aparece quando quer e diz coisas insípidas. Isso é uma cadeira. Sei o que é uma cadeira. Sei o que é uma torre. Um relógio. Uma ponte. Um gato. Um computador. Uma pessoa. Uma biblioteca. A raiva. A dor. O amor. Sei o que é o amor. Agora, ainda no vazio, é sua chance de sair do ciclo, da dor. Vem, aqui tem espaço para nós dois, você diz. Ele vem, mas não é o único, o olho espreita e você se lembra do tentáculo adentrar a boca, o gosto sujo e metálico que surge. Angela? Seria você ou a voz que tem esse nome? Angela? Seu corpo estilhaça como se fosse feito de vidro e a dor é tão intensa quanto rápida e, ao abrir os olhos…

… o livro segue por mais algumas páginas manchadas…

Um desejo. Você não sabe ao certo de quê. Algo que deixou para trás, talvez. Algo que já foi um dia. Se te dissessem que era só desejar e teria, o que você faria? A água do fundo do poço exala um odor acre, mas você sabe que precisa pular, é o que precisa para ter o desejo. O que vai desejar? Não importa. O importante é o desejo. Prende o fôlego e pula. A água líquida parece infestada de agulhas congeladas, e por mais que suba, que tente emergir, o desejo te chama lá no fundo. O desejo chama e chama, agarra-lhe os pés, é pesado como se tivesse o peso de uma âncora e a luz vai deixando tudo enquanto a garganta queima pela água que entra e os pulmões doem pela água que não para de pesar…

Um suspiro de ar, as folhas do livro seguem a frente, as letras negras ilegíveis transbordam e parecem dançar no som estranho que toca do som. Há quanto tempo não via uma K7? Já vira alguma, você tem certeza, ainda que tenha sido em algum seriado estranho. Mas a memória vem assim certa e, se para para pensar nela, esvanece junto do som angustiante, efusivo, acelerado e lento que não cessa. Você se senta a frente e ouve, quando acaba, ouve novamente, é invencível, onde está aquele ser ridículo de tentáculos? Ah, você vai dar uma boa lição nele e vai ser agora, ou assim que a fita tocar mais uma vez e mais uma vez e mais uma vez… a fita começa a mascar e logo o som para de tocar, o desespero toma conta de você junto à uma dor lancinaste em suas entranhas, precisa ouvir, se não ouvir não terá o desejo, ele não vai te achar e não vai conseguir atravessar a amarelinha. Não! Você grita quando ao puxar a fita, ela desenrola, você puxa-puxa-puxa e, quando mais puxa, mais suas entranhas doem… já são elas espalhadas em suas mãos das quais pingam líquido escarlate que mancha as páginas do livro.

As páginas passam sozinhas com o já conhecido farfalhar…

Um tic tac soa insistente. Não parece de relógio, você sabe, ainda que seja difícil imaginar com exatidão o dispositivo. Seus pés te levam na direção do som, o que seria? A curiosidade obscurece a ideia de que o perigo ronda cada canto do vazio ao redor e logo a figura de uma criança sentada, mirrada e esquálida surge. Não, não uma criança, uma boneca. Sorridente com os lábios pintados na louça branca e rachada. O que tem de assustador nisso?, você se pergunta, mas não saber o porquê, causa um incômodo. Corra! A palavra soa no ouvido, parece sua própria voz gravada em gravador, e quando vira, não há boneca, não há nada, só a dor excruciante em seu tornozelo. O líquido rubro desce quente e, quando a outra perna é acertada, não há força para permanecer de pé. O tic tac soa novamente, os pés de louça com um sapatinho quebrado se aproximam do seu rosto. Deveria ter corrido quando teve a chance! Um baque surdo, a cabeça parece partir em duas e…

… as páginas do livro seguem sussurrando enquanto passam até a próxima história….

Sede. Talvez seja uma concepção básica, um desejo, necessidade tão intrínseca que se é capaz de reconhecer. Um copo. Seria uma miragem? Você deixa que os instintos surjam, que guiem. Agarra o copo com as mãos trêmulas e começa a beber. E bebe até alcançar o fundo do copo, que está cheio novamente. Precisa ser bebido, a sede saciada, o copo esvaziado. E a sede saciada e o copo vazio. Mas o copo não esvazia e a sede não cessa e o corpo se enche das pontas dos dedos dos pés à raiz dos fios de cabelo. Água que enche tudo e transborda e escorre pelos poros e pelo nariz e ouvidos e olhos. E só tem espaço pra água e pra mais nada, o ar não passa, só água. É água e mais água caindo feito cachoeira até molhar as bordas do livro, que passa com folhas úmidas e pesadas…

Ei, acorda! Os olhos não vêem ninguém, só sente o gosto de sal na boca, forte, quase fazendo engasgar. Muito sal, está em todo canto e no chão, como se fosse areia de praia. Mas não tem praia, ouve só os gritos te mandando voltar. Voltar para onde? Você não se lembra de ter vindo de outro lugar que não o aqui e o agora. Não importa. Você volta, mas volta em direção à luz colorida e avermelhada que surge como ondas do mar. Ela suga o ar e começa a levar o sal-areia. Quer levar suas roupas e você tenta fincar os pés e mãos na areia que acaba escoando e, pela primeira vez seu grito sai alto, com mais gosto de sal e você desliza como se fosse água à correr na areia até que as cores tomam conta e só resta sal pra onde quer que olhe.

As páginas passam crespas, temperadas com tanto sal…

O som da vitrola te faz abrir os olhos, sabe que já ouviu a melodia antes, talvez enquanto caminhava pela ponte voltando para casa. Ainda que a ideia de onde fica qualquer uma dessas coisas seja difícil de compreender, você sabe, isso já passou por seus ouvidos. As risadas, essas não fazem parte da melodia, mas te chamam, pelo nome, o que você acredita que é seu, ou que alguém lhe presenteou desde sempre. Seja como for, a sombra está ao lado da vitrola, parece balançar conforme a melodia. E de perto você vê, usa seus pijamas, pés descalços e seu cabelo. Como poderia ser? É um espelho? Está sendo filmado? Contorna o corpo alheio e vê diante de si. O corpo sorri e se abre: estava a sua espera, você ouve sua voz sair da boca do seu outro eu. Mas o corpo não cessa de abrir e cada passo seu em retrocesso, faz adiantar dois para perto do corpo. E adianta e adianta e a sombra que era sua te toma… cada pedaço virando sombra enquanto…

… as páginas rangem pelo farfalhar de seguirem adiante…

Direto em sua cabeça, mas a dor é momentânea. De onde surgiu a maçã se torna um evento muito mais importante em questão de segundos. E então o pomar, com terra cheia de calombos abaixo de si. Ela treme e você segura mais firme o fruto. E treme mais e você tenta se levantar, mas a terra já abriu espaço para seu corpo e tudo que lhe vem à mente é o óbvio, deveria comer logo a maçã para libertar uma das mãos. Uma mordida e o suco doce escorre pelos lábios, mas logo o sabor se mistura ao gosto de terra e familiar gosto metálico de sangue, já não está mais caindo, mas é impossível parar de devorar o que está à frente, ainda que já não reste sequer um caroço do fruto e que a dor a cada mordida, faça o corpo inteiro tremer…

O retinir das páginas obscurecidas parecem sussurrar vamos, pule! A ideia não parece muito encantadora olhando de cima da ponte. Há sombras ao redor, mas é difícil ter certeza se estão prestes a despencar também. Há água por todos os lados, embaixo, distante da ponte. E o ambiente se desfaz a medida que a vista aumenta o alcance. Vamos, pule! Você não quer pular, tem certeza disso. Ou não, talvez ceder ao desejo ponha um fim em tudo isso. Mas, em tudo o que, exatamente? É difícil saber o que ocorreu há três minutos atrás. A única urgência que cresce no peito é a de deixar os pés escorregarem, o corpo ganhar velocidade e, em um segundo, o grito toma conta, porque já pulou, não decidiu, apenas fez e a água está a meros milímetros de tocar seus pés…

Pingam gotas de água quando são viradas as páginas…

O latido te traz à tona. Você vê o animal cavando, e, sem saber a razão, espera que ele encontre uma maçã. Ele late e, de algum jeito, você entende. Entende que precisa fazer o mesmo. E cava, as mãos na terra, as unhas quebradas, o latejar dos dedos, a carne sangrando. E cava mais. Até encontrar pele e carne. Frias pela terra dura. E cava com mais ardor. Quando reconhece a própria face, paralisa. Você se tranca do lado de dentro da cabeça. Adormece mais uma vez como acredita que já fez em algum momento. E restam dois corpos lá, o envolto em terra e o de mãos esfoladas…

As páginas já não passam no mesmo ritmo, tem sangue demais grudando-se à elas…

Um telão passa um romance água com açúcar, há risos e suspiros, mas você não vê plateia. Sorri, se senta e assiste. Vê as cenas com a certeza de já as ter visto antes. Revisita tudo e, de uma vez, soam aplausos e todos olham para alguém. Agora estão todos visíveis… apontam para você, e por mais que tente dizer algo, não parecem ouvir. Uma arma é apontada. Um tiro é disparado. A bala atravessa seu corpo, que já cai de joelhos, enquanto um outro, atrás de si, tem o mesmo destino. Gritos e gritos e gritos, apenas as vozes agora, ninguém mais é visto e tudo gira ao redor…

Uma brisa abafada faz as páginas virarem…

Um pinga pinga ressoa n’água. É o suficiente para te despertar. Levanta e senta na beirada da lagoa que parece estar dentro de uma caverna. O que mais estaria dentro do lago? Você se senta na beirada e molha os pés, a água é fresca e tranquila e o riso que brota da sua boca ecoa por todo o lugar. Não tem porque temer, diz o velho ao seu lado. Não se sabe de onde ele veio, mas, se é seguro, é seguro. Se joga de corpo inteiro, sente o corpo leve e afunda. Parece mais claro lá embaixo do que na superfície. E emerge e tudo parece igual e diferente. O corpo mais leve, ágil, menor. Você sai da água, não deve ter mais que oito anos agora e, quando olha para trás, se vê mergulhando na água, para então sair de novo. E então mergulhar e então sair de novo, para então mergulhar… A mente já não processa as imagens quando as páginas do livro passam adiante…

Você precisa acordar! A ideia está fixa numa parte da cabeça, martelando e pingando. A placa indica que é um ponto de ônibus, então, seria impossível você esperar aqui se estivesse dormindo. Ou é o máximo de lógica que lhe é permitida. Espera e espera e espera. O veículo vem, mas não tem condutor, segue pelas ruas feitas de nada com bancos de couro carcomido e um sacolejar nauseante. Mas a pista feita de nada acaba e, de uma vez, a queda livre começa, seu corpo é arremessado pelos vidros da frente, cada centímetro mais perto do chão, com o monstro de metal vindo logo atrás. Esse parece sólido como uma rocha. O baque surdo do choque com o chão nem se compara ao som o esmagamento quando metal toca pele e prensa cada pedaço…

As páginas passam adiante de maneira robótica…

Tem alguém aí? A voz parece um zumbido distante e você não tem certeza de onde vem. Seria mais alguém perdido no vazio? Olá?, você pergunta. Sua própria voz parecendo estranha e familiar ao mesmo tempo. Tem alguém aí?, você repete. Olá?, soa do outro lado do pequeno aparelho de rádio que parece ter brotado logo aos seus pés. Meu nome é ***, quem está aí?, você escuta, mas a interferência impede a clareza no nome. Pode repetir?, você pede. Pode repetir?, soa do outro lado. Meu nome é ***, quem está aí?, você indaga e estranha o barulho alto que surge do aparelho bem quando fala seu nome. Quem está aí?, você insiste e, no mesmo tom, a voz semi eletrônica diz Quem está aí? O tremor em seu corpo é real, tão real quanto qualquer coisa nesse vazio, você checa, mas não há mais ninguém por perto. Talvez seja apenas uma peça que queiram pregar. Mas, quem exatamente? Ninguém vem à cabeça, outras pessoas realmente existem? Sou eu quem está aí?, você finalmente pergunta para o aparelho. Sim, sou eu, e quem está aí? Você repete eu seguidas vezes e o aparelho ecoa em suas mãos, tenta destroçá-lo, mas nada adianta, ele sempre está de volta a sua mão, intacto e falante… até que sua mente não suporta, cada fragmento dela se quebra e resta apenas o rádio dizendo que é você…

Mais páginas passam, e, mesmo depois de ver acontecer tantas vezes antes, parece sempre a primeira vez.

As risadas, são exatamente o tipo que você descreveria como celestiais, ainda que celestial seja uma palavra a qual você não tenha certeza do significado. A fonte, são duas garotas brincando na gangorra perto de uma alta árvore. O que faz seu sorriso sumir é a criatura que as espreita. Já a viu antes e uma estranha sensação de tentáculos lhe queimando a pele reverbera, fazendo bile chegar à boca. As garotas ainda brincam, sorriem e não veem o perigo mortal que se aproxima. Num rompante você corre até elas, mas estão mais distantes do que você imaginava e quando se aproxima, já estão gritando e pedindo socorro, a carne queimando pelos tentáculos que as agarram com mais e mais firmeza. Você tenta soltá-las e acaba se queimando e uma delas, pede que pare, que as deixe em paz. Mas logo percebe que as palavras são dirigidas à você, que seus tentáculos as espremem e queimam e antes de consiga fazer qualquer coisa, os corpos jazem inertes.

As páginas do livro passam rastejando, seja como for, parece que não restam tantas assim mais.

É quase como se sussurros tivessem formas e fossem capazes de atravessar-lhe o corpo. É assim quando você abre os olhos, a sensação que lhe despertou, apesar de não se recordar de estar dormindo. Não há som, barulho ou coisa alguma. Até que o sussurro corpóreo passa por você novamente e, num instante está logo diante de você. Parece já ter visto isso antes, mas não sabe exatamente. Ergue a mão para tocar a sombra, mas os dedos a atravessam. Seria estranho o suficiente se a sombra não tivesse repetido seu exato movimento. Ou qualquer coisa próximo a isso. Você tenta mais algumas vezes e tudo é refletido no sussurro. Você anda e, inesperadamente, ele permanece estático. Você e ele ocupam o mesmo espaço agora até, tudo fundir dentro de seu corpo, até ele tomar sua forma e mais braços e pernas brotarem-lhe, até que tudo não passam de tentáculos que queimam seu próprio corpo em agonia até não restar nada além de cinzas…

As folhas se desfazem em cinzas enquanto seguem adiante…

Você tem certeza que é uma nave, tantos botões e quinquilharias. Não há certeza de como chegou aqui, mas sabe que é um resgate. Aquele planeta arroxeado que se aproxima, é dele que vem o pedido de socorro. Estou chegando, seja lá quem for!, sua mente martela. O pouso é suave e perto das coordenadas do sinal. Você caminha sentindo o abafado que o traje especial cria sob os três sóis avermelhados que dão um tom acobreado à paisagem. Não demora a avistar o corpo, com trajes no estilo dos seus. Você força as pernas a correr e logo puxa a pessoa para seus braços. É você. É você. Sou eu. Com uma aparência cadavérica, abatida, tudo que faz é levantar a mão até o seu capacete e tentar dizer alguma coisa. Não adiante, em um segundo, o corpo esfarela como se fosse feito e areia e não resta nada em suas mãos. O calor aumenta, seu corpo já não consegue se mover e logo você está deitado, tentando implorar por uma ajuda qualquer. Tudo que consegue fazer é levantar sua mão até o capacete da sua versão que chega para lhe socorrer. Um instante e você já virou areia…

As folhas esfarelam em pequenos grãos enquanto seguem adiante…

Tudo parece calmo e, a lembrança de que o som não se propaga no vácuo te faz imaginar como seria o barulho das estrelas que tem a seus pés, como seria o som da luz e das cores que passavam por seu corpo nu. Mas isso não te interessa realmente, tanta beleza e infinidade não são nada comparado ao medo que lhe toma. O que você poderia fazer? Sentia uma falta tão grande que logo se transformava em medo. Puro medo, de fazer o couro cabeludo arrepiar e o corpo inteiro tremer. O medo vem da ausência, mas da falta de quê? Você sabe que precisa se lembrar. E o planeta surge em seu campo de visão e é azul com manchas escuras. Sabe que é algum lugar importante e logo você se vê na cama, apagando o abajur para ir dormir. Sim… é falta disso, do lugar, do sono, da vida. Tem um preço a pagar… A voz soa em sua mente e você sabe que é real. Preço? Qualquer coisa para ter a vida, esse exílio pode ser deslumbrante, mas é vazio. Vazio de vida. Pago qualquer preço, você responde.

E então um redemoinha lhe toma o corpo, que é arremessado e logo se vê diante da janela. A mesma que a lua gosta de jogar sombras brincando com os galhos das árvores. Qualquer preço vale a pena. É quando olha para sua cama que percebe o equívoco. Uma figura encolhida tenta não olhar para você, de medo, de pavor. e, quanto mais você se aproxima para observar, mais os tentáculos se aproximam do seu eu-da-cama. É impossível parar, e você diz não tenha medo, sou eu, sou eu!, mas tudo que faz é queimar e queimar…

Aleatoriedades
  • A ideia original era fazer uma resenha da antologia, mas comecei a escrever, me empolguei e eis o resultado. Um (longo) conto com referências à cada um dos contos que compõem Mundo Invertido.
  • Mundo Invertido foi lido em parceria com a Editora Wish e aproveito para agradecer pela parceria, oportunidade e confiança!
  • Quando recebi esse livro da Editora, a empolgação para a leitura já era grande. Algo que envolve o universo de Stranger Things e de uma época que, apesar de eu não ter vivido, fazer parte das influências que tenho, só poderia me fazer muito querer ler. No processo de pensar as fotografias para esse livro, vieram muitas ideias, mas uma era a que eu precisava, ao menos, tentar executar. Sob fortes ameaças de “se descascar a pintura da parede você vai pagar para pintar a casa toda“, eis que fiquei feliz com minha parede à lá Stranger Things e, no fim das contas, deu muita dó tirar tudo da parede (não estragou nada, aliás… ufa!).
  • A leitura foi feita em conjunto com minhas chuchus Má do Resenhando por Marina e Kaka dO Reino das Páginas (só clicar nos blogs para conferir as resenhas delas!).

Que a Força esteja com vocês!

Ouvindo: Alice – Avirl Lavigne (only in my mind…)

20 Comments

  1. Eu já escuto a trilha sonora de Stranger Things com esse post. Amei demais as fotos, e essa parede me deixou com saudade da minha antiga parede de letras e luzes hehe. Fiquei imensamente curiosa para ler a antologia graças ao seu conto. Que ideia criativa de resenha, Rê! Parece ser uma leitura fascinante para ter lhe rendido tanta inspiração <3

  2. Que resenha maravilhosa! Fiquei com vontade de ler esse livro pra ontem. Como você mesma disse na parte das aleatoriedades, qualquer coisa que remeta a Stranger Things e aos anos 80 já desperta meu interesse logo de cara. E acho que essa foi a resenha mais criativa que eu já vi, ficou incrível a referência a vários contos dentro de um conto. Muito bom mesmo. E muito amor pela parede e pelas fotos!

  3. Oi, Rê! Tudo bom?

    Lá pelo meio do conto, percebi qual tinha sido sua ideia genial para apresentar esse livro. Deve ter sido uma leitura inesquecível para te marcar tanto e te inspirar a escrever algo que me causou tanto terror. Eu tive mesmo que parar em alguns momentos, tomar uns golinhos de café, pra quebrar a tensão que ia se formando. Adoro ler o que você escreve!

    Literalize

  4. Acredito que essa tenha sido uma das resenhas mais criativas que já li, achei simplesmente fantástica sua ideia de criar um conto a partir dos contos que leu da obra em questão. Confesso que fiquei curiosa pela antologia, a leitura deve ser empolgante. Tenho especial atração por tudo que se refere aos anos 80, uma época incrível!

  5. Uau!!! Este post ficou demais!! Maravilhoso e tiro o chapéu. Vc escreve muito bem!
    Já tinha visto essa antologia e fiquei curiosa, agora estou mais ansiosa ainda.
    Parabéns pelos contos e por toda criatividade, ficou uma resenha bem diferente mesmo. As fotos ficaram um show a parte.

    bjs

  6. Nossa,que livro!!! Desejo lê-lo o mais rápido possível, pois minha curiosidade está bem aguçada depois de tudo o que escreveu em sua resenha. Parabéns!!!

  7. Amiga, se a ideia era nos surpreender, parabéns… Você conseguiu!!!!
    Eu comecei e não queria mais parar! Eu adorei a sua proposta de leitura e de escrita! Fiquei bem interessada na história, que aliás já havia conhecido em outros posts.
    Adoro essas surpresas que cada livro nos traz na hora de escrever! Me dá até um certo medinho de estranhamento, às vezes, pela possibilidade do novo, mas geralmente flui! O que é ótimo, né?!
    Ah, e parabéns mais uma vez pela criatividade nas artes de apresentação dos posts! Amando de verdade!
    Beijos!

  8. Surpreendendo sempre!!!
    Adorei a resenha da forma que você fez e tudo que remete aos anos 80 (que eu vivi nele e foi dos anos mais bregas, mas o mais legal de todos) não tem como não gostar, não ser legal. Stranger Things, esta ai pra não deixar dúvidas rs…e adorei a parede e a sua meia é um charme…rs
    Beijos

  9. Samara Silva says:

    Amei essa sua postagem, sempre estou visitando seu blog e lendo suas postagens.. Seu blog está salvo em meus favoritos..

    Parabéns!

    Amo seu blog ❤️..

    Meu Blog: Resultado Ouro Branco da Sorte

  10. Li e reli um sem fim de vezes… fui e voltei de tantas realidades que se conectavam a tantas pessoas e todas eram eu mesma. Observei as fotografias e acabei por ir a prateleira. Voltei de lá com o livro de Paul Auster… lido e re-lido algumas vezes. Sentei aqui e fiquei a apreciar o cenário com suas muitas possibilidades. Tantas pessoas passam pela lente dos meus olhos, tantos sons. Há promessa de chuva e o sol se esforça para ultrapassar as nuvens. Às vezes, consegue e eu volto a leitura. Já não sei onde estou. Volto ao começo e o processo todo recomeça.
    Ah, gastei umas horas para ver o seriado que citou, mas eu dormi… rs
    bacio

  11. Ale Helga says:

    Olá! Visitar seu blog é a certeza que minha lista de desejados irá aumentar! Que resenha maravilhosa, mas, devo confessar que não sei se tenho coragem para ler esse livro…
    Abraços

    1. Oi Ale!
      Ah feliz em saber disso! É uma leitura cheia de suspense, mas não preocupa que não é carregada de terror! 😉
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  12. Assim, eu só quero saber a data certa em que você irá lançar o seu livro porque sinceramente você escreve muitoooooooooo ❤ Lança um livro pelamordemim! As fotos ficaram bem babadeiras e quero essa parede pra mim ❤ maravilhosaaaaa ❤❤❤❤

    1. Oie!
      Ahh gente, assim eu fico toda boba! ahahaha Feliz que tenha gostado dessa história louca, surgiu dos contos do livro e, ao mesmo tempo, da minha loucura também… rsrsrs Feliz que gostou das fotos também, foi das que mais gostei fazer! <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  13. Fernanda Lima says:

    Adorei seu esse seu artigo, realmente é um dos melhores blog que estou visitando. Suas postagens são excelente! Parabéns!

    Já até salvei em meus favoritos. ❤️ ..

    Meu Blog: Loterias Estaduais

    1. Oi Fernanda!
      Ah feliz em saber!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  14. Leitura Enigmática says:

    Nossa, sua resenha m aguçou demais a minha curiosidade, confesso que estou com muito interesse de ler essa história na íntegra. Anotada a dica.

    1. Oi Gustavo!
      Ah que bom saber disso! Espero que curta a leitura! 🙂
      Obrigada pela visita!
      Abraços,

  15. Glaucie Mendes de Souza says:

    Amei a Resenha Rê, acho que tenho que assistir a Série Stranger Things. Fotos perfeitas e que bom que não descascou a parede. ❤️

    1. Oi Glaucie!
      Ah vale muito a pena assistir, especialmente se gostar da vibe anos 80! <3 Feliz que gostou das fotos!
      Obrigada pela visita!
      xoxo

Repense, renove, rediscuta...