A Cabeça na Cama ♥ Filipe Nassar Larêdo

Em 02.11.2018   Arquivado em Resenhas

Uma cabeça surge em uma cama. Sem mais, nem menos. Um mistério que vai corroer as entranhas de quem costumava dormir naquela cama, e do leitor…

A Cabeça na Cama

Autor Filipe Nassar Larêdo

Editora Empíreo

“Pois então, a partir de agora, dentro dos limites que a memória me permite, retrocedendo em alguns trechos, avançando em outros e, na medida do possível, remetendo à minha atual situação, passo a contar a história de quando uma cabeça surgiu em minha cama.”

Sobre o Autor

Em seu primeiro livro, Filipe Nassar Larêdo aproxima o realismo ao inverossímil e ao lado grotesco e cruel da condição humana. Com referências que vão desde as principais tragédias gregas, de Sófocles e Eurípedes, até Franz Kafka, Adolfo Bioy Casares e Jorge Luis Borges, A cabeça na cama é um romance com pitadas de nonsense e narrativa neofantástica.

Sinopse

Tomás é um homem ambicioso, que começa sua carreira como bancário e depois torna-se um bem-sucedido e rico gerente em uma empresa de investimentos financeiros. Trabalhando exaustivamente e sem muitos escrúpulos ou valores morais, não mede esforços para conseguir engordar seus ganhos. E o pouco tempo que tem com a família é recheado de contatos mecânicos e distantes.

Até que um dia, durante o início de uma viagem de férias, Tomás recebe o telefonema do pai, responsável pelo apartamento durante sua ausência, e escuta uma notícia inesperada: surgiu uma cabeça em sua cama. Atordoado, ele volta para casa e, dominado pelo acontecimento insólito, precisa desvendar os segredos que a cabeça esconde.

A Cabeça na Cama

Uma ligação e duas opções: ou o pai de Tomás voltou a beber ou, por mais impossível que possa parecer, uma cabeça acaba de surgir em sua cama.

“Era assim que eu me despedia do dia, com o desejo de passar mais tempo com minha família. Porém, a vida que levávamos aumentava a distância entre nós, cada um satisfazendo seus interesses imediatos.”

Em literalidade ao título, a trama se apega ao fato, aquele que não se sabe de onde veio, porque veio: há uma cabeça na cama de Tomás. O que poderia ser o ápice de uma trama tresloucada é, aqui, colocado em foco, dado de bandeja ao leitor. Resta a pergunta primordial, que vai bem além dos porquês e pra quês da cabeça: como a história se desenrola, afinal de contas, se o elemento surpresa está explícito em sua capa?

O segredo, como é possível imaginar, é a narrativa. Que prende e desembola a ação e não ação, de modo que se quer saber cada mínimo detalhe corriqueiro da vida do protagonista, que faz querer conhecer o passado, os segredos mais íntimos e qualquer outra coisa mais. Um detalhe pode fazer toda a diferença para descobrir os comos e porquês, afinal de contas.

“A falta de informação me deixava ansioso. Enquanto Elisa queria que eu me livrasse da cabeça o quanto antes, eu ansiava por conhecê-la. Desejava saber a quem pertencia, o que falava, de onde teria vindo. Será que eu a reconheceria? Seria de alguém próximo a mim? Por que me senti daquela forma, em transe?”

E é isso que o autor faz com a história, sintoniza o leitor: é este Tomás, esta é sua família, este é seu emprego, sua casa, suas posses, suas falhas, suas qualidades. É homem comum, engolido dia a dia pela máquina capitalista que só faz querer mais, que faz esquecer quem é, quem é quem e o que é o quê. O quê e quem é que importa, o quê e quem é que conta, por mais sem sentido que isso possa soar.

“A cabeça seria minha esfinge. Teria que decifrá-la para permanecer vivo.”

Com várias perdas ao longo da vida, que vão desde a crença em seu pai que se tornou um alcoólatra, à sua capacidade de ser feliz, até os seus princípios e sonhos, tudo fez de Tomás quem ele é hoje, moldou as relações que tem com seus pais, o deteriorado relacionamento com a esposa e o frágil apego dos filhos.

“E o descaso com que era tratado por aqueles que usufruíam dos meus suores só me fazia ter mais certeza de que a cabeça não surgira por acaso.”

Bem, esse é Tomás. Mas e a cabeça, talvez você pergunte? E confesso que foi das primeiras coisas que passei a indagar, ainda que, de um modo ou de outro, soubesse que essa, talvez, não fosse a pergunta correta.

“As horas corriam para mim e para a cabeça dentro do quarto. Como um pêndulo hipnótico, o tempo com a cabeça – que naqueles momentos serenos falava com lapsos um pouco maiores entre uma frase e outra, aparentemente dando cochilos esporádicos – apreendia toda a minha atenção.”

Voltemos a cabeça, é ela que dá título ao livro. Ou seria ela quem dá título ao livro? Seja como for, um detalhe é certo, ela pode não ter corpo ou pode ser tida, de todo modo, como viva. Só que não está morta. Fala, fala e fala. E repete e repete. E não faz diferença o quanto Tomás tente ouvir, sabe que seu prazo é curto, ainda que ninguém tenha dito isso, ele sabe, sente em seu âmago. E passamos a sentir também, agonia, asco, curiosidade e um misto de sensações.

Uma história inteligente, crítica e questionadora, que mantém a expectativa do leitor por todas as páginas, que te leva a conhecer todos os lados do personagem e, claro, bem mais da cabeça do que se espera. A Cabeça na Cama faz de cada detalhe, reflexão do mundo corroído de Tomás, da cabeça e de quem lê.

“Pode parecer loucura o que vou dizer agora, mas passei a entender o que ela dizia, mesmo sem decodificar suas palavras. Ela falava dentro de mim, dentro de minha essência, as respostas. Bastava que eu fixasse minha total atenção nela.”

Aleatoriedades…

  • O livro A Cabeça na Cama foi recebido em parceria com a Editora Empíreo, que agradeço pela confiança e oportunidade! Amei conhecer o trabalho deles e essa edição impecável, desde o trabalho da capa, à diagramação, texto, revisão, o tipo de papel escolhido… tudo um primor, feito pra uma ótima experiência de leitura.
  • As fotos dessa vez tiveram um tom minimalista, pensei muito em como queria fotografar esse livro e, claro, a ideia de uma cabeça na cama, em tom literal, seria um pouco complicada de executar… rsrsrs De toda forma, a ideia foi aplicada, se a mensagem foi transmitida com sucesso, aí é outra história…
  • O livro pode ser adquirido diretamente na loja da Editora Empíreo ou na Amazon.

“A única e genuína preocupação que eu tinha era com a deterioração significativa pela qual a cabeça passava, diante de mim.”

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Ouvindo: Ray LaMontagne – Let It Be Me

  • Alexsandra Helga

    Em 02.11.2018

    Sabe aquele livro que a gente torce o nariz quando vê na livraria, sim torço o nariz para alguns, esse seria um desses…
    Após a leitura da resenha impossível não chegar mais perto…
    Parabéns pelas fotos e resenha…
    Abraços

  • Lunna

    Em 02.11.2018

    Buongiorno, cara mia

    Assim que comecei a ler-te, pensei em Hamlet, mas depois me afastei da trama shakespereana e conforme avancei na leitura e nas suas impressões, combinadas com as fotografias, pensei no próprio homem, sua história. A cabeça se tornou a do próprio homem. Claro que não li o livro, apenas imaginei (like always) o que é trama por trás do que leio.
    Engraçado, títulos nem sempre me interessam, quando escrevo, nunca me ocupo disso, deixo vir e sei que virão em algum momento. Geralmente escapam das leituras que faço. Comumente estão em poemas, a espreitar meu olhar. E nunca presto muita atenção ao que margeia uma trama. Já vi títulos que nada representavam a trama. Nesse caso, fiquei intrigada mais pelo que não diz. A cabeça na cama é muito direto, mas penso o quando não é feito para enganar. O quando diz e não diz da trama.

    Ok. parei.
    bacio


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