Sweeney Todd, o barbeiro de Fleet Street – Thomas Peckett Prest

Em 31.10.2018   Arquivado em Resenhas

Uma navalha afiada. O barbear mais rente de toda Londres. Um centavo por uma torta deliciosa da Lovett’s. E em que ponto tudo isso se relaciona? Dá para descobrir na leitura de…

Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco de Fleet Street

Thomas Peckett Prest

Editora Wish

“Havia ‘uma maldade velada em seu olhar’ que, quando despertada, seria capaz de realizar coisas sérias, e não conseguiria ser facilmente apaziguada.”

Sinopse

Famosa graças às adaptações para o teatro e para o cinema, a lenda do barbeiro demoníaco da Fleet Street chega pela primeira vez ao Brasil em seu enredo original. Publicado em 1846 sob o título “O Colar de Pérolas”, o livro conta a história da macabra parceria entre um barbeiro assassino, Sweeney Todd, e a fabricante de tortas mais famosa da cidade, a sra. Lovett, que desenvolveram juntos um modelo de negócio muito lucrativo e, ao mesmo tempo, muito perigoso.

No entanto, mistérios colocam em risco a sociedade aparentemente bem-sucedida: o desaparecimento de um forasteiro e seu colar de pérolas, a busca incansável de uma jovem apaixonada pelo seu amado e o terrível cheiro nas câmaras subterrâneas da Igreja de St. Dustan.

Sweeney Todd é um dos primeiros clássicos da escrita britânica de horror. Ele combina a história de assassinatos em série com um subenredo romântico envolvendo decepção, disfarce e investigação, tendo como pano de fundo as ruas escuras e desagradáveis de Londres.

Conheça Sweeney, a Srta. Lovett e Johanna mais de perto, exatamente como os vitorianos fizeram em 1846.

O Barbeiro Demoníaco de Fleet Street

Apenas a risada de Sweeney Todd já é capaz de dar calafrios aos ouvintes. O que a maior parte das pessoas não imagina é que o que deveria realmente ser temido é sua destreza com a navalha.

Talvez o nome do barbeiro demoníaco da Fleet Street já seja conhecido aqui no Brasil devido ao filme de 2007, do Tim Burton, que teve Johnny Deep no papel do Barbeiro, Helena Bonham Carter como Senhora Lovett e Alan Rickman como o Juiz Turpin. Mesmo para quem conhece a história do filme, o livro irá manter o frescor de uma torta recém-saída do forno da Senhora Lovett (não vou alongar sobre o filme porque rende torta pra um batalhão à parte).

“Algumas pessoas o consideravam um homem relaxado e inofensivo, sem muito juízo, e às vezes até o julgavam um pouco maluco; mas outras balançavam a cabeça, incrédulas, quando falavam dele. Ademais, não poderiam dizer nada de mau sobre ele, apenas que o consideravam esquisito e, levando em conta que é um crime e uma contravenção ser esquisito neste mundo, não nos surpreende ver que Sweeney Todd não era nem um pouco admirado.”

Isso porque a história que vemos no filme foi apenas inspirada nos personagens e elementos chaves da trama do livro, que é bem diferenciada e segue um ritmo crítico e com humor próprios de sua época.

A história de Sweeney Todd fora inicialmente lançada em partes, numa espécie de folhetim da época, que segue o estilo penny blood, predecessor das hoje conhecidas penny dreadfuls, pela característica de levar história sanguinolentas ao preço de uma penny (moeda da época) às massas.

“A massa tinha uma textura delicada, e era impregnada pelo aroma de um molho delicioso, impossível de descrever. E as pequenas porções de carne dentro delas eram tão macias, e a parte gorda e a parte magra eram misturadas de modo tão artístico, que comer uma das tortas da sra. Lovett só aumentava a vontade de comer outra…”

No livro conhecemos o barbeiro Sweeney Todd que tem uma clientela que, estranhamente, desaparece e costuma esquecer muitos pertences pessoais em sua loja. Ou pelo menos é essa a primeira impressão do seu novo ajudante, Tobias, que nutre um medo do barbeiro tal qual desconfia de que algo que acontece naquele estabelecimento, não é nem de longe, seguro.

“Havia se tornado parte da sua filosofia – costuma fazer parte da filosofia de velhos – pensar que aquelas sensações da mente que surgem de afetos decepcionados são as mais evanescentes; e elas, apesar de surgirem com violência, são como o pesar pelos mortos: passageiras, e quase não deixam vestígios quando desaparecem.”

De outro lado temos o desaparecimento do Sr. Thurnhill, que deveria levar uma mensagem a jovem senhorita Johanna, de seu amado Mark Ingestrie, que desapareceu nas águas tempestuosas e lhe enviou um caríssimo colar de pérolas  e que, ao que tudo indica, foi o objeto culpado pelo desaparecimento do portador de notícias.

“…sofremos muito mais pelo medo das coisas que nunca se tornam realidade do que pelas reais calamidades que nos acometem num baque.”

No meio de tudo isso, não podemos esquecer o centro das atenções da Fleet Street: a casa de tortas da senhora Lovett, um centavo cada uma. Delícias inigualáveis que levam multidões a se apertarem na fila do estabelecimento para garantir suas tortas de carne de vitela e de porco… que, é claro, em nada se relacionam com os desaparecimentos frequentes daqueles que adentram à barbearia de Sweeney Todd.

“…sou do tipo que sempre acredita que a certeza de qualquer tipo é preferível ao suspense…”

Com tantas histórias acontecendo ao mesmo tempo, com o odor fétido que começa a tomar conta da Igreja St. Dunstan, com o empenho do Coronel e das desconfianças paralelas do aprendiz do barbeiro, com as aventuranças que Joahnna se propõe a correr, é de se esperar que todos esses caminhos serão cruzados ao longo da trama, que desbrava o centro de Londres.

“É a grande maldição dos sentimentos mais elevados e nobres dos quais a humanidade é capaz. Sob circunstâncias favoráveis, eles proporcionam muita felicidade, mas quando algo adverso ocorre, eles se tornam as fontes mais abundantes de tristeza.”

A narrativa, que segue em terceira pessoa, dialoga e faz suposições a todo tempo com o leitor, deixando a leitura mais instigante e dando migalhas do que está por acontecer nos próximos desenrolares. Os capítulos, de modo geral, seguem intercalando os acontecimentos na vida de cada personagem.

“É preciso tolerar o que não se pode evitar. É um bom nome para dizer que é preciso sorrir e aguentar.”

E, falando em personagens, são todos deveras interessante, cada um descrito na medida da necessidade e caracterizado de modo a lhe entregar sua índole. Ainda assim, mesmo que a história rodeie a figura tresloucada e psicótica de Sweeney Todd, com uma Sra. Lovett não tanto participativa como cheguei a imaginar que seria (provável culpa do filme, admito), a que mais chamou a atenção fora a singela e perspicaz Johanna, que se mostrou digna de uma mocinha aventureira do século XIX, com qualidades que costumam parecer empecilhos paras as aventuras as quais se envolveu. Sem dúvidas, uma excelente personagem!

“A amizade verdadeira certamente se mostra no encontro da dificuldade e do desespero.”

A frieza do assassinato, o horror e o sangue se misturam à duras críticas colocadas à sociedade da época, num tom ora velado, ora escancarado de humor, que faz pensar em como a sociedade existente no século XIX se assemelha, em tantos aspectos, ao mundo que encontramos hoje em pleno século XXI.

“O amor vence todos os obstáculos. A garota mais fraca e mais ineficiente do mundo, se tiver dentro de si a consciência de que o amor nada teme, pode conseguir muitos feitos.”

Uma das críticas mais explícitas e louváveis do livro é a que mostra a realidade dos manicômios da época. Lugares em que as pessoas eram enviadas com o intuito de que desaparecessem (muitas sequer tinham transtornos mentais), sendo que, até que de fato isso ocorresse, passavam pelos tipos mais lastimáveis e degradantes de tortura, negligência e abusos pelos enfermeiros e médicos do local. Sem dúvidas, um ponto célebre da obra!

“Com um homem assim, questões comuns à moralidade não tinham importância, e ele sacrificaria de bom grado toda a raça humana se, com isso, pudesse alcançar algum de seus objetivos ambiciosos.”

Claro que, em termos de críticas, a maior das maiores está no próprio esquema dos assassinatos e das tortas, que são vendidas com carne humana (como claramente é explicitado na capa do livro e desde o começo da história, por isso não é spoiler, ok!) e, assim, fazem com que boa parte da população pratique um “canibalismo involuntário”, o que por si só já é capaz de fazer refletir sobre os costumes e organização da sociedade, em como uns se aproveitam dos outros, a relação entre as pessoas e a própria maldade humana.

“Homens mortos não contam histórias, mulheres e crianças mortas também não. Todos devem morrer, e depois da morte deles, haverá um incêndio enorme na Fleet Street. Ha! Ha! Ha!”

Sweeney Todd, o barbeiro demoníaco da Fleet Street é um thriller da era vitoriana inteligente e espirituoso, que escorre sangue de suas veias críticas pelas ruas de Londres e faz o leitor desejar deliciar-se com uma torta e logo após, seguir para se barbear ao melhor estilo Todd-Lovett!

Tortas e Navalhas

  • O livro em si é uma obra-prima da Editora Wish e foi publicado de maneira inédita no Brasil. Não apenas o trabalho incrível da capa, mas todo o conjunto: a diagramação, o trabalho com as informações prévias à obra, que falam desde as dúvidas acerca da autoria da história, tanto quanto sobre o filme Hollywoodiano, ao modo de publicação da época. Além disso, constam ilustrações incríveis que enriquecem a leitura e nas guardas do livro, um mapa incrível da Londres do século XIX. Os capítulos ainda contam, em seu começo, com ilustrações do corpo humano em partes, com anotações tais quais as que vemos em cortes de animais. Além disso, todo o texto segue acompanhado de notas de rodapé, que dão luz às referências da época ao leitor contemporâneo. E claro, vale dizer aquele obrigada mais uma vez à Editora Wish pela parceria e por esse livro maravilhoso!
  • Para fazer as fotos desse livro vieram mil e uma ideias, mas queria algo que não chamasse mais a atenção que o exemplar, no fim das contas. Acabei seguindo um estilo bem tradicional de flatlay e adicionei o elemento que não podia faltar: a torta! Ehehe Eu tive que suar pra encontrar uma torta assim pra comprar no dia de fotografar e, depois que acabei a sessão, minha mãe apareceu em casa com uma torta bem mais bonitinha que a que eu havia comprado… ahah Claro que fiz outros cliques só para usar a torta que ela trouxe… rsrsrs Por isso temos duas tortas distintas no post…
  • A arte do marcador e do cartão postal é da Juliana Fiorese, que amo e admiro o trabalho muito, pra conhecer mais, é só acessar o site dela: Juliana Fiorese.

Sweeney Todd, o barbeiro de Fleet Street está disponível direto na Loja da Editora Wish ou na Amazon.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Ouvindo: Passenger – Heart’s on Fire

  • Marina

    Em 31.10.2018

    Vontade de morar nesse blog, viu? Pqp! Amo, só não mais do que amo a dona dele! Haha ❤

  • Cah Dias

    Em 31.10.2018

    Olá, tudo bem?

    Eu sigo a Editora Wish no Instagram e quando soube que eles lançaram esse livro aqui no Brasil eu fiquei maravilhada! O livro já é maravilhoso pela capa, o mapa, as ilustrações… E a história, é claro! Eu já conhecia pelo filme e fiquei mais curiosa ainda para ler o livro.

    Ah, eu também sigo o retipatia 😉
    Quando vi que você tinha postado a resenha eu fui logo procurar pra ler sobre o que você achou do livro.
    Adorei sua opinião e isso me deu mais vontade de ler esse livro ksks

    Amei as fotos, então lindas. E a torta deliciosa, imagino. A resenha está muito bem feita, continue assim.

    XOXO,
    Cah.

  • Patricia Monteiro

    Em 31.10.2018

    Eu vi o filme e fiquei impressionada com a história, imagino que os detalhes impressos no livro a deixem ainda mais intensa. Também imaginei que a participação da Sr Lovett fosse mais expressiva, fiquei surpresa em saber que não é como no filme. É uma trama que critica a voraz sociedade da éppca com maestria, acho fantástica essa alegoria. As fotos estão um show a parte, até o esmalte combina com o clima do livro, adorei!

  • Lunna

    Em 31.10.2018

    Bem, adianto que não vi o filme, mas li esse livro há anos, na versão original da obra. Amei. Amei. Amei e confesso que tive dificuldade em me manter atada as fotografias e linhas de sua resenha. A primeira leitura foi feita em gomos (de laranja doce, daquela que a gente descasca com as mãos) porque fui recordando o livro que ganhei de aniversário, num novembro que já vai longe. E li de um fôlego só no mesmo dia. Devorei. Consumi e amei cada detalhe.
    Tentei conseguir um Penny Dreadful de todas as maneiras, mas nunca consegui, nem mesmo os sebos ingleses tem um exemplar. Invejo quem tenha. rs
    Não senti vontade de ler a trama em português, nem sendo o livro uma obra prima, como você disse. Prefiro guardar o horror de certas frases em inglês. E certos aromas maquiavélicos. rs
    E confesso que imaginei uma navalha bem afiada a dar cabo da torta, como se fosse um pescoço.
    ha ha ha

    bacio

  • Juliana Sales

    Em 31.10.2018

    Eu gosto muito desse filme e tenho uma curiosidade sobre ele: quando assisti pela primeira vez comentei com as pessoas que assistiram comigo que eu não imaginava que essa história de um barbeiro que assassinava seus cliente fosse uma lenda urbana a nível mundial. Elas ficaram sem entender e eu expliquei: eu me lembro claramente, de quando eu era criança, de ouvir uma história sobre uma barbearia que tinha sido fechada pois havia uma espécie de mecanismo na cadeira que o barbeiro usava para matar seus desafetos. A tal barbearia ficava em uma rua próxima a casa da minha mãe e lembro que eu sempre evitava passar em frente a ela, tinha muito medo. Quando cresci, apesar de ainda lembrar desse história, deduzi ser uma lenda urbana, como a loira do banheiro ou o carro preto que assustava crianças. Mas o curioso é que ninguém que eu falo sobre já ouviu sobre isso, a única referência é mesmo o filme. Até hoje fico com isso na cabeça, de onde a Juliana criança tirou essa história. Enfim, isso não tem nada haver com o post em si, já que é sobre o livro rs. Há um tempo atrás ouvi falar que o livro seria lançado por aqui e claro, quis comprar. Mas depois, não sei se tiveram algum problema com o lançamento, mas o tempo passou e eu acabei me esquecendo. Mas agora entrou na lista de compras da Black Friday. Essa edição está um absurdo de linda e bem feita, e fiquei feliz de saber que a história original tem diferenças com relação ao filme, mais um motivo para querer ler. E você arrasou nas fotos, como sempre.

  • Luana Souza

    Em 31.10.2018

    Foi só com o passar das fotos e da resenha que descobri que essa torta era uma torna e não um bolinho haha. Lembro até hoje do quão perturbada e maravilhada fiquei na primeira vez que assisti ao filme do Sweeney Todd. Eu amei o tom dramático, meio teatral, e ao mesmo tempo sombrio da história. É um dos meus filmes favoritos, e tenho certeza que vou amar o livro também. EU QUERO!
    Histórias assim me fazem questionar até onde o ser humano é capaz de ir. Têm uns casos reais que são tão chocantes quanto os da ficção.
    As fotos ficaram lindas, até a torta (que eu optaria por não comer enquanto estivesse lendo hehe) <3
    beijos.

  • Retipatia

    Em 31.10.2018

    ahaha eu tô rindo pela torta-bolinho! Realmente ela não é do tipo que mais tem cara de torta, mas eu tinha que trabalhar com o que eu tinha… ehehe
    O filme é bem legal né, é a própria assinatura do Tim Burton!
    E eu também acho esse livro a sua caraaa! Acho que você vai amar a leitura e, óbvio, precisa desse lindo! <3
    Uma das coisas incríveis nesse livro é justamente isso, os questionamentos e críticas que saltam das páginas, a todo tempo e que abordam vários âmbitos da sociedade.
    Feliz que tenha curtido as fotos e eu não comi a torta na hora das fotos, mas foi só porque eu tinha acabado de almoçar... eheheh
    Obrigada pela visita!
    xoxo


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