Fisheye ♥ Kamile Girão

A delicadeza do olhar de quem descobre que pode enxergar bem mais do que os olhos permitem ver; a sutileza de perceber que as imperfeições fazem parte da beleza de cada um. Uma história com uma pitada de um dos contos de fadas mais amados. Esse é…

Fisheye

Autora Kamile Girão

KamileGirão.com

“Seria legal deixar um legado das coisas bonitas que vi enquanto pude. Assim, as pessoas saberiam que meus olhos priorizaram a beleza em vez de dar atenção apenas àquilo que nos deixa tristes.”

Sobre a Autora

Kamile Girão é uma estudante cearense de design gráfico e letras português/inglês. Nascida no início da década de 90, começou a escrever ainda na infância, quando comprava brochurinhas para descrever suas brincadeiras no colégio e de boneca. Com o advento da pré-adolescência, a então diversão virou hábito. Inventou várias histórias, transformou outras em livros. Vive criando mundos paralelos e realidades alternativas nos percursos de ônibus que faz pelas ruas de Fortaleza.

Sinopse

“Meus olhos são como canudos, Mick, só me permitem enxergar por um buraquinho. E com o tempo, a abertura deles vai diminuir muito, até que a fenda deixe de existir.”

Aos dezesseis anos, Ravena Sombra descobre que não é perfeita: após um acidente numa festa, ela é diagnosticada com retinose pigmentar, uma doença sem cura que degenerará a sua visão gradativamente.

Com o mundo pelo avesso, a adolescente inicia sua jornada em busca do amadurecimento e da superação, numa narrativa intimista à procura de se entender e de se descobrir. Ao longo do caminho, contará com a ajuda do melhor amigo de infância, da sua implicante e carismática irmã, de uma velha polaroid com nome de música dos Beatles e de um violinista cuja pele é marcada por cicatrizes e os olhos de um azul infinito como o céu.

No meio de tanto caos, Ravena vai entender que crescer não é um processo fácil e que sim há beleza em enxergar o mundo do seu jeito peculiar e especial.

Fisheye

Fisheye, também conhecida como olho de peixe. É uma lente objetiva do tipo grande-angular, utilizada na fotografia. Sua principal característica é proporcionar uma ângulo de 180º, resultando em uma imagem com grande distorção óptica.

“Talvez eu seja mesmo uma espécie de fisheye, como você falou. Uma fisheye que tenta ser uma Polaroid, querendo registrar tudo de imediato porque tem medo de não poder mais fazer registros.

Ravena Sombra é popular, digna do título de Queen Bee das garotas de sua escola, em uma versão brasileira da muito conhecida Regina George do filme Meninas Malvadas. A protagonista encabeça o poderoso trio dos Erres, já que as amigas e fiéis escudeiras se chamam Raquel e Rebeca. Seu lado nerd, fã de rock dos anos 60, de Star Wars e que adora fotografar com sua antiga Polaroid chamada Dear Prudence, esse, é mantido à sete chaves sob várias camadas de rímel e delineador.

“Popularidade pode ser sempre a chave necessária para o sucesso. Distribua sorrisos e saiba diferenciar sensualidade de vulgaridade. Siga as tendências. E, o principal: mantenha-se vivo ao final da sua batalha contra o mundo.”

Tudo em sua vida precisa estar, ser perfeito. Da aparência às notas em sala de aula, do comportamento ao namoro com o garoto dos sonhos. E, de fato, apesar de a família de Ravena estar longe de qualquer ideal de perfeição, ou melhor, de qualquer ideia de estabilidade, com a irmã morando em outra cidade e sendo considerada pela família como a ovelha negra, com os casos extraconjugais do pai em evidência e a indiferença da mãe, realmente, tudo o que importa para ela, é a aparência. É a certeza de que tudo que pode ser controlado, tudo que está ao seu alcance, funciona da maneira como deveria, ou como a sociedade lhe diz que deveria ser.

“…não havia nenhum bicho papão para temer. O monstro ali era eu. Era de mim mesma que eu sentia medo, da forma estranha como meu corpo reagia, da falta de controle sobre aquela escuridão.”

No seu último ano de escola, o foco está no vestibular, ingressar em um curso que tem a aprovação dos pais é uma das suas metas e, sem dúvidas, ela se dedica ao máximo, tanto que suas noites em baladas são cada dia mais escassas. Mas uma noite de folga, proposta de seu amigo Mick, traz acontecimentos estranhos e as coisas não saem como o planejado. Depois de alguns exames, a descoberta: retinose pigmentar. Ravena está perdendo sua visão a cada dia que passa e, agora, todos os seus planos e perspectivas de vida são questionados.

“A verdade nem sempre é o caminho mais fácil, mas é o mais adequado em qualquer situação.”

A história de Fisheye pode parecer seguir um script, daqueles que temos em livros e filmes que abordam a descoberta de algo impactante, geralmente, de uma doença, já que é exatamente essa a proposta. Imaginamos que a notícia da doença chegará, seguida da desestabilização, da reviravolta, e então, a aceitação, o amadurecer, o desabrochar. Mas, se for assim, o que é que realmente temos fora do padrão, já que, o elemento marcante da história, que é a fase de descoberta da doença já é jogada ao leitor logo na sinopse? O que vem depois, como a história se mantém sem um alicerce de descoberta pronto a ser revelado?

“Era esquisito perceber que o belo e o horrível podiam habitar a mesma pele e montar a feição da mesma pessoa.”

Talvez esse seja o aspecto mais prazeroso e sutil da leitura de Fisheye. As cartas foram colocadas na mesa, as apostas foram feitas e não precisa ser nenhum vidente para saber o rumo em que elas seguem, mas, a questão é, a narrativa te faz querer passar por cada um desses detalhes, por cada percalço, por cada dor e sentimento novo, por cada perda e descoberta. Cada único nascer do sol, cada pessoa que rodeia a protagonista como satélites naturais a orbitar um planeta, uns dependendo dos outros para subsistir. Queremos orbitar ao redor de Ravena e viver com ela cada minuto de sua vida, seja ele prazeroso ou doloroso, triste ou alegre.

“Não é porque as luzes do teatro se apagaram que eu devo desistir da apresentação, não é? – perguntei. Ele
demorou alguns segundos para me responder. — O show precisa continuar – respondeu. — Independentemente de qualquer coisa.”

Ravena é como um planeta prestes a sucumbir, com seus satélites totalmente atrapalhados, com órbitas invertidas, alguns desaparecidos e outros, novos e ainda sem lugar definido. Está prestes a sair do prumo, mas também, prestes a criar seu próprio trajeto interestelar. E viramos espectadores dessa colisão de astros que surge em cada página.

“Era como se, nesse tempo todo, eu estivesse apresentando um musical ao melhor estilo Funny Girl. À medida que a peça se desenrolava, as luzes iam abaixando para mim e deixavam o palco mais escuro, embora a plateia ainda conseguisse me enxergar perfeitamente. Uma hora, elas iriam apagar e eu não poderia fazer nada para impedir. Mas ainda poderia terminar a minha performance. Era para isso que eu estava em cima de um palco e tudo só dependia de mim e do meu esforço. Como a própria Barbra Streisand bradava no filme, ninguém poderia fazer chover em meu desfile. Nem mesmo eu.”

É assim que ela passa pela descoberta de sua doença e pela aceitação de sua nova condição como deficiente físico. Ela rui, colide bem mais do que com meros asteroides e satélites, e instaura o caos em todos os cantos pelos quais percorre diariamente. E é então que ela descobre, na beleza das coisas perdidas, das esquecidas, entre um clique e outro de Dear Prudence, nas músicas que ouve a banda de Daniel tocar, nas conversas redescobertas com seu pai, no lado que nunca conheceu da irmã, nas dores e dramas que seu seu amigo Mick vive… em tudo isso, nas amizades desfeitas, na imagem borrada no espelho, nas músicas antigas, nos planos desfeitos e naqueles que surgiram… é através de tudo isso que ela descobre que a verdade não é menos verdadeira quando silenciada, que ser belo não significa ser perfeito e que abraçar suas peculiaridades é a melhor maneira de se amar.

“Falar sobre a retinose pigmentar era assumir que ela existia e que estava dentro de mim. Conversar sobre aquilo era admitir a doença como verdadeira. E então, não haveria mais escapatórias; finalmente me enxergaria como eu realmente era: Deficiente visual.”

Talvez possa soar clichê e, sem dúvidas, a vida é feita de muitos clichês, mas o que Fisheye nos dá, sob a perspectiva de uma câmera e do olhar que começa a se fechar para captar os movimentos ao seu redor, é justamente a mensagem de que o crescimento, a dor que o gera, é que traz a felicidade ao fim da batalha de cada dia. É descobrir o verdadeiro significado de amizade, de amor ao próximo, de amor próprio, de desejo, de sanidade, de perda, de companheirismo, de família e do amor romântico. É livrar-se de pré-conceitos e preconceitos tão arraigados que saem destruindo o caminho quando são arrancados, mas deixam o alívio característico de retirar um espinho da pele.

“Eu preferia morrer do que deixar de tirar minhas fotos. Elas poderiam não ter nenhuma qualidade artística, nenhum atributo que as fizessem peças importantes, mas eram minhas. Eram meu modo de  enxergar o mundo.”

É como se Ravena, no meio dos estudos para o vestibular, fizesse um grande resumo de tudo que precisa saber para a prova, listou cada um deles e, ao fim, percebeu que boa parte do que estava lá, não importa de verdade. É apenas o que o roteiro de estudos dispunha como necessário, mas, não necessariamente, o que ela precisava levar para a vida.

“…havia percebido que eu poderia ser como os pequenos vidros do caleidoscópio. Eles ainda se reorganizavam harmonicamente depois de uma mudança brusca no curso, eles ainda conseguiam ser belos mesmo que o tubo continuasse a se movimentar sem avisá-los do que estava por vir. Eles sempre encontrariam uma forma de se adaptar.”

Foram necessários vários cliques e registros para mostrar que ver o que queremos ao nosso redor depende apenas da maneira como olhamos. Como um caleidoscópio, Ravena, a Fisheye, rearranja os fragmentos de sua vida em uma bela disposição para mostrar que o que importa é o trajeto percorrido nos clichês que a vida traz, e, especialmente, que ver além do que os olhos podem ver, é conseguir enxergar a real beleza que existe nos momentos e nas pessoas.

“…talvez, eu mesma conseguiria encontrar a tranquilidade e a segurança que me faltavam em toda aquela loucura se eu me esforçasse para me enxergar através do prisma de um caleidoscópio.”

Com uma narrativa cativante e personagens bem elaborados (é impossível ler e não se apaixonar por, pelo menos, meia dúzia deles, Daniel que o diga…), Fisheye é uma leitura que emociona, que encanta, que traz uma pitada de contos de fadas à realidade bruta, que traz humor e descontração com suas referências geeks, que mostra a proximidade entre amizade e amor e, acima de tudo, mostra que a real beleza, a que importa na vida, é aquela que é possível captar para além do que se consegue ver.

“Porém, como Daniel mesmo me dissera uma vez, não éramos menos especiais por causa das nossas peculiaridades.”

Cliques Aleatórios

  • A sessão de fotos desse livro foi peculiar, como diria Ravena… Eu não sabia da função do celular para desfocar uma parte da foto, por acaso, enquanto fazia os primeiros cliques, acionei a função e voilà, tudo ficou com um tom bem mais parecido com o desejado para as fotos, já que eu não tinha uma lente fisheye para usar no celular… Como disse a Kamile, é o efeito Ravena agindo… Fora isso, foi uma das sessões que mais gostei de fazer. Pensar nos elementos que combinavam com a história, imprimir minhas fotos de polaroid fakes e juntar as peças…
  • Sabe aquelas pessoas que a gente quer colocar num potinho? A autora do livro, Kamile Girão, além de ser minha diva pin-up, é assim. Ela faz um trabalho incrível, não apenas como autora e super recomendo conhecê-la pelo site ou Instagram.
  • O exemplar de Fisheye foi presente da Cecília Reis, que é outra querida e autora de Os Cavaleiros do Inverno, que é um dos meus xodós (já rolou resenha no blog, clica aqui para conhecer).
  • O livro agora faz parte do roll de capas mais lindas da minha estante, a aura que ela me passa é indescritível…  A diagramação e as folhas amareladas, completam o visual bem acertado do livro. Sem contar que, com uma história tão linda, é impossível não amar ainda mais!

O exemplar físico de Fisheye da Kamile Girão está disponível para compra direta com a autora (que segue autografado e com kit especial) pelo site KamileGirão.com e o e-book está disponível na Amazon e pelo Kindle Unlimited.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Ouvindo: anything from the sixties…

Repense, renove, rediscuta...