P & B

Em 11.09.2018   Arquivado em Contos & Crônicas

Era o ano de 1950 e a família se reunia na sala de abajures e sofá de estampa de flores outonais, enquanto o patriarca ajustava a antena até que os chuviscos do aparelho sumissem e a imagem ganhasse as devidas escalas de cinza.

Os garotos, que já passavam dos trinta, riam ao lado de suas esposas e as crianças iam de lado a outro perguntando ao avô se já estava pronto.

A única alheia a tudo aquilo, imersa na página do último romance que seu pai encomendara da livraria, era Antonella. Seguia as linhas e adentrava a floresta com a donzela, que fugia do vilão até esbarrar no lindo príncipe que cavalgava a esmo pelas terras banhadas à luz da lua. Luz essa que era da cor da leitora, tão pálida e de saúde tão débil que não lhe era permitido sair de casa. A família a tratava como se fosse feita de papel e, como tal, era proibido que se molhasse no ar das ruas da cidade.

Cerceada da vida do lado de fora, viaja pelas páginas como se adentrasse em navio pirata e velejasse até terras desconhecidas, sem se importar com as mínimas coisas que a tirariam do lugar.

– Antonella, largue esse livro. Olhe como as imagens são bonitas! É bem melhor do que um livro!

Se a irmã mais velha era enclausurada, não havia autoridade no patriarca e em sua esposa capaz de podar as asas amplas as quais já nasceram com Angelina. Os livros eram muito parados para seu espírito vivaz e a melodia das festas e o ar das praças lhe pareciam muito mais imaginativos.

Antonella acaba por não dar atenção à caçula e deixa o burburinho da sala para trás, divagando nas páginas e no motivo que fez a donzela dizer não ao pedido do príncipe. Não que ela achasse que o casamento deveria ser a parte mais importante da vida de uma mulher, mas, quando se estava impossibilitada de sair e sequer conhecer pessoas do mundo lá fora, qualquer oportunidade de experimentar algo novo lhe parecia deveras importante para ser rejeitada. Se pudesse, levaria um livro todas as tardes para o parque para sentar-se à sombra de um carvalho e passar horas a fio lendo. Contudo, o máximo que lhe era permitido, eram algumas horas no sol morno da manhã, no jardim da casa.

Enquanto passava páginas, apenas notou o cessar do barulho da casa quando a mãe veio ver como estava e trazer-lhe o jantar, já que pular uma refeição, em sua condição, era algo totalmente fora de cogitação. Não que a jovem não sentisse fome, mas sentia-se muito mais parte do papel que lia do que da realidade que habitava.

A lua, sua irmã de brilho na pele, subiu ao céu naquela noite e deixou a luz bruxuleante entrar pelo vidro fechado das janelas do quarto de Antonella. Seguiu adentrando como se pudesse penetrar pelos poros da jovem e lhe arrefeceu a vontade de dormir, consumiu todo o sono e deixou-a imune aos sonhos que a levavam para terras longínquas do além mar.

Talvez um leite quente a acalmasse, era isso e alguns biscoitos o remédio que sempre fazia a caçula adormecer. Certa de que seria a cura de sua insônia, ela veste seu robe de seda branca e segue pela casa na penumbra até ouvir os ruídos baixos do aparelho novo.

Não fosse a imagem de sua irmã agarrada à um copo de leite acomodada ao sofá com travesseiro abraçado como se fosse um enamorado, causar-lhe-ia espanto a tela que transmitia imagens e quase som algum.

– Vem, senta aqui comigo.

Com a mão estendida, Angelina recebe a irmã no sofá e dá-lhe um beijo na bochecha fria.

– Não gostou? Eu achei uma maravilha!

Antonella não sabia ao certo o motivo, mas estava longe de achar aquela caixa enorme uma maravilha. Não apenas pelo valor alto, que, na verdade, não faria falta alguma à família abastada, mas era o tipo de coisa que a faria se recusar ficar sozinha na sala. Talvez fossem ideias muito insensatas, infantis ou mesmo insanas, mas sabia que caixas eram feitas para aprisionar coisas. Ou para guardar. Nada deveria sair de lá, afinal de contas. E, se tinha algo que ela bem sabia, é que viver guardada não era boa coisa.

– Ah não, o que será que houve?

Angelina tentava consertar a imagem, que agora era repleta de chuviscos. Um barulho que gelava a espinha de Antonella e fazia os pelos de seu corpo inteiro levantar. Talvez fosse melhor voltar para a cama, fechar os olhos e se forçar a dormir.

A caçula, no entanto, começa a insistir por ajuda e, logo, o burburinho baixo das duas a tentar fazer a imagem aparecer é silenciado com a presença do pai a querer saber o que as filhas fazem acordadas até aquele horário. Ainda mais Antonella, não deve privar-se de uma boa noite de descanso.

– Só esta noite, papai. É novidade, queremos ver mais.

– Bem, Angelina quer. Só estava vindo pegar um copo de leite quando a encontrei e agora tento fazer esta coisa funcionar.

– Certo, certo. Mas apenas esta noite, logo quero as duas na cama.

O pai passa a tentar ajustar o aparelho e Antonella se dispõe a verificar se a tomada estava no lugar. Um ajuste do cabo frouxo e a imagem retorna.

– Espera, tem algo errado!

– O que há de errado? – Antonella pergunta frente à expressão da irmã e sai de trás do aparelho. Seus olhos captam a imagem, mas leva um tempo até perceber que o que a tela mostra, em uma versão sem cores, é o canto da sala da própria casa.

Sua mão, e num gesto bem mais curioso do que pensado, passa por detrás da caixa e, no mesmo instante, a versão cinza dela aparece na tela. Um grito sai da boca da irmã e o pai manda que se afaste. Mas a jovem sabia que aquilo não poderia ser algo mais que um sonho, então caminha para trás do aparelho e pergunta se está a aparecer na tela.

O olhar horrorizado da caçula indica a clareza do óbvio, o ímpeto do pai em ir atrás dela e puxar a tomada para desligar, confirma. Mas tão logo sai da parede, um chiado alto de interferência vem do aparelho, um estalo e até mesmo a luz do abajur sala cessa.

O grito de Angelina desperta quem ainda repousava na casa e faz com que o pai se vire e acenda o interruptor de luz. Todos gritam, todos chamam, mas não há sinal de Antonella. Nem um resquício de sua existência resta na sala de estar. A irmã que resta soluça e mantém a mão na tela do aparelho, chamando o nome da desaparecida.

O pai a chama, mas não crê na loucura do gesto da filha, liga o aparelho como a mostrar que a outra apenas saíra do cômodo e, ao deparar com o choro de Antonella vindo da tela e sua imagem presa do lado de dentro, seu coração fraqueja, cai de joelhos no chão, com uma forte dor no braço esquerdo.

Um novo estalo alto e a imagem se apaga. Mais chamados por Antonella, mas nenhuma sombra ou som vem do aparelho agora, que se recusa a ligar mais uma vez.

***

Não há nada diferente ao redor. A mesma sala, os mesmos móveis, até a claridade da lua reflete no aparador no mesmo ângulo. Apenas as cores tomaram outro tom, são em escalas de cinza, em preto e branco.

– Papai? Angelina?

Sem resposta. Antonella pisca algumas vezes, tentando fazer os olhos voltarem a ver as cores, mas nada resolve. Será que dormira ali, tivera um pesadelo? Está em um pesadelo? A mente não para de tentar desvendar o mundo ao redor. Se nada do que vê parece ser real, crer estar em estado sonâmbulo ou a sonhar parece o mais razoável, aceitável.

Sim, dormindo, sem dúvidas. Ela constata quando vê as mãos cinzas à sua frente. Fecha os olhos e repete como se fosse um mantra, acorde, acorde, acorde, Antonella!

Os olhos se abrem mais uma vez, mas as cores ainda estão em falta. O ambiente ainda parece vazio e não há sinal de qualquer um de sua família, mesmo chamando seus nomes em alto e bom tom.

Talvez seja algum novo sintoma de sua condição, não fora dito que poderia afetar suas vistas? Sim, os médicos disseram, prepararam-na para isso. Não há motivo para pânico, precisa apenas ir até o quarto de seus pais e pedir ajuda. Talvez haja como consertar sua visão.

Aos poucos, ela consegue erguer-se do chão e ir até as escadas que levariam ao andar de cima. Sobe os degraus passo a passo até chegar à porta do quarto dos pais e bater, chamando papai e mamãe.

O ranger da porta soa e ela sobe os olhos para a figura alta que lhe encara ainda de maçaneta na mão.

Um grito, alto, agudo sai das profundezas do corpo magro da jovem e reverbera pelas paredes de sua garganta até criar som do lado de fora. Passos para trás.

– Quem é você? O que faz em minha casa? – As perguntas dela vem junto ao palpitar do coração. Sem dúvidas, a fraqueza do órgão seria testada ao máximo, não resistiria. – Papai! O que fez com meus pais? Angelina?

– Senhorita?

O jovem provavelmente, era rápido demais, pois agora já estava atrás dela, a tocar-lhe o ombro, dizendo palavras que ela não mais ouvia, apenas um ruído forte que parecia com o chiado da televisão até não mais restar forças no corpo, mãos a aparam antes da queda ao chão, a consciência, vagando para qualquer lugar longe dali.

***

Ainda que as cores estivessem em quase todos os tons, ausentes, a lufada de ar que entrava pela fresta da janela vinha com sabor de ar da manhã. Com madressilvas à beira da janela, o ar trazia arrepios para a pele que não estava habituada ao frio do começo dos dias.

Puxando o robe sobre si, ainda sem entender como fora parar na cama, Antonella levanta e observa o quarto. Todos os móveis eram aqueles seus, mas detalhes pequenos confundiam a mente. Não havia seus perfumes ou joias em cima da penteadeira, ou sequer um de seus livros acostados ao criado-mudo. Nenhuma peça de roupa do dia anterior sobre a poltrona ou mesmo a jarra de água que ficava sempre à mão.

Um clique suave e a porta se abre e, não apenas um jovem adentra o quarto, mas dois deles, de aparência tão idêntica quanto as vestimentas, que seria impossível não achar que fossem duplicatas. Estou a imaginar coisas! Antonella logo se viu pensando.

– A senhorita se sente melhor?

– Quem são vocês, o que fazem na minha casa?

Os jovens se entreolham como se pegos durante uma travessura.

– Queira nos desculpar, mas foi a senhorita quem apareceu no meio da noite em nossa casa.

A discussão infrutífera renderia horas a fio, mas, Antonella apenas insistia para agarrar-se ao fio de lucidez que ainda acreditava possuir. Sim, sem dúvidas, a não ser a similaridade da mobília e a localização dos cômodos, nada indicava que aquela era a sua casa. Nenhum de seus pertences pessoais estava presente, os residentes eram outros e, claro, a ausência de cores, que lhe causava uma constante dor de cabeça.

Os jovens, ela logo veio a descobrir como se chamavam, Henry e Arthur, gêmeos que moravam sozinhos desde a morte prematura da irmã mais jovem e dos pais. Antonella não prestou atenção em todos os detalhes, tentava recordar dos atos que antecederam sua chegada ao que chamou, intimamente, de mundo P&B. Talvez, fosse um sonho por demasiado real, talvez, tivesse enlouquecido. Mas se este fosse o caso, não estaria a se indagar tal fato, a realidade da loucura seria a sua própria e, portanto, estaria com ela satisfeita.

Os gêmeos a indagaram sobre o que ocorrera antes de sua chegada, tentando compreender o que estava a acontecer com a jovem que falava da falta de cores e de parentes que não conheciam. Exausta pela situação, deixaram-na descansar após a refeição do café e discutiam se ela poderia, de alguma maneira, ser paciente do hospício da cidade, que por ventura tivesse escapado.

Um mundo como ela descrevia lhes parecia não apenas impossível, como se as cores que olhassem ao seu redor, como se as tonalidades que viam não fossem as reais. Insistia em vermelhos, azuis, amarelos e verdes, palavras que nunca tinham ouvido antes. Inventava todas elas? Sua crença era tão forte que, em pouco tempo, não começaram a pensar se ela realmente não poderia ter vindo de alguma outra realidade.

Tolice, era sempre a conclusão final de Henry, a qual Arthur vinha sempre a concordar. Talvez todos os loucos sejam mesmo convictos de suas loucuras. Cogitaram por alguns instantes entrega-la ao manicômio, mas, ao mesmo tempo, sabiam bem que o tratamento não costumava fazer mais do que enclausurar em terríveis tormentos os pacientes. Não desejavam tal mal para a jovem Antonella, se afeição poderia ser obtida à primeira impressão, sem dúvidas, eles já a tinham pela moça de pele de lua.

Os dias foram passando, Antonella não achara resquício de maquinário que se assemelhasse à televisão, para que, numa tentativa desesperada, pudesse tentar retornar à sua família. Às vezes, em algumas noites, despertava com o corpo quente e suarento, ouvindo as vozes de Angelina a chamar-lhe. Seria sua irmã a chama-la, de casa? Tinha certeza que sim, fosse como fosse, só precisava descobrir como chegar lá.

Pensou também na possibilidade de se comprar uma televisão e colocar no mesmo lugar da sala de estar, mas, pelo que lhe contaram, não existia no mundo inteiro aparelho como aquele. O próprio nome lhes soava estranho tanto quanto o das cores que desconheciam como roxo ou alaranjado.

– Não queres dar um passeio conosco? Há dias que não sente o calor do sol.

Arthur vinha repetindo o pedido e Antonella sempre dizia que não devia sair, que sua saúde não permitia. Mesmo quando ambos afirmaram serem médicos formados e que ela lhes parecia perfeitamente saudável, não fora o suficiente. O convite do passeio apenas fora aceito meses após a primeira oferta, quando a jovem notou que não tivera nenhuma de suas crises, não fosse, é claro, o que já não sabia ser defeito de sua visão e a estranha situação à qual fora forçada a se habituar.

Saíram à tarde, para caminhar pela praça e tomar sorvete. Coisa como essa, desmedidamente simples, Antonella nunca fizera. Jamais pudera ingerir algo tão congelado e muito menos andar sentindo o calor do sol da tarde lhe queimar a pele enquanto o vento frio fazia seu vestido levantar a saia.

A vitrine dos sorvetes, ainda que todos parecidos demais em suas escalas de cinza, lhe parecia apetitoso. Leu as placas com as indicações dos sabores e pediu morango. Sempre gostara de morangos, em sua cor avermelhada e sabor adocicado com um leve toque ácido.

Sentaram-se os três à praça e ela logo deu chance ao sabor. Deleitou-se ao gelo que cobria a língua e derretia já descendo quente pela garganta. Sentiu o aroma, a textura e o doce sabor que a fazia pensar em morangos batidos com leite.

– E então, gostou? – Pergunta Arthur.

Antonella sorri, o primeiro de meses.

– Para que cores quando se tem este tipo de sabor? – Henry diz, sorrindo e fazendo com que a jovem lhe sorria de volta.

Começam a arguir-lhe quais as cores tinham as coisas. Morangos eram vermelhos e o céu era azul. A grama verde e os cachorros, tinham de todas as cores, mas não roxos, azuis e verdes. Mais como marrom, preto e caramelo. O asfalto, ah, esse era mesmo cinza.

Quando retornam a casa, o familiar volta à tomar conta de Antonella, que já passava horas deleitando-se na biblioteca. Nesta noite, ela não se recolhe à clausura do quarto que antes era da jovem irmã dos gêmeos, mas senta com eles para ouvir música da vitrola e conversar.

A afeição que ambos tinham, vira algo mais, algo mais, vira logo o que poderiam chamar de amor. Plantado na noite em que conheceram a desconhecida que acreditava em cores que não existiam e regado à medida que conheciam cada vez mais um do outro.

Mas não era apenas eles que se apegavam, ela própria tinha amor plantado que não sabia que nome dar. Agradava-lhe as madressilvas que Arthur sempre colhia para colocar em seu quarto. Os livros que Henry sempre trazia para ela e os passeios a três para fazer piqueniques no parque ou para dançar a noite inteira num troca-troca infindo de pares.

A cada dia que passava, menos ela ouvia os chamados de seu nome, e mais acostumava seus olhos a ver em tons de preto e branco. Descobria mais cheiros, texturas e gostos, o tato e os ouvidos arguiam mais. Parava de se preocupar com os detalhes que os olhos viam e deixava que o restante de seu corpo completasse o que pudesse parecer que estava a faltar.

Em certa noite, ao valsar com Henry, observava o sorriso que ele lhe oferecia de bom grado, sem motivo algum e sentiu que o coração palpitava mais forte no peito. Batia como passarinho desesperado para escapar da gaiola, e deixou que pálpebras pesassem quando os lábios dele se aproximaram o suficiente para tocar os seus. Um instante apenas e percebeu o quanto nada daquilo poderia acontecer. Se pesasse em uma balança, tinha certeza que metade de seu coração pertencia a Henry, mas, a outra metade, era completamente de Arthur. Não poderia jamais realizar escolha qualquer.

Sob lágrimas que não cessavam, ela o deixa no meio da sala, sob o olhar angustiado que era refletido em Arthur, sentado no sofá à bebericar o vinho. Pediu desculpas e se recolheu ao quarto. Não poderia suportar a escolha, não poderia deixar que metade de seu coração morresse despedaçado enquanto outra parte batia feliz. E, ainda assim, sentia que se entregasse qualquer parte de si, as chances de voltar para Angelina e seus pais seria esmagada pelo mundo preto e branco, que tomaria conta de toda sua vida. Não que fosse esse um pensamento linear e muito sólido, era mais como a sensação de saber antes mesmo das nuvens escuras aparecerem que iria chover. Algo que vem do cerne e faz com que o corpo inteiro compreenda, antes mesmo da mente conseguir transformar em afirmação.

Uma batida na porta, é Arthur quem esgueira a cabeça pela fresta e pergunta se pode entrar. Antonella queria se desculpar pelo comportamento, então permite. Mas ele não estava sozinho e são os dois que adentram o quarto.

Ela balbucia o que julga ser um pedido de desculpas adequado, ainda que a digam que não se deve desculpar por seus sentimentos

– Não posso escolher, os dois têm o meu coração… – As lágrimas e soluços a impedem de continuar, mas cada uma de suas mãos é tomada por um deles.

– Jamais pediríamos tal coisa a você, minha Antonella.

– Jamais. Amamos você em igual medida e estamos felizes que também tenha amor por nós.

– Mas como pode ser? Não podemos…

Antonella sequer sabia como colocar suas ideias para fora. A ideia de amar mais de um homem lhe era claramente errada. O amor que as jovens dos livros tinham era sempre destino à um homem, ao seu salvador, ao seu escolhido, aquele único que seria o que lhe traria mais felicidade. Um coração não poderia ou deveria amar a mais de uma pessoa ao mesmo tempo.

Amar não é errado. Foi o que disseram os dois, ao mesmo tempo. E, com isso, envolveram-na em um abraço que fez secar as lágrimas e abrandar a dor do coração apaixonado. Nessa clausura que nada aperta, corpos se tocaram, mãos se entrelaçaram e lábios se tocaram pela primeira vez, para, logo em seguida, outro par se encontrar pela segunda vez.

Sob a luz da lua que refletia na cama, Antonella foi amada, a pele da cor do astro noturno espelhou o luar como se fosse uma extensão dele próprio e cor alguma fez falta ao momento repleto de formas, toques, cheiros, gostos e sons. Tudo que importava era o calor e a vibração, era o que ela um dia chamaria de transbordar de amor.

***

Os dias seguiam em sintonia, tão pouco ou quase nada Antonella pensava naqueles que já foram seu mundo um dia. Enquanto havia calor vindo do sol, ocupava-se em ler, ouvir música e passear pela cidade, já que seus amores trabalhavam fora. Ao chegar o entardecer com o luar brilhante, recebia-os em casa, jantavam, ouviam música, liam, conversavam, amavam e planejavam viajar nas próximas férias.

Iriam até a cidade Natal dos gêmeos, conhecer os avós maternos e nadar na cachoeira, como faziam quando eram crianças. Antonella nunca vira uma, sequer podia conter a emoção de como seria sentir água gelada no corpo inteiro, mergulhá-lo na lagoa e secar ao sol.

Planejaram, fizeram malas e saíram no dia. Antonella era só sorrisos ao encontrar os familiares de seus amores. Receberam-na como se fosse filha que não viam há muito tempo e a velha logo lhe segredou que a mãe de Arthur e Henry a teria aprovado. Cada pedacinho dela, e com certeza já a chamaria de filha.

Naquela noite, entretanto, a primeira em que a jovem passaria afastada da casa em que nascera e vivera quase por toda a vida, ainda que em uma outra realidade, não conseguia dormir. A cama era por vezes dura demais e, por outras, macia demais. Quente e muito frio, tudo ao mesmo tempo.

Levantou-se e seguiu para o quarto em que sabia que Arthur e Henry estavam acomodados, dormindo lado a lado em cama de casal, virados para lados opostos.

Arthur logo percebe sua presença e vai recebe-la, achando que há algo errado. Antonella confessa não mais conseguir dormir sozinha e se vê deitando entre os dois corpos que já tomam a forma do seu. As costas rentes ao peito de Henry e as pernas entrelaçadas às de Arthur.

Ainda assim, seu coração não sossega e as lágrimas logo descem brilhantes sob a palidez acinzentada de sua face. Entre abraços lhe perguntam o que a faz sentir tristeza e as palavras brotam antes mesmo que ela as sinta como tolas.

– Ainda vão me amar quando eu estiver velha e feia? Vão me amar quando outra jovem aparecer e quiser ser de apenas um de vocês, quando não precisarem dividir?

E então repete o quanto é estúpida e tola por ter tais pensamentos e por ainda dizê-los em voz alta. O que queria, afinal? Não era tudo uma loucura desde que abrira os olhos neste mundo em preto em branco?

Não há tolice alguma. Repetem isso e tudo que isso quer dizer. Repetem o amor. E ela sente o amor e é amada. E amada, adormece, três corpos entrelaçados.

A manhã seguinte não é nada do que ela espera, um enjoo e nada de caminhada à cachoeira. Seguem-se mais enjoos, nenhuma cachoeira e volta de viagem. Nada de descobrir o que há de errado.

Foi a viagem, ela tem certeza. A saúde nunca fora boa, afinal de contas. E tanto amor, tanto furor dos últimos meses, só poderia ser isso. O corpo não aguenta.

Mas dali um tempo, vem vontade louca de tomar sorvete de limão. Nem gosta de limão, no fim das contas. E, das contas, sabia que uma delas não vinha lhe cobrar há um tempo. Aquela regra mensal.

Flores, alegria, sol, luar, mas vinho só depois que nascer. Passam os dias, passa o enjoo, cresce o ventre e o amor muda. Cresce pra todo lado, expande. Tem risada e expectativa, novo que nem o berço do quarto que foi de Antonella. Agora do bebê. Ela já compartilha cama com os amores no maior quarto da casa, de todo jeito.

Era noite de chuva forte, com vento e água batendo nas janelas quando ela sente a dor. Uma que nunca veio antes, mesmo com as costas doloridas e todo o cansaço. Uma que vinha lá de dentro e fez água jorrar entre as pernas. Arthur diz que era hora, mas ela sabia, era cedo, cedo demais, não podia ser hora ainda. Henry a ignora e ambos a preparam. Chamam a parteira, o ditado que santo de casa não faz milagre prevalece nessa hora aflita.

Cada um segura uma mão, mas o bebê só resolve que é hora quando os primeiros raios de sol surgem pela janela, quando os pássaros cantarolam junto do grito de Antonella. Mas a dor não cessa e a parteira diz o que já estava claro como o dia, “vem mais um”.

Foram dois, um menino e uma menina, que a mãe amamentava cada um em um seio, com cada um dos pais, ninando para fazer dormir logo depois. E a vida seguia, até vir o sonho da mãe. Acordava e via em cores. Via os detalhes dos moveis, as roupas e tudo que ficou para trás. Mas não via Arthur ou Henry. Sequer as duas crianças que agora já corriam barulhentas pela casa, Angelina e Francisco, que recebera o nome do avó em cores que ela pouco recordava agora.

Acorda envolta nos braços que já conhecem todos os caminhos de seu corpo. Acalentam, “foi só um sonho”. Mas ela sabia bem que estava longe de ser só sonho, era como aquele saber intrínseco que o corpo sente antes da mente entender.

As folhas das árvores caíram, mais dias viraram noites e noites viraram dias. O ventre tornou a encher e, dessa vez, ela sabia que era só um. Tudo estava mais lento, menos pesado. Nem sempre mais fácil, mas isso não importava muito. E, numa noite qualquer, caiu a prantear, como logo antes de saber que esperava seu casal de gêmeos.

– E se encontrarem outras para amar para cada um?

Respondem que amam, amam por inteiro. Casa com a gente. Ela sorri, eles sorriem e tem amor pela noite inteira. Antes mesmo de parir, vem o vestido branco, solto, leve, a caminhada na grama com barulho de cachoeira ao fundo. Os pequenos Francisco e Angelina levando as alianças. Três, uma para cada par de mãos. Selados, compromissados. Beijos trocados em votos de amor. Pra sempre amor, com ou sem cores coloridas.

***

Não fossem as inúmeras vezes que precisava levantar para ir ao banheiro, ficaria bem menos cansada durante a gravidez. Segue mais uma noite até o banheiro e, depois, desce até a cozinha para tomar o leite morno. Quando acordava, gostava do velho hábito que pegara emprestado, como se fosse manter a saudade afastada desse jeito.

Ouve ruído estranho, um que só a mente trabalhar um bocado a faz lembrar. Chiado de televisão sem imagem. De chuvisco. Os pés vão sozinhos para a sala e lá está ela, em preto e branco. Mesmo sem crer, negando com a cabeça, como se fosse afastar qualquer coisa de ruim, ouve o chamado. Seu nome, Antonella, no tom de voz que já ouviu antes. Há muito tempo, provavelmente.

Um estalo alto quando tenta tirar a tomada da parede, um chiado que aumenta na cabeça e está lá, de novo, vendo tudo em cores. Repetem seu nome, de novo e de novo. Mas tudo que sente é dor, o corpo contorce, tenta se levantar, mas está fraco. Vê o chão, nunca viu vermelho tão vermelho assim. E não vê mais nada.

***

– Antonella?

As cores fazem a vista doer, ou seria a claridade? Talvez o excesso de cores, afinal. A irmã debruçada à cama, mas talvez não seja ela. Alguns traços mudaram, parece maior, mais moça. Há bem mais cabelos brancos e rugas no homem do outro lado, Francisco, pai, chora como se fosse Francisco, aquele pequeno que ela deixou do outro lado da tevê quando rala o joelho.

– Está em casa, irmã, vai ficar bem, vai ficar tudo bem!

Antonella não sabia o que isso queria dizer, leva a mão ao ventre, mas não sente nada. Diferente do que deveria. Pergunta por seu bebê, onde está? Precisa vê-lo, ainda não era hora. O balançar de cabeça da irmã diz tudo que palavras não poderiam expressar e toda dor que ela já sentiu antes parece nada perto do que sente agora. Arrancaram seu coração de si, tiraram com força e ódio e nada vai poder consertar.

Chama por Arthur e por Henry, mas ninguém aparece. Chama os filhos, e grita e diz que as cores a cegam. Dizem que está a delirar, ainda que não possam explicar de onde veio o bebe que carregava. Se trouxessem o padre, como a mãe se fosse viva, teria querido, sem dúvidas diria que precisava exorcizar.

Como não tinha como evitar, os dias seguem passando. Antonella se recusa a sair da cama. Fecha os olhos por longo tempo, na esperança de que, quando abrir de novo, estaria vendo como deveria, em preto e branco. Mas nada faz as cores sumirem. Liga e desliga a televisão. O pai a manda guardar no sótão.

As fraquezas da saúde voltam, a cabeça não é mais a mesma e o corpo, esse mal consegue sair da cama. O coração, esse só lembra do riso dos pequenos que enchia a casa de barulho e do amor que deixou dividido em dois corações. Vê a aliança no dedo. Os nomes estão lá gravados no ouro que insiste em ser acinzentado, mesmo que insistam que só ela consegue ler.

Acorda a noite com o som do choro. É o choro de Francisco quando está doente, quando não consegue respirar. Precisa chegar até eles, precisa voltar. Sai da cama e cambaleia até a porta, segue até o sótão da casa. Procura o aparelho infame, que zomba da sua cara.

Encontra uma extensão e liga. Apenas chiados. Senta logo na frente e fecha os olhos ao tocar a tela. Pensa em Francisco e no seu choro, no sorriso da pequena Angelina, nos rostos de Henry e Arthur. Respira fundo abre os olhos. A tela ainda chuvisca em preto e branco, mas não apenas ela, tudo ao redor é em escala de cinza.

O primeiro sorriso em dias.

Desce do sótão com pernas ágeis que não tinham a minutos atrás, segue até o quarto e encontra Henry acalentando Francisco nos braços, Arthur logo ao lado com a pequena Angelina.

São abraços e afagos, mamães e amores. O mundo sem cores estava mais colorido que qualquer lugar que ela já esteve.

EPÍLOGO

Do lado de lá, amanhece em tons amarelados e suaves, com pássaros a cantar e Angelina procurando pela irmã ao notar o quarto vazio. Procura por todos os lados, chama seu nome, mas sem resposta. O pai desata a procurar também.

– Onde ela pode ter ido? Debilitada como estava…

Não precisam dizer, sabem que só iria atrás de uma coisa. Aquela máquina que produz chiados. Sobem ao sótão em passos apressados e encontram o corpo de Antonella caído ao lado da televisão. Já fria, ainda mais pálida que o habitual de sua pele de luar, mas a expressão é de quem repousa e está prestes a acordar.

O conto nasceu de um sonho e, assim, virou palavras imaginadas e depois escritas. É a versão da narradora e, não necessariamente, dos personagens.

  • Lunna

    Em 11.09.2018

    Boa noite Re,

    …só terminei a leitura agora.
    Mas, todavia, contudo… ainda preciso ler outras vezes.
    De preferência no papel. rs
    Gostei da trama que o conto expõe.
    Mundos paralelos sempre são interessantes-fascinantes. Quando menina bebia nessa fonte. Adorava escrever e transcrever o impossível. Tinha cada idéia insana-absurda sobre a ‘realidade’. Só mesmo os meus para considerar a escrita como possibilidade.
    Eu gostei imenso da maneira como a vossa escrita ‘caminha’. Há nela também um paralelo… e termos seus. Gosto quando o autor usa de recursos próprios de sua linguagem. Dá para reconhecer a pessoa-leitora-autora que és. E me obrigou a sair da minha zona de conforto.

    bacio

  • Retipatia

    Em 11.09.2018

    Oi Lunna!
    Acho que vou imprimir e mandar via Correio para você, ajuda? ahahah
    Eu acho que bebo dessa fonte desde sempre, apesar de ter certeza que esse conto, em específico, foi mais do tipo bebedeira mesmo… rsrsrs
    Que bom que tirei da zona de conforto (acho que é sempre interessante) e adoro saber que me reconheceu no texto, acho que se não tivesse isso, não seria meu, por assim dizer…
    Obrigada pela visita e por ler meus longos textos! ehehehe
    xoxo


CAPTCHA Image
Reload Image
%d blogueiros gostam disto: