Maio ♥ Bárbara Mançanares

Em 26.07.2018   Arquivado em Resenhas

Maio, redemoinho véspera de encerramento do primeiro semestre do ciclo anual. Mês, estado de espírito que tem sabor e sentido próprio, que foi bordado nas páginas de…

Maio

Coleção Yebá

Autora Bárbara Mançanares

Quintal Edições

a poesia não resolve a vida
não sossega a alma.

ela corrompe.

Sobre a Autora

Bárbara Mançanares cresceu no mato, nas ruralidades de Paraguaçu, onde tomou gosto pelas palavras e pelo cheiro da terra molhada. Foi fazer História e viver outras mais na UFOP. Anos depois, no Rio de Janeiro, mudou-se para o reduto dos mineiros com saudade das Minas e das Gerais, Santa Tereza, para cursar o Mestrado em Museologia e Patrimônio na UNIRIO. Atualmente, é presidente da Academia Paraguaçuense de Letras, pesquisadora e bordadeira.

nos manuais informais do ser artista
se diz mais sobre as máscaras
que sobre a nudez da alma.
mandaram-me ler os trsites
entregar-me à lascívia do álcool
(afinal, a vida é líquida)
e ao torpor da fumaça.
todos os itens dessa lista intelectual
não me transformaram em produto de promessas.
antes, uma caricatura borrada.
permaneço poeta de um mundo bruto
e remendo retalhos
em arcos de madeira.

Sinopse

Misto de poesia e sincretismo, o livro Maio é a conjunção de um amor não resolvido e de um pedido de paz – quase profético – por uma vida. Os versos são soltos e não seguem nenhum acordo ortográfico-religioso que dita como devem ser. A liberdade poética das descrições nos mostra uma autora que deve ser lida de dentro pra fora e que se descobre incognitamente junto aos leitores – leitores das metáforas do tempo e dos tantos relacionamentos com Joaquins, Fernandos, Diegos. O cenário do livro, por sua vez, existe talvez apenas no inconsciente de um Hamlet que todos nós possuímos; ele é um retrato da alma humana: ferida, doída, amada. A autora, que é historiadora e museóloga, se define melhor como poeta, fala sobre a subjetividade humana como fala do comum, traça versos sem rimas e dó, mostrando-nos a crueza e a beleza da poesia e da vida.

Maio

Talvez resenhar um livro de poesias seja tarefa quase impossível a ser cumprida. Ainda que haja um todo a ser analisado, cada uma delas é tão singular quanto como se fossem vários livros em um. Em Maio, são como os dias que compõem o calendário do quinto mês do ano, cada qual com seu clima e acontecimentos próprios e, ainda assim, interligados pela linha que os costura ao calendário.

Por isso mesmo, como boa bordadeira que a autora é, fez de Maio um bastidor, colocou tecido, alinhavou cores nas palavras, pontos acertados, espaçados e justos, quando necessário. Trançou cores para a estação primaveril que compõe o livro, e fez a mente passear nas arestas que dividem a obra em três nós bordados: A Estação, Seus Oráculos e E Abismos.

no fim, as mudanças de maio
ficaram tatuadas no peito de cada um
em formato de uma nova lua nascendo com seu
encanto sem procedência

e a gente pensava que o tempo fosse curar
que o tempo fosse dizer
mas o tempo só quer o que ninguém quer ofertar

os dias de vento e a claridade entre as árvores

N’A Estação de Maio, vemos insetos que começam o dia em tom laranja em prateleiras tortas que pendem como se fossem fios de linha. Pendem cartas de amor como pontos avermelhados que formam corações, e fizamos bordado inteiro pra ver se o tempo passava e fechava os rombos que a aprendiz de bordadeira deixou no tecido. O tempo, às vezes, não quer nada além de brilho de sol que vem pelas folhas como se fosse linha perfurando pano, essa é a verdade, ou o que ouvi dizer dela.

ai, deus
me salva da minha designorância
do que a vida há de ser para mim.
me livra da certeza

e tatua no meu peito nu
em meio à dor e à luz
qualquer possibilidade agridoce

que, na calada da noite, eu acorde serena
que, da luz que brilha e cega,
eu renasça doce e vermelha como uma maçã

e não me perca mais no obscuro
dessa minha solidão.

E então, fizeram da leitora oráculo, Seus Oráculos, com saber desmedido de medidas que às vezes transborda em copo que só quer estar meio cheio. Afinal de contas, tudo tem que vir em pontos bem balanceados e traçados, que só mão habilidosa e que já viu furos nas pontas dos dedos sabe do que se trata: “para ter luz / é preciso a sombra“. E, como bom oráculo, tem todas as respostas às mais variadas perguntas, faz procura a todo canto, mas só as encontra mesmo quando se acha.

na ânsia de trilhos,
o trem passa sem qualquer sutileza.

o homem não se importa com
o choro nem com as mãos;
viajar é preciso
e a saudade é permanência.
eu também já fui a muitos lugares que não conheço e
ainda há espaço para mais.

porque o homem é como um trem (porém, de uma sutileza
de fada).
e o trem, por entre montanhas e pedras e vidas,
chora seu apito.

E Abismos, repletos cheios de nós dentro de nós, pontos e traçados em cores e linhas e palavras. Tão confusos como ninguém deveria ser vez por outra, tão latente que faz querer dormir a eternidade e deixa aquele espaço em branco, que às vezes é só pedaço de pano ou papel em branco mesmo. Às vezes, é visita a se fazer, outras, vazio a se lembrar. Mas é sempre abismo, sempre poesia pincelada em bordado, que corrompe as linhas fracas, não resolve nada da vida, como já adianta, mas inquieta a alma.

São esses três pedaços de tecido bordado que compõem a leitura, que vai de clima a clima, de poesia a poesia, falando de amor perdido, daquele perdido no outro e daquele perdido na gente. É cheio de nuances e de metáforas, que podem significar uma coisa para quem lê, outra para quem escreve e mais outra ainda para quem relê, como uma estação, um oráculo e um abismo.

É poesia que se forma palavra-bordada-a-palavra-lida e faz pensar do lado de dentro antes mesmo de cogitar o lado de fora. A poesia nasce no olho de quem interpreta, faz mais ou menos sentido, mais ou menos beleza conforme o olho corre na textura da linha que muda de tom quando sai do verde da folha para o marrom do tronco. Sem deixar nunca de ser árvore.

Talvez seja como o Kid Abelha cantou, Maio já está no final, é hora de se mover, pra viver mil vezes mais, esqueça os meses, esqueça os seus finais… esqueça os finais… Maio tem a leveza que o nome carrega, mas também não tem fim, faz círculo com estação, oráculo e abismo, faz bordado com linha que muda de cor a cada ponto, mas que, ao afastar o olhar, compõe a figura, a forma, a cor e o tom, do que, irrevogavelmente, é, Maio.

Aleatoriedades

  • Poesia nunca esteve com frequência na minha lista de leitura. Quando Maio lançou, já gostei da estética, do nome – tenho apreço em coisas com palavra única de título, vai entender… – e fiquei a imaginar como seria saborear um livro inteiro de poesias, assim, como quem senta e borda uma peça inteira. Nem preciso dizer o quanto foi boa, né?
  • Maio faz parte da Coleção Yebá, que é deusa brasileira, parte da mitologia dos índios Dessana, e criou a si mesma quando nada existia, para depois criar o mundo. Não podia ter nada mais bonito do que ligar Yebá à literatura na qual a Quintal acredita: somos nós, mulheres, que nos geramos, para poder conceber também tudo aquilo que nos rodeia.
  • O livro foi recebido em parceria com a Quintal Edições, obrigada pela confiança e oportunidade, é sempre uma experiência única cada leitura! Os outros livros já resenhados da Editora por aqui, foram: Fadas e Copos no Canto da CasaIncômodo ContoO Que Ficou Por FazerBatismo, Noite Prateada, Molhada e Vermelha e Coroa de Leite.
  • As fotos dessa vez exigiram que eu desse um passeio no parque e levasse minha irmã como fotógrafa. Achei que o livro pedia fotos ao ar livre e, por alguma razão que só um oráculo vai saber responder, eu queria bolhas de sabão também… rsrsrs Uma pequena ginástica para fotografar, soprar bolhas e driblar o vento, mas sobrevivemos! eheheh
  • IMPORTANTE: Nenhuma bolha de sabão ou animal fora maltratado durante a sessão de fotos! Isso inclui o pássaro da sexta foto que posou para o clique de livre e espontânea vontade.

Maio, da Bárbara Mançanares e os demais títulos da Quintal Edições estão disponíveis na loja online da Editora, só clicar aqui e conferir!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Ouvindo: Maio – Kid Abelha (só na minha cabeça…)

  • Claudia

    Em 26.07.2018

    Oi Re
    Você me encanta com suas fotos! Adoro suas produções! E AMEI as bolinhas de sabão.
    Estou de olho nesta coleção desde que li outra resenha sua.
    Difícil desenhar poesias sim…pois elas são para serem sentidas e apreciadas
    Adorei seu post!
    Bjs mil

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Claudia!
    Ah feliz demais que gostou das fotos!!! As bolinhas de sabão não foram tantas como eu imaginei, mas até que curti o resultado… ehehehe
    Essa coleção Yebá é maravilhosa, aliás, a Quintal toda é maravilhosa e cada leitura que faço eu descubro um estilo diferente e algo que eu nem sabia que gostava tanto! <3
    Obrigada pela visita! <3
    xoxo

  • Lunna Guedes

    Em 26.07.2018

    Gosto de Maio, enquanto título, premissa. Enquanto palavra no papel e gostei dele escrito na capa de um livro, principalmente por ser poesia dentro. Sou leitora-voraz de poesia. Gosto de versos que são como tatuagem na pele, uma espécie de entalhe no amalgama.
    Eu deliro em verso. rs
    Suas fotos me fizeram lembrar um parque que visitei em BH na década passada… dois mil e quatro ou cinco. Não me lembro. Fiquei um tempão a observar as folhas no gramado e os detalhes do banco de madeira. Sim, esse é o meu grau de loucura. rs
    Inclusive ao vir para a zona sul nessa sexta sem carro em sampa, encontrei e colhi duas folhas do chão porque o outono sempre me encontra quando outras estações insistem pelos caminhos de hoje e sempre.
    Mas, vamos a poesia de Maio, não sei, realmente não sei porque maio é o mês das tempestades na pele, na alma, no cuore e eu simplesmente não sei… rs

    Mas, vou buscar pelo livro porque os versos que li tocaram os olhos e ficaram por ali… preciso mais.
    bacio

    Ps. Nível de loucura extrapolou o corpo, a matéria, aff
    Preciso dizer de quem é a culpa? rá

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Lunna!
    Gosto de quando extrapola, não se preocupe… rsrsrs
    Também gosto da palavra Maio e de tudo que pode fazer pensar. Essas foram foram mesmo tiradas em um Parque aqui em Beagá, quem sabe seja o mesmo? Eu adoro parar, sentar e observar as coisas quando posso, é um passatempo pra lá de interessante!
    E para de me falar das benditas folhas de outono aí de Sampa porque eu não consegui nenhuma em Belzonte pra mim, tá!? ahahah
    Quando ler me conta o que achou! <3
    Obrigada pela visita! <3
    xoxo

  • Ana Claudia

    Em 26.07.2018

    Linda, que Resenha! Vc deve ter visto lá no meu blog também que eu amo poesias! A gente tem sim que estar abertos a possibilidades, não acha? Pela poesia a gente consegue brincar com as palavras! Te agradeço por nos oferecer essa linda Leitura, com uma belíssima apresentação! Parabéns!!♥️

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Ana Claudia!
    Ah que delícia saber que também adora poesias! E estou amando essa nova vertente literária que abri espaço esse ano! Me encantei por Maio!
    Obrigada pela visita, fico feliz que tenha gostado!!! <3
    xoxo

  • Fernanda Akemi

    Em 26.07.2018

    Oie!!

    Eu sou apaixonada por poesias!! E realmente não é uma tarefa muito fácil resenhar um livro assim, mas a sua ficou maravilhosa e perfeita!! Gostei de todos os trechos!
    As fotos, como sempre, encantadoras e eu simplesmente amei a participação sensacional do passarinho!
    Adorei o post!

    bjs
    Fernanda

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Fernanda!
    Ah que delícia saber que uma apaixonada por poesias gostou da resenha! Foi bem difícil transformar os sentimentos em palavras, mas uma hora foi… eheheh
    O passarinho foi tão legal que nem cobrou pelo clique que apareceu… eheheh
    Obrigada pela visita! <3
    xoxo

  • Cilene

    Em 26.07.2018

    Se superando nas fotos e produção 🙂 Ainda bem que tem uma cúmplice para ajudar.
    Não vou dizer nunca, pois em algum momento da vida já devo ter lido poesia rs mas juro que não me lembro.
    Não é o tipo de leitura que eu gosto, mas pode ser somente uma implicância minha pois as pessoas sempre dizem que poesia é coisa chata, então criei minha crença limitante e fujo das poesias. Mas fiquei super curiosa pra ler como você tinha resenhado um livro desse gênero. E olha, pode até ser que eu continue não gostando de poesia, mas sua resenha eu adorei. A maneira como você descreve o livro ficou demais. Beijos

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Cilene!
    Own, obrigada! Super feliz com isso! A cúmplice vem sempre a tiracolo quando preciso! eheheh
    ahaha E eu super entendo o pré-conceito com poesia. Confesso que já tive, pensava que não entenderia, que nada faria sentido e que seria chato. Fui surpreendida por Maio esse ano e estou adorando quebrar esse conceito de que poesia não é para mim.
    Feliz que gostou da resenha e super acho que vale experimentar uma dose de poesia também! <3
    Obrigada pela visita!
    xoxo

  • Patricia Monteiro

    Em 26.07.2018

    Gosto tanto de livros de poesias, como um mosaico de histórias fragmentadas que precisam ter espaço para fazer ecoar suas verdades. Maio tem mesmo esse tom poético, talvez por ser o mês das noivas. É um mês romântico.
    Adorei a cor do esmalte combinando com a cor da capa! E o tom das bolinhas de sabão tb Mais uma produção fotográfica super esmerada, adorei

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Patricia!
    Maio é assim mesmo, já fazemos associações e damos a ele a cara que achamos que mais lhe combina. É pura poesia, com certeza!
    Feliz que tenha gostado das fotos (e do esmalte e das bolinhas de sabão! ehehe)! <3
    Obrigada pela visita!
    xoxo

  • Juliana Sales

    Em 26.07.2018

    Durante um tempo na minha vida eu não gostava de poesia. Sei lá, não tinha paciência… um dia, por acaso li um poema da Cecilia Meirelles e gostei tanto que quis ler mais. Li vários dela. Depois fui pra outros autores. E hoje, apesar de ler pouco poesia, gosto muito. Imagino que realmente deve ser difícil resenhar um livro assim. Mas você o fez muito bem, a poesia do livro transcendeu e achei sua resenha extremamente poética. Me deu vontade de ler o livro. Anotado aqui para ler futuramente. Ah, gostei das fotos ao ar livre, parece combinar mesmo com a mensagem do livro.

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Juliana!
    Acho que a gente muda muito o gosto ao longo da vida, pra todas as coisas e, inclusive, pra livros. Poesia lembro de ter lido quando era bem nova, mas não me cativava tanto, hoje, que estou experimentando mais, estou gostando da experiência e me encantando com o gênero de leitura. <3
    Feliz que tenha gostado da resenha e das fotos e, especialmente, que tenha ficado com vontade de ler o livro também! <3
    Obrigada pela visita!
    xoxo

  • Luana Souza

    Em 26.07.2018

    A Quintal Edições faz uns livros tão lindos e profundos! Faz tempo (muito tempo) que não leio poesia nem poemas, mas volta e meia recebo indicações de livros assim como o que você resenhou, e penso em voltar a ler esse gênero. Lia bastante quando era mais nova, mas fui parando…
    Olá, Rê. Suas fotos ficaram lindas *-* não sei se conseguiria posar assim num lugar público hehe.
    O que me fez ficar com vontade ler a obra foi a palavra “subjetividade” na sinopse. Eu adoro essa palavra, e ainda mais quando autores abordam as diferenças entre as pessoas por meio da escrita.
    beijos.

  • Retipatia

    Em 26.07.2018

    Oi Luh!
    Sim, a Quintal tem uma seleção fantástica mesmo, sempre leituras pra tirar a gente do lugar-comum! <3
    Eu não tinha muito o hábito de ler poemas e estou amando a experiência esse ano! <3
    Feliz que tenha gostado das fotos e eu nem ligo dos eventuais observadores... ahahaha Mas não se preocupe, se a gente não vai lá e tenta, a gente não faz mesmo, eu morro de vergonha pra muitas coisas nessa vida, mas pra algumas já desapeguei e nem ligo pro povo encarnado eheheh
    A leitura é bem subjetiva mesmo, na verdade, acho que toda poesia é. Depende muito mais de quem lê do que de quem escreve! <3
    Obrigada pela visita! <3
    xoxo


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