Perdas & Ganhos ♥ Lya Luft

Em 11.07.2018   Arquivado em Resenhas

A vida tem seu próprio condão, por vezes estamos em lugar desejando estar em outro, mas, ao chegar no famigerado outro, remoemos tudo aquilo que ficou para trás. O livro de Lya Luft tem título literal e fala exatamente sobre as perdas e ganhos que só quem chegou à maturidade sabe sopesar na balança.

Perdas & Ganhos

Autora Lya Luft

Editora Record

“Não sou a areia onde se desenha um par de asas ou grades diante de uma janela. Não sou apenas a pedra que rola nas marés do mundo, em cada praia renascendo outra. Sou a orelha encostada na concha da vida, sou construção e desmoronamento, servo e senhor, e sou mistério.

A quatro mãos escrevemos o roteiro para o palco de meu tempo: o meu destino e eu. Nem sempre estamos afinados, nem sempre nos levamos a sério.”

Sobre a Autora

Lya Fett Luft é uma romancista, poetisa e tradutora brasileira. É também professora universitária e colunista da revista semanal Veja.

Iniciou sua vida literária na década de 1960, como tradutora de literaturas em alemão e inglês. Luft já traduziu para o português mais de cem livros. Entre esses, destacam-se traduções de Virginia Wolf, Rainer Maria Rilke, Hermann Hesse, Doris Lessing, Günter Grass, Botho Strauss e Thomas Mann.

Formada em letras anglo-germânicas, Lya tem mestrados em literatura brasileira e linguística aplicada pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Sinopse

Lya Luft é uma mulher de seu tempo, e sobre ele dá seu testemunho em tudo o que escreve, especialmente neste novo livro. Uma mulher madura que já experimentou perdas e ganhos, mas mantém o otimismo, ama a vida, se diz “um bicho de sua casa” — embora pouco doméstica, considera sua família o centro da vida, e a vida mais importante do que a literatura. Neste primeiro livro seu publicado pela Record, a romancista, cronista e poeta convida o leitor para refletir ao seu lado, indagar, contemplar e admirar o mundo. “Não somos apenas vítimas de fatalidades”, diz. “Somos também senhores de nossa vida.”

Num misto de ensaio e memórias, em PERDAS & GANHOS versão de bolso, Lya retoma diversos temas de O rio do meio — livro publicado em 1996, vencedor do prêmio de melhor livro da Associação Paulista de Críticos de Arte. Considera o ser humano ao mesmo tempo bom e capaz, fútil, medíocre e até cruel. Embarcado numa vida que é um dom, um mistério, e uma conquista a cada momento. Lya acredita que “a felicidade é possível, que não existe só desencontro e traição, mas ternura, amizade, compaixão, ética e delicadeza.” Sobre isso dialoga, aqui, com seu leitor.

Entre alegrias, descobertas, decepções e buscas, em PERDAS & GANHOS — livro inédito desde as memórias de infância Mar de dentro, publicado em 2002 — a autora busca dar um testemunho pessoal sobre a experiência do amadurecimento. Convoca o leitor para ser seu amigo imaginário: cúmplice e companheiro de reflexões que vão da infância à solidão e à morte, ao valor da vida e à transcendência de tudo. Lya divaga, discute e versa, com ímpeto, compaixão, e muitas vezes bom humor, sobre velhice, amor, infância, educação, família, liberdade, homens e mulheres, gente de verdade… e conclui que o tempo passa mas as emoções humanas não mudam, revelando que é preciso reaprender o que é ser feliz.

Um livro sensível, delicado e inquietante de uma das mais importantes escritoras brasileiras da atualidade, premiada pela crítica e consagrada pelos leitores.

Perdas & Ganhos

Perdas & Ganhos foi meu primeiro contato com a obra de Lya Luft e, por mais que o livro possa ser do estilo autoajuda, que não é muito o meu estilo, foi uma leitura rápida, leve e que surpreendeu, do começo ao fim, como um acalento em um momento necessário, algo como uma conversa com a avó que lhe diz dos mistérios da vida, aqueles que ainda não descobrimos e que, na avidez de querer perseguir algo, acabamos nos esquecendo de considerar tudo o mais que está ao redor.

“Rimos, porque acabamos descobrindo que os dois buscamos a mensa coisa: encontrar o nosso tom. O da nossa linguagem, da nossa arte, e – isso vale para qualquer pessoa – o tom da nossa vida. Em que tom a queremos viver?”

Isso tudo porque o que Lya faz, logo no começo do livro é um convite, para que o leitor se disponha a pensar e papear com ela. E, ela não perde o fio da meada na conversa, leva a gente de um pensamento a outro, de uma vivência à outra e, querendo ou não, fazendo, antes de mais nada, desanuviar a mente e refletir. Sobre tudo que foi um dia e tudo que está por vir.

O tema principal, aquele de sempre, que está estampado todo canto: ser feliz. E ela começa tecendo esse assunto falando da inconstância que somos, em como atribuímos de valor e forma tudo aquilo que está ao nosso redor. E em como essa nossa perspectiva é construída dia após dia, desde a nossa infância. Somos resultado de uma mistura genética, como ela destaca, somos uma mistura do que nossos pais foram um dia, mas também somos mais que isso, somos também a visão da sociedade a nosso respeito, o que ela chama de olhar onipresente do “o que eles vão pensar“. E, nesse ponto, ela traz um ponto importante de cada um: a autoestima. Não como um ver-se melhor que os outros, mas algo próximo da citação que ela própria traz de Érico Veríssimo “Eu me amo mas não me admiro.“. É algo como ter opiniões e, mais do que isso, ser capaz de sustentá-las quando necessário, que não sejam vazias e baseadas no que hoje chamaríamos de cultura do achismo.

“Penso que no curso de nossa existência precisamos aprender essa desacreditada coisa chamada ‘ser feliz’.”

Para que tudo isso seja construído, é necessária uma boa base, que ela vai apontar como sendo a família. Lembrando sempre que um ambiente familiar duro não é benéfico para as durezas da vida, é afeto que nos prepara para isso. É esse vínculo familiar que dá a autoestima-base suficiente para que cada um se permita amar e ser amado e que seja capaz de lutar nos momentos necessários.

Lya conta uma fábula. A morte aparece para um homem e lhe pede três razões para que o deixe viver. Três boas razões, que não incluam as pendências dos negócios, a garantia da subsistência ou estrutura familiar. Por que ainda valeria a pena deixá-lo viver? A autora conta que em outro livro, que encarava a Morte era uma mulher e lhe são impostas as mesmas restrições para apontar as razões. E, a questão aqui está bem mais centrada nas nossas próprias razões do que em resposta certa ou errada. Quais seriam nossas três boas razões para continuar a viver?

“Somos transição, somos processo. E isso nos perturba. O fluxo de dias e anos, décadas, serve para crescer e acumular, não só perder e limitar.”

Cada passo em nossa vida é transformação, alguns mais dolorosos e penosos, outros mais leves e alegres, mas, fato é que “somos sempre melhores do que imaginamos ser“. Para trabalhar essa linha de raciocínio, ela conta sobre uma pesquisa que fez com grupos de mulheres para debater a maturidade. Falaram sobre casamento, filhos, sexualidade, escolhas, carreira, família, amor. De tudo um pouco. E, dos maiores e mais comuns pesares, são as escolhas deixadas de lado as que mais se lamentam, mas a balança, quando medida, sempre pesa dos dois lados. É viver no mundo do o que se espera ao invés de o que se almeja. Porque, felicidade está em não desistir do que quer e buscar por aquilo apesar dos pesares da vida. E isso vale também para a vida a dois, para que o amor possa ser cultivado depois do furor da paixão.

Para tudo isso, cada um precisa ser honesto para consigo, porque “somos demais preciosos para nos desperdiçarmos buscando ser quem não somos, não podemos, nem queremos ser.“. E, assim temos que ser amigos de nós mesmos, e não lamuriar pelo passar do tempo que está fora de controle. Sobre o tempo, este, a autora diz que não existe, não como um ser onipresente que irá determinar que agora, é só ladeira abaixo. A questão está em como encaramos as fases que passamos pela vida, como iremos reagir a cada uma delas. É bem mais sobre assumir a beleza e particularidades que cada fase nos permite, sem preocupar-se em ser aquilo que não o é. Comparar-se hoje, com quem foi a 10, 15 ou vinte anos atrás (ousaria dizer que mesmo há um ano atrás) dificilmente será justo com quem você é agora. Afinal, somos continuidade de nós mesmos.

“A felicidade é assim: cada um, a cada dia, aceita a que o mercado lhe oferece… ou determina a sua.”

O principal são as escolhas que faremos, se seremos grandes pessimistas, excessivamente otimistas ou sensatos para lidar com todas as adversidades da vida. Se vamos aceitar com inteligência a passagem do tempo, como algo natural a todo ser e usar tudo aquilo que foi percorrido como base para continuar a crescer, porque, sem dúvidas, não há tempo ou idade para se fazer o que bem entende, para seguir um sonho, casar-se novamente ou começar a estudar. O tempo é o nosso tempo e só estará acabado quando assim o tratarmos.

Aleatoriedades & Quotes

  • “É uma ideia assustadora: vivemos segundo nosso ponto de vista, com ele sobrevivemos ou naufragamos.”

    “Autoestima é o que me vem à mente. Visão positiva, não cor-de-rosa ou irreal, significando confiança. Capacidade de alegria, busca de felicidade, crenças. O que de melhor posso fazer, como ser inteiro e feliz, dentro de minhas possibilidades – que geralmente extrapolam aquilo em que acreditamos ou nos fazem crer.”

    “Que no espelho posto à nossa frente na hora de nascer a gente ao fim tenha projetado mais que um vazio, um nada, uma frustração: um rosto pleno, talvez toda uma paisagem vista das varandas da nossa alma.”

    “Quando as coisas parecem muito ruins, ensinou-me uma amiga, pode-se indagar: ‘é tragédia ou chateação?'”

  • O livro da foto foi emprestado do acervo da biblioteca do meu trabalho, porque, é claro que, quando descobri que existia uma, fui ávida querer pegar livros… Saí de lá com esse da Lya Luft e o exemplar de Lolita, do Vladimir Nabokov, que ainda vou ler e resenhar por aqui.
  • As fotos foram bem pouco ousadas e tem tempos que fiz, mas estava super enrolada no dia porque precisava devolver o livro e a resenha não estava nem no rascunho ainda… e tem meses que fiz essa leitura. Aos poucos coloco todas em dia!

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Ouvindo: Girls Just Wanna Have Fun – Cyndi Lauper (only in my mind…)

  • Juliana Sales

    Em 11.07.2018

    Gosto muito dos livros da Lya Luft! A forma como ela escreve me traz muito reconhecimento, como se ela escrevesse para mim ou falasse de coisas que eu acreditei que somente eu pensava e sentia. Perdas e Ganhos foi um dos primeiro livros dela que li, já faz alguns bons anos. Gostei muito de ler seu post sobre esse livro, as suas palavras me trouxeram um vontade de reler essa obra e ver qual minha relação com ela agora. E vou faze exatamente isso, tirar o livro da estante e dar uma folheada. E as fotos estão lindas, gosto muito das composições que você faz.

  • Retipatia

    Em 11.07.2018

    Oi Juliana!
    Tive a mesma sensação com esse leitura, é um papo agradável e, ao mesmo tempo, faz a gente ver que tem os mesmos pensamentos de outras pessoas e passa pelos mesmos receios. Certeza que será uma delícia reler esse livro depois de vários anos, será pura redescoberta! <3
    Feliz que tenha gostado das fotos! <3
    Obrigada pela visita!
    xoxo

  • Claudia

    Em 11.07.2018

    Oi Rê
    Eu também li e adorei este livro da Lya!
    Também me surpreendi com a leitura.
    Que bacana que tem uma biblioteca no seu trabalho!
    Suas fotos são sempre maravilhosas, eu adoro
    O post ficou ótimo
    Bjks mil

  • Retipatia

    Em 11.07.2018

    Oi Claudia!
    Ah que legal saber disso, também foi uma surpresa muito boa essa leitura! E ter uma biblioteca no trabalho é das melhores coisas, sem dúvidas! <3
    Feliz que gostou das fotos!
    Obrigada pela visita!
    xoxo

  • Ana Claudia de Angelo

    Em 11.07.2018

    Fiquei muito instigada a ler! Já havia ouvido falar da história, porém você a abordou de forma linda aqui! Obrigada pela dica!

  • Retipatia

    Em 11.07.2018

    Oi Ana Claudia!
    Que bom que gostou, fico feliz que tenha se interessado pela leitura! <3
    xoxo

  • Ana Claudia

    Em 11.07.2018

    Amei!!♥️

  • Lunna

    Em 11.07.2018

    O primeiro livro que li da Lya foi por causa de outra autora brasileira… a Lygia Fagundes Telles, que a citou em um escrito dela. Fiquei curiosa (como de costume) e lá fui atrás da mulher. Devorei dentro do ônibus o livro “em outras palavras” e fiquei intrigada com o ritmo-estilo dela. Depois li ‘o tempo é um rio que corre’ e recentemente li ‘pensar é transgredir’. O que gosto na escrita dela é que dá para ler em pequenos goles, como chá ou café. Ler e passar um tempo a desfrutar do aroma entre os sulcos do corpo-alma.
    Gosto imenso da maneira como ela escolhe temas comuns para abordar.
    Se pudesse escolher uma tatuagem para a minha pele seria a frase dela: “amadurecer devia ser refinar-se”. Gosto imenso. Mas eu prefiro as crônicas dela. Já li um romance, mas não falou comigo, ficou pelo caminho, ao contrários das crônicas dela.
    Em perdas e ganhos, eu gostei da maneira como ela tratou o tema e a conclusão: “a felicidade não está nas prateleiras da lojas-mercados… não há diferentes marcas-modelos. E não interessa o quanto está disposto a pagar por elas. rs
    Vou ter que ler de novo essas páginas, lá vou eu para a prateleira. ai ai ai
    bacio

  • Retipatia

    Em 11.07.2018

    Tá aí mais uma que preciso degustar a leitura: Lygia Fagundes Telles! Aproveita e me recomenda algo dela pra eu começar! <3
    Quero ler outros da Lya, ainda não sei qual estilo vou gostar mais, mas com certeza algo que me agradou é esse ponto que você destacou, os temas tão comuns e tão vastos que ela escolhe e passa a prosear com a gente. É um chá de gole em gole, mesmo! <3
    E eu acho que, aos poucos, amadurecer será visto a todos como refinar-se. Como há tempos atrás em que anciões eram respeitados pelo simples passar do tempo de suas vidas. <3
    Sem marcas nem nada, essa é das mais belas conclusões, sem dúvidas! <3 Apaixonei-me por Perdas & Ganhos! <3
    E leia mesmo, vale demais! eheheh <3
    Obrigada pela visita! <3
    xoox

  • Bruna Bueno

    Em 11.07.2018

    gostei de conhecer o livro e a autora pois nao conhecia e vi que ela tem uma grande bagagem ja que alem de escritora é poetisa e tradutora me pareceu ser um livro que nos surpreende muito no final
    beijos

  • Retipatia

    Em 11.07.2018

    Oi Bruna!
    Ah que bom que gostou de conhecer a Lya Luft! Ela realmente tem uma carga enorme e o livro inteiro traz uma mensagem muito boa para a vida! <3
    Obrigada pela visita!
    xoxo


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