Batismo ♥ Flávia Ruiz

A vida é um eco, cheia de repetições, momentos e lugares comuns que fazem de tudo um verdadeiro ritual de batismo, do nascimento à morte. Batismo, da autora Flávia Ruiz e publicado pela Quintal Edições, é esse ciclo, repleto de coincidências das vidas das mais diversas pessoas e, do mesmo modo, da vida de cada um de nós.

Batismo

Flávia Ruiz

Quintal Edições

“Eu ainda me lembro como se tivesse acabado de acontecer. Do jeito que a gente se lembra verdadeiramente das coisas. Feito uma ferida, há muito cicatrizada, da qual a gente esquece, até bater com ela numa quina qualquer, para vê-la rasgar, e doer, e sangrar como no primeiro momento. Na verdade, muito pior. Feridas não se reabrem sem cobrar o devido preço.”

Sobre a Autora

Flávia Ruiz é escritora, roteirista e jornalista. Começou a escrever ainda na infância e a escrita permanece sendo sua seríssima brincadeira favorita. Em 2010, ganhou o 2º lugar no concurso Contos do Rio, do jornal O Globo, com o “Encontro com um amigo morto”. Carioca da gema, nasceu, foi criada e, depois de algumas mudanças, voltou a morar no tradicional bairro da Tijuca – mas vive mesmo é em outro planeta: o das boas estórias.

Sinopse

Cada palavra deste livro é o resultado de uma costura dedicada e delicada. O Rio de Janeiro dos anos oitenta e os outros personagens que fascinaram Judy Vianna, a personagem-narradora, assombram e encantam através do forte fluxo de pensamento que a autora, Flávia Ruiz, escolheu para nos contar esta história. Na narrativa, drama e humor são fiados com uma destreza ímpar.

“Seria uma história muito interessante se eu contasse de grandes horrores que nós tivéssemos passado naquela escola. As pessoas têm uma queda por horrores. Talvez porque elas só enxergam alguma coisa quando ela está magnificada um milhão de vezes diante dos seus olhos. […] o que eu quero dizer é que para um observador comum não tinha quase nada acontecendo naquele lugar. Nenhuma explosão. Antes tivesse.”

Judy pensa, pensa, pensa e sente muito. Nos insere com uma mão sedutora na roda de suas vivências com a família, as amigas, as freiras da escola só para meninas, os meninos, a porta de vidro, o cruzamento e tantos outros personagens desta riquíssima história. Tudo isso costurado com a beleza da simplicidade visceral.

Cinismo, amor, autoridade, construções identitárias e muito mais são expostos como uma fratura.

“Na hora do recreio só se falava nisso, mas ninguém teve coragem de perguntar pra Milena o que tinha acontecido. Eu, por outro lado, não ia querer saber de forma nenhuma. Eu já sabia o suficiente: o que quer que acontecesse, eu jamais iria ao banheiro no meio de uma aula.”

Lemos e nos apaixonamos pelos personagens como se cada um deles fosse alguém íntimo ou uma parte de nós. O estilhaçamento narrativo aguça os sentidos e nos leva a questionar quem seríamos nesta ciranda. Um? Todos? Uma certeza: a história nos faz rir e nos comove.

Batismo

Prazer, Judy. Essa é a primeira frase que vem à cabeça ao pensar em Batismo: foi um prazer conhecer a menina-adolescente que nos narra alguns anos de sua vida no Rio de Janeiro da década de 80, em especial, aqueles em que ela estudou no Colégio Santa Maria da Penitência e, sem dúvidas, os que mais marcaram essa fase, já tão costumeiramente conturbada da vida de qualquer pessoa.

“E aí, o apocalipse.
A porta da sala se abriu após dois toques. Um golpe de ar afastou o cabelo que caía no meu rosto.
As palavras de desgraças e sofrimentos intermináveis ainda ecoando na minha cabeça. E ela entrou.”

Mas, Judy não é qualquer pessoa, não é mesmo? É ela quem tem que cuidar para que a mãe não entregue o carro para um desconhecido na rua; quem tem que assegurar que a porta de vidro de seu apartamento – a única do prédio inteiro com os originais – não vai se estilhar em um fatídico dia de vento. Afinal, dias de vento são muito perigosos e Judy sabe tão bem disso quanto o céu é azul. Ou o quanto o cruzamento que aparece em seus sonhos pode ser desesperador.

“As pessoas gostam de gente assim, que troca os sapatos de pé e vive rindo. E isso não era ruim, não. Ruim era que ela também gostava das pessoas. Todas as pessoas. Absolutamente qualquer ser humano, minha mãe achava de gostar. E não era um gostar tipo teórico e filosófico, não. Era gostar tipo conhecer e cinco minutos depois convidar pra tomar um lanche na nossa casa ou coisa do gênero.”

O Colégio Santa Maria da Penitência é quase alma viva, um lugar em que qualquer respirada mais profunda é motivo para ir pensar no canto escuro da sala. Mas não Judy, é claro, ela se orgulha de nunca ter estado em nenhum deles e de ser uma garota exemplar, que nunca sequer precisou ser repreendida. A sala da Madre Superiora é um lugar sacro o qual a adolescente pretende continuar mantendo distância respeitosa, como das artes as quais não se pode observar de perto nos museus. É bem mais seguro assim, não é mesmo?

“Porque se eu estivesse com dor alguém me daria um analgésico ou me mandaria pra casa ou, ao menos, me levaria a sério. Não existe nada para coceira. Nada. Nem pena. Já viu alguém dizer que vai faltar a aula porque está com coceira? Pois é. Um inferno. Ninguém respeita um troço grave desses.”

Pelo menos é o que Judy pensava, até que, para atrapalhar todo o frágil (ou seria bem articulado?) sistema de sua vida, surge a anomalia. Claro que ela tem nome e sobrenome, como todas as outras garotas do Colégio, mas, nenhuma delas troca beijinhos carinhosos na porta da sala de aula com a mãe ou diz tudo que vem à cabeça, especialmente quando é a irmã Gretta quem está lecionando.

“Se existisse mesmo algum tipo de Deus, ele nunca permitiria o sofrimento de uma menina que, além de ser chamada de gorda e estranha, tinha que passar a vida fazendo cocô de azeitona nas calças. Ou o de uma menina que tinha o nome lindo de princesa e uma mancha vermelha, dantesca, bem no meio da cara. E, ainda, o da menina que teria uma vida perfeita se tivesse nascido homem. Ou, ao menos, tivesse ido parar em algum lugar onde as pessoas não fossem massacrar ela só por ser um pouquinho diferente. Marte, Júpiter ou algum outro lugar desse tipo.”

A partir daí a vida de Judy se desdobra, ou dobra de novo e a autora nos mostra, com humor e realidade sinceros, que adolescência é muito mais que época de descobertas, é tempo de crescer, quebrar paradigmas, formar novos e aprender com erros, ainda que dos outros.

“Mas certo e errado são duas coisas que não importam muito quando se tenta resolver um problema. Já naquela época, eu pensava que era preciso escolher entre ter o que se quer ou ter razão. Ter as duas coisas me parecia muito raro, se não impossível.”

Judy é nossa estrela-guia, entramos em sua mente e pensamentos e rimos e choramos com ela, por vezes literalmente, ainda que não vertam lágrimas. O que mais encanta nisso é a veracidade das palavras da menina, que vão do mais sutil preconceito ao mais arraigado deles. Não porque Judy queria ser uma garota má, pelo contrário, ela se esforçava para ser uma das melhores alunas invisíveis da sala, se lembra? Irrepreensível.

“Num certo ponto, eu comecei a me questionar se não era eu quem estava fora da realidade das coisas. Quem podia saber? Se meu pai, por exemplo, acordava em determinado dia achando que era um imperador da Roma antiga (e esse tipo de coisa acontecia direto, sem brincadeira), pra ele aquela era a realidade, não importa que tudo ao redor e todas as pessoas do mundo dissessem o contrário. Vai ver eu estava feito ele. Não fora de mim, mas fora do mundo.”

A questão toda é bem trabalhada quando os relatos nos são apresentados, sendo comum a ideia do ‘antes ele do que eu’ ou mesmo, das ideias que a sociedade ensina e que, apenas a vida, às vezes por aconchegos, às vezes, pauladas, faz questão de ensinar.

“De repente começou a me dar um medo danado. De tudo. Pior. De mim mesma, eu acho. E esse é o pior tipo de medo porque não tem escapatória.”

Isso tudo porque Judy é gente como gente, cheia de defeitos e, no vislumbre de algo que poderia ser tudo o que ela não tinha a coragem de ser, se vê ameaçada. Seus rituais, crenças e tudo o mais. Não dá pra ser melhor que é agora, não é? Não dá pra mudar toda uma escola, dá? Ou todas as alunas, quem sabe? Não faz sentido questionar quando é muito mais fácil manter o status quo, dizer amém e baixar a cabeça, não é mesmo?

“Eu era, eu era, eu era outra coisa que eu não queria ser. Perfeita. Uma coisa horrível da qual eu já não podia escapar e agora eu ia ter que viver dentro de mim mesma sabendo.”

Anomalia Bruna é mais que garota decidida, que sacode a poeira e não aceita ver injustiças, ela é um ideal, um paradigma. É quem todos queremos ser e, seja por medo, preconceito, falta de coragem ou porque os valores seguidos estão equivocados, ignoramos, repreendemos, invejamos, maltratamos ou qualquer outra coisa. Isso porque ela faz barulho, incomoda, como uma boa anomalia deve ser. E é dos melhores incômodos que poderiam passar pela vida de alguém, especialmente na vida de Judy, que não se recusa em sair de seu lugar-comum, porque, por mais desconfortável que ele seja, ele ainda lhe pertence.

“A coisa mais incrível do mundo. Feito descer uma ladeira, de bicicleta, os olhos fechados e os braços abertos, sem medo de trombar numa cerca mais adiante. Feito alçar voo, sabendo, com toda a certeza, que não há como cair. O vislumbre de uma realidade presente e, ainda, desconhecida. O melhor segundo da vida de qualquer pessoa.”

E esse é o lugar-comum que a faz visitar o pai internado num hospício, que a faz querer que a vida seja a mesma de quando Bruna não era amiga das suas amigas, quando suas dificuldades se resumiam a convencer a mãe da prima a dar uma festa de aniversário para a filha, quando o garoto do Colégio dos padres era ainda meio desconhecido e não aquele em que ela deu um beijo. Ou talvez que ela não precise se importar que a mãe deu todo o dinheiro de sua poupança para um desconhecido. Salvar a porta é bem mais importante que quebrar o braço. Claro que é.

“O final que sempre me disseram acontecer nunca acontece. Nunca.
Também não acontece segunda chance. Não do jeito que a gente imagina.”

E não somos todos um pouco Judy? Ou um pouco como a prima, a mãe controladora da prima, a mãe que certamente perdeu algum parafuso quando o marido enlouqueceu, um pouco como o garoto que sabe a cor preferida e o nome de seu flerte, mesmo nunca tendo trocado uma palavra sequer. Somos também como a anomalia que joga um prato de comida na parede e vai parar na sala da Madre Superiora.

“Alguém devia ter me avisado que não ia ter outras vezes. Que nada tem outras vezes. Que nada é desperdiçável. Que tanto sentimento assim, não consumido, ia fica pairando em algum lugar entre a vida e a eternidade como alguma coisa que nem foi, nem pode ser mais. Devia ter sabido. Feito ela. A Bruna. Ela sabia, de alguma forma. E até penso que ela tentou avisar. A todas nós. Do jeito dela. Mas eu não entendi. Feito eu não entendia todo o resto sobre ela.”

Batismo é como o ciclo da vida, de aprendizagem contínua, que faz a gente crescer e, por vezes, sentir que nasceu de novo, porque o tombo anterior, desse a gente jurava que nunca ia conseguir levantar. É como pensar que, ‘ainda bem que não é meu problema‘, e se lembrar que, se não é seu problema, significa que você é parte do problema. Confuso, não? Mas é mais ou menos assim. É saber que todos têm limites, sejam eles invisíveis ou visíveis e que um prato na parede pode ser muito mais que um mero ato de rebeldia, pode significar o brilho inteiro de uma vida.

“O padre jogou água na cabeça do bebê. Ele desandou a chorar. Tive tanta pena. Aquilo era só o começo. Porque nada nunca acaba. Estamos todos sempre num eterno batismo. Em algum tipo de rito de passagem para sair do outro lado como alguma coisa diferente, sempre esperando que essa alguma coisa seja melhor do que já foi antes.”

Flávia Ruiz me encantou do começo ao fim da história de Judy e de todas as garotas e mulheres que são ali representadas, com o humor leve, que traz riso e descontração, ela balanceia como ninguém as frustrações e violências cotidianas que a vida pode impor a alguém. É, sem dúvidas, um livro para descontrair e fazer pensar, sair do lugar-comum, mas especialmente, para querermos ser, ao menos, uma anomalia.

“E ela sabia que eu sabia o que era só querer ser outra pessoa. Uma pessoa que anda com o rosto limpo, que caminha por todos os espaços como se fossem seus, que olha direto e sem reservas, feito alguma coisa sem proteção porque sem medo, feito uma ferida aberta…”

Aleatoriedades

  • O livro Batismo faz parte da Coleção Yebá, da Quintal Edições, que leva o nome da deusa brasileira, parte da mitologia dos índios Dessana, e criou a si mesma quando nada existia, para depois criar o mundo. Não podia ter nada mais bonito do que ligar Yebá à literatura na qual a Quintal acredita: somos nós, mulheres, que nos geramos, para poder conceber também tudo aquilo que nos rodeia.
  • Batismo foi recebido em parceria com a Editora, mais uma leitura que me fez viajar por uma nova história e ter sentimentos dos mais diversos. Os outros livros da Editora já resenhados aqui, foram: Fadas e Copos no Canto da Casa; Incômodo Conto e O Que Ficou Por Fazer.
  • Quando fui fazer as fotos pra esse livro comecei no tradicional flatlay (fotografia de objetos disposto em superfície plana e fotografados de cima para baixo), que rola muito por aqui, já que acho sempre uma boa opção para mostrar os detalhes dos livros. Cheguei a montar um flatlay pra essa sessão, mas mexia e mexia nas coisas e nunca estava bom, precisava de um ângulo mais “bagunçado“, talvez fruto de alguma anomalia, vai saber… Daí surgiram esses cliques e fiquei bem mais satisfeita, às vezes é bom sair do lugar-comum, né?
  • Apesar do título do livro, Batismo não é um livro sobre religião. Ela está presente tanto quanto outros aspectos comuns à vida adolescente da personagem, sendo marcante, claro, pelo ensino que a personagem tem no Colégio de freiras o qual frequentou.

O livro Batismo, da Flavia Ruiz, está disponível para compra na loja online da Quintal Edições.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Ouvindo: Saturday Sun – Vance Joy

Repense, renove, rediscuta...

    • Oi Claudia!
      Obrigada! O liro é muito incrível, de uma intensidade diferente e humor ímpar! Do tipo que faz a gente se ver na vida! <3 Feliz que tenha gostado das fotos! <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo

  1. Gosto de ler suas resenhas porque elas são sempre super completas. Dá pra saber com certeza se a gente vai gostar do livro ou não. E esse é um livro que eu gostaria de ler. Não conhecia a autora mas o tema abordado me chamou a atenção. Um ponto a mais porque se passa nos anos 80 e eu adoro histórias que se passam nessa época. Vai pra lista de leitura.

    • Oi Juliana!
      Own, obrigada! Feliz em saber que gosta das resenhas daqui, sempre são feitas com muito carinho! Eu me surpreendi com a leitura de Batismo, achei que acharia legal, mas só. Mas a autora me mostrou que sabe cativar o leitor, prender a leitura, contar uma boa história e ainda trazer tanto ensinamento, só de mostrar erros tão comuns. E a vibe de 80 também é bem legal, sem celulares (que faz a gente pensar em como tanta coisa era igual e, ao mesmo tempo, diferente) e com várias referências à época. <3
      Obrigada pela visita!
      xoxo

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