A Construção da Primavera ♥ Adriana Aneli

Em 05.05.2018   Arquivado em Resenhas

Imagine começar o dia em plena primavera, caminhar pelo calor do verão, desabrochar no cair do outono e finalizar o dia com o frio do inverno… O livro-diário de mini contos-poemas-relatos chamado A Construção da Primavera, da autora Adriana Aneli, permite exatamente este passeio apaixonante pelas quatro estações do ano…

Diário das Quatro Estações: A Construção da Primavera

Autora Adriana Aneli

Editora Scenarium Plural

“… quando um livro é bem escrito, a poesia acontece e interfere na pele, na alma… a partir dos olhos.”

Sobre a Autora

Adriana Aneli… nascida e vivida em São Paulo desde 1976. Aos 13 anos acreditou que a literatura era mesmo um bom negócio: depois de lançar livros, fazer recitais (vestida de mamãe Noel em cima de um caminhão) e ganhar um programa de rádio para chamar de seu, achou que estava errada e foi fazer Direito. Após sua metamorfose de décadas, redescobre a Tempestade Urbana e com Boca a Penas está de volta ao Scenarium.

Sinopse

O ano se divide de muitas maneiras. Novo e velho… com seus doze meses e cinquenta e duas semanas inexatas. Dentro de tudo isso ainda há outras somas possíveis. Fases lunares e as estações do ano. Dias de sol-chuva-quentes-úmidos-frios. E é dentro de tudo isso que se desenha ‘a construção da primavera’ de Adriana Aneli, passageira de uma realidade onde tudo se mistura. São cenas possíveis-prováveis para quem desperta sem certezas e atravessa o dia contornando com o olhar os mapas de suas vivências.

Construindo as Estações…

Chegou o cheiro de vento frio e chocolate quente, ideal para um resfriado mais forte e cobertas grossas. Deixar o corpo curar sozinho ao admirar o céu cinzento, as roupas grossas como o humor da estação, que, de uma forma ou de outra, faz limpar as impurezas.

“Gripe. O corpo dói por inteiro. Não tomo remédios e deixo a doença seguir seu ciclo.

Padeço o autoconhecimento; não vou apressar as coisas.”

O gelo de tudo derrete, ainda que a neve não tenha caído. Forma lamaçal, mas vem também o abrir preguiçoso das flores, a mariposa vem e vai como os projetos que acabam, ou começam, se fazem e finalizam, porque tudo floresce, tudo cresce, até…

“Dia de visitas…

No entardecer, também recebo o ouriço cacheiro e uma mariposa gigante.

O ouriço enrola-se em si mesmo quando se sente ameaçado. A mariposa voa para longe. Preciso decidir com qual dos dois me identifico.”

… torrar no sol que derrete o picolé doce e colorido na mão. Impossível ficar parado, o chocolate derrete nos dedos como se estivesse na boca, a vontade de dizer sai daí, de mover tudo, fazer certo, se tá errado. Subir na bicicleta e ver as pessoas fazendo coisas por amor.

“Também sou colecionadora. Não acumuladora. Há diferenças. Ouço as histórias que os objetos contam: desejos e dores humanas testemunhadas em segredo.”

Só que ciclo só se completa em quatro, fazendo tudo esmaecer. Tudo mesmo, a pele, a carne, o sol, o calor, a vida, a luz e o verde. Mas também é ameno, como vapor do banho e passar do tempo. Tudo é alaranjado, seco, avermelhado e cor de terra. É esse tom que houve na violência da convicção do dia-a-dia.

“Faço um pacto irrevogável com o tempo: ele passa, eu me conformo.

Aprecio o autorretrato que se forma. Arredondado e em tons pastéis, abranda-se o meu destino.”

São as sensações, sabores e cores de A Construção da Primavera, um diário de relatos, contos, poemas, poesias, acordes, linhas e laços, retalhos do que representam cada estação do ano. São detalhes cotidianos, como um acontecimento que se vê na TV, com um vizinho, a sensação de agrado ou desagrado pela temperatura, o sentir de que o corpo e mente funcionam em rotações distintas quando cada um desses fatores de alteram.

Adriana Aneli faz um relato da vida da narradora, mas, na verdade, é o leitor quem relata sua própria vivência na leitura, ainda que uma nuance ou outra destoe do seu ponto de vista, são suas as sensações e não da narradora, que estão impressas no papel.

E essas nuances, são os detalhes. O cair da folha da árvore, o gosto do chocolate caro, o andar na bicicleta, a gripe por curar, a morte, tanto quanto a vida da lagarta.

Assim é construída a primavera, com pontos de início meio e fim de cada estação, com altas e baixas e ciclos sem fim que resvalam nos pensamentos, como se fossem memórias do dia de ontem, ano passado ou amanhã. Porque, no despertar da primavera, não se pode nunca esquecer que há um tigre solto, prestes a atacar. Ou a fugir.

Sem dúvidas, um livro pra despertar mais que os pensamentos, mas os sentidos para o que está ao nosso redor e interior. Adriana Aneli tem pacto com as palavras, já que, domando ou não o tigre, faz com que, a cada uma que se leia, mais outra queira ser percorrida, na única certeza de que todas as suas incertezas estarão lá, vez por outra, quase escandalosamente, descritas no papel.

Aleatoriedades

  • O livro Diário das Quatro Estações: a construção da primavera, segue o estilo apaixonante da publicação artesanal da Scenarium Plural e foi recebido em parceria com a Editora. Além dos relatos do diários, as estações são recheadas de ilustrações, que aumentam a ambientação e dão tom especial à obra. Obrigada mais uma vez pela parceria, é uma viagem e tanto cada leitura!
  • Outra obra da Scenarium, que segue a edição artesanal da Editora já passou aqui pelo blog e é só clicar para conhecer mais de Vermelho por Dentro, da Lunna Guedes.
  • Sempre acho vermelho uma cor difícil de fotografar, pela própria saturação e pelo celular, e ainda fui inventar florzinhas vermelhas para combinar com a fita do livro… vai entender… rsrsrs Mas só de ver as fotos do cheiro da canela que usei se mistura ao chá, a vela e tudo me remete à segunda estação preferida: outono!

O livro O Diário das Quatro Estações: A Construção da Primavera da Adriana Aneli e outras obras da Editora podem ser encontrados diretamente no site Scenarium Plural.

Que a Força esteja com vocês!

xoxo

Assistindo: Orgulho e Preconceito (2005)

  • Adriana Aneli

    Em 05.05.2018

    Vivi todas as estações na pele com esta resenha… As imagens escolhidas contam poesia única. Raro momento de reacreditar nos sonhos. Lindo demais!
    Obrigada!!!

  • Retipatia

    Em 05.05.2018

    Oi Adriana!
    Que honra te ter aqui lendo a resenha! Obrigada pelo carinho, nem sei como dizer a alegria que me trouxe saber a sensação que os sentimentos aqui descritos lhe trouxeram! É só o reflexo do diário incrível que tive a chance de conhecer e sentir! <3
    xoxo


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