Vermelho por Dentro ♥ Lunna Guedes

Em 04.03.2018   Arquivado em Resenhas

Bom dia, tarde e noite folks!

A resenha de hoje tem cor rubra, de sangue, carmesim, escarlate… Por fora, pelas arestas, nos detalhes, no corte, nas ilustrações, frases, palavras, pensamentos e no que não foi dito, mas especialmente, tem Vermelho por dentro…

Vermelho por Dentro

Autora: Lunna Guedes

Editora Scenarium Plural

Sinopse

‘Vermelho por dentro’ traz duas personagens femininas ‘mãe e filha’ e seus dilemas de vida. Duas figuras firmes-fortes-e-sonoras, conscientes de que tudo poderia ser diferente em suas vidas, mas uma vez feitas as escolhas, não é possível olhar para trás e pensar um futuro novo — diferente. É preciso conviver com o resultado das escolhas feitas. O passado de uma determina o futuro da outra, resultando em mágoas-distancias-e-ausência. Mas nem mesmo a mágoa que pauta os gestos das personagens impede que elas se amem, se respeitem e torçam uma pela outra, em seus caminhos inexatos’.

A Autora

lunnaguedes… sagitariana. degustadora de cafés. uma flecha em voo rasante. colecionadora de silêncios. não gosta de fazer compras. detesta dias de sol. ama dias de chuva. não aprecia o verão tropical. ama o outono em qualquer lugar. escreve por escrever somente. seu único compromisso é com seus abismos, onde salta para sentir a sensação de queda, sem pouso. adestradora de pretéritos e desafiadora de futuros… a direção na qual a ponta do grafite avança. sabe que seus escritos são obras inacabados… nunca prontos. ponto final é uma coisa incompreensível. gosta de vírgulas e exclamações.

Vermelho por Dentro

Um casarão antigo. Mulheres.

Seria demasiado simplista apontar esta ou àquela personagem como protagonista da história que se passa no fim da década de 80, numa ponte que interliga Brasil-França. Paris-São Paulo. São as mulheres a figura principal que permeiam o livro e essência de Vermelho.
“…o lugar é puro assombro e faz jus à história ali sepultada. No porão onde dizem que o velho Barão trancou sua esposa para morrer para o mundo no começo do século… o que temos ali no tempo-presente são as cores de uma artista que sangra o seu vermeho mais denso.”
Longe de dizer que não existam figuras masculinas na obra. Longe disso. Temos dos mais variados tipos. Contudo, Vermelho é uma ode à mulher, aos seus pensamentos, sentimentos, à luta. Trata-se da batalha silenciosa do que é viver em pele de mulher diariamente, do que é sentir. Do que fazem delas e do que esperam delas. Sem, sequer, deixar a linha da contagem da história para pontuar isso ou aquilo, é tudo fluido, vivido.
“O lugar cheirava a livro velho e café fresco – combinação que seduziu a ensaísta na primeira vez ali. Gostava de passear por entre as prateleiras de forma despretensiosa… sem compromisso com nomes ou títulos a serem identificados-reconhecidos. Apenas vontade de percorrer prateleira, como se fossem ruas.”
Apesar da história revelar-se mais afinca aos detalhes da vida de Deborah e Eva, conhecemos todos os personagens com primor, com sabor de saber a cor que cada um guarda por dentro de si. E, nesse misto, apesar de não citar todos aqui, não há um sequer que apareça na trama que não tenha seu pouco de si a mostrar e relatar ao leitor.
“- Não se culpe, cara. Não em nada pior que arrastar a culpa com a gente. Com o tempo a alma enferruja.”
Deborah está prestes a completar seu quadragésimo aniversário. E, para ela, isso é um marco, mais um ciclo fechado e, de tal maneira, não deseja que pendências sejam deixadas em sua história. É nesse ímpeto que aceita o muitas vezes recusado convite feito para participar da exposição que leva parte de sua essência. Uma viagem de poucos meses na via Paris-São Paulo.
“A vida é assim: são peças de um quebra-cabeças que, ao ser montado, forma exatamente a figura que somos.”
Antes disso, contudo, Susan, amiga de longa data, vem lhe apresentar e à seu amigo-confidente-colega de vida, Dário mais um de seus projetos de salvamento, que se confunde entre salvar a si ou outra pessoa seja lá do que for.
“A sociedade modela tudo e todos à sua maneira, distribui cabrestos e não tolera os que escapam da fôrma e seu maldito molde. Só nos resta identificar os que sobrevivem a essa maldição, que passa de geração em geração, e dar a eles a confiança necessária para não cederem.”
Anne, por outro lado, está prestes à completar seus trigésimos. Não que encare o fato com bom grado, ao olhar para trás, a sensação e misto de amargor e desperdício. O que foi feito até aqui?
“Se liberte dos preceitos Anne… não se preocupe em se definir. Deixe acontecer. Faça o que quiser fazer. Aponte a câmera e a trate como se fosse uma extensão do seu corpo. Nem tudo que a gente vê e faz é arte. Às vezes é apenas movimento nosso junto ao universo que rege e que reage. Um exercício futuro…”
Não fosse por Susan, que a tirou do Brasil, carregou pelos sete cantos do mundo até soltar âncora sem tempo muito definido em Paris, Anne estaria fotografando a esmo nas ruas de sua cidade natal no Brasil e não estudando em um dos melhores cursos de fotografia. Trazendo à tona todo seu talento. E, talvez, junto esperanças e sombras do passado.
“Eu vi você com uma câmera em mãos, baby. Observei seus movimentos, seu olhar e vi o resultado. Você tem talento, mas precis adomá-lo… torná-lo seu. Você vai fazer trinta anos em breve e deve lhe custar – mais que para os outros – o tempo desperdiçado.”
E temos mademe bodeh. Mais que Deborah, a alma que transpira vermelho pelos esboços que faz em preto, pra então cobrir o papel com os traços finais de sua arte. Em Vermelho, sempre vermelho.
“Era o retrato de alguém… em quem esbarrou durante um de seus passeios matinais – ‘ele atravessou o meu caminho e seus olhos me hipnotizaram. Durou um único segundo e o aprisionei em mim. Agora, está livre da gaiola que aprisionei em mim.'”
São vários encontros que acontecem entre personagens que, a princípio, seria possível imaginar que a vida nunca lhes faria o caminho cruzar. São tantos personagens, em tantas nuances, que é um misto de descoberta a cada cena. São casamentos sustentados em aparência, frivolidades, força, passado, futuro, expectativa, fechar o ciclo, recomeçar.
“Usamos máscaras o tempo todo, e alguns de nós se acostumam tanto ao molde, que a peça se funde à face.”
Vermelho é o recomeço de Anne, em nova cidade, novo mundo, nova descoberta de si. É recomeço de Deborah, com amor, sabor, perdão, fechar de ciclo. É recomeço de Eva, com família, liberdade, libertação e leveza.
“…’algumas pessoas usam máscaras como invólucro para as emoções. São seus disfarces céticos. Camuflam tudo de tal maneira que chegam a acreditar que nada sentem, de fato. Mas, a maioria usa apenas para esconder o que nunca serão. Subjugam-se em estado bruto e se oferecem aos moldes já prontos.'”
É mais que isso. É a mulher exata que as revistas de época retratavam na pele da volúvel Cláudia. É a força transmitida em várias camadas por Deborah, Anne e Eva. Até em Susan, que aparece mais perdida que encontrada. É o homem que admira mademe bodeh sem conhecer a mulher. É o cara que martiriza-se pela morte, e que se torna tudo pelo qual lutou contra. É sobre deixar os sonhos de lado pela família. É sobre o silêncio, abuso e violência dentro de um casamento. E fora dele também. É sobre construir-se por cima da ruína. Sobre aparências, máscaras e verdades. As nuances das verdades, a cor da verdade: vermelho.
“Já desejou esquecer sua própria história?”
Em uma escrita cheia de adjetivações bem balanceadas, nunca desmedidas, Lunna nos presenteia com sua primorosa narrativa de um tempo que não foi há tanto tempo, mas que poderia ter sido ontem mesmo. Sou suspeita ao dizer, pois já conhecia o primor da escrita ao acompanhar os textos da autora em seu blog pessoal (Catarina Voltou a Escrever), mas há muito mais exarado em Vermelho: a vida de todos os personagens criados, ainda que completamente-incompletas, de um modo que faz viver e pensar e repensar em cada um desses detalhes.
“Sentiu dificuldade de respirar, no entanto, tinha aprendido que, nos momentos de dor, o certo a se fazer era buscar por ar, mas onde se busca o que não há?”
É engraçado como a adjetivação em histórias pode tanto enobrecer quanto enriquecer uma obra. Segundo Charles Kiefer, adjetivar costuma empobrecer uma escrita, ao passo que o autor está imprimindo no texto suas preferências e preconceitos, através destes. E que, o objetivo da escrita está sendo burlado com o uso contínuo e demasiado dos adjetivos. Temos muitos adjetivos em Vermelho por Dentro. Mas, como Kiefer também ressalta, em alguns casos “os adjetivos se convertem em poderosas armas estilísticas.” (dá pra ler mais sobre esse assunto nesse post aqui), e, humildemente, aponto esta obra como uma das melhores exceções. Lunna usa dos adjetivos para mostrar e fazer sentir os lugares, sensações, sentimentos, cores, vibrações, cheiros e impressões dos personagens na sua narrativa em terceira pessoa. É um recurso fluido no texto e característico de sua escrita e enriquece todo o contar da história.
“A Boca aberta a devorar outra boca… a sugar todo o sumo da fruta, a tragar todo o ar e a provar dos aromas da pele, onde o toque passa a residir, como se fosse casa.”
Vermelho por Dentro se tornou um dos meus romances favoritos, da vida, pra vida. Os personagens estão comigo desde a leitura do livro e tenho certeza que irão caminhar para sempre ao meu lado.
“O tempo é pouco. A vida, imensa. Por dentro da noite, a voz vai longe, ecoa. Diz como tudo passa depressa. Um ano nem sempre tem trezentos e sessenta e cinco dias. Doze meses e incontáveis semanas. Às vezes, tudo é menos. Um minuto ou dois. Um punhado de dias sem nome. Um momento que se repete… até cessar. Tudo se acaba num estalar de dedos, como se nem tivesse se dado ao trabalho de começar.”

Aleatoriedades

  • À Scenarium Plural, o meu muito obrigada pela parceria. Um dos pontos altos desse 2018 que ainda está pegando o fôlego para o mergulho. À Lunna, que já se tornou pessoa querida, obrigada por confiar-me Vermelho, e pelas palavras sempre bem pontuadas.
  • Essa foi minha primeira experiência com um livro artesanal e, nossa, fiquei desumbrada. Além da imaginação fluir no que toca à produção de cada livro, fiquei encantada com o estilo, a combinação da capa de palavra + cor, e todo o tom que essa impressão deu à obra. É uma preciosidade para se ter na estante, sem dúvidas.
  • As fotos tentaram refletir o tom o da história, bem mais que o vermelho latente que ele transborda e, por isso, o Vermelho aparece apenas na capa e, em detalhes, nas unhas. Porque Vermelho é mesmo, por dentro. E sobraram fotos, então por isso esse post lotado de imagens a cada parágrafo de resenha…
  • Reativando as Reclassificações de Livros, Vermelho por dentro ganhou status máximo com ‘Amores da Vida‘.

O livro artesanal Vermelho Por Dentro, da Lunna Guedes pode ser adquirido pelo próprio site da Scenarium Plural, é só clicar aqui e aproveitar para conhecer mais do trabalho incrível que é feito por lá!

“não se apaga a vida. Se acende. Se ilumina.”

 

Ouvindo: You’re So Vain – Carly Simon

  • Monique Dieli Chiarentin

    Em 04.03.2018

    Que lindo esse livro, adorei a fitinha e a capa!
    Sem contar que a história dever ser linda também!
    Já conheço o blog da autora e seus textos são bem escritos e lindos!

    Amei a resenha <3

    Beijos
    Inverno de 1996

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Monique!
    Muito lindo, né?! A história é um encanto, tanto na narrativa quanto no conteúdo, posso garantir! <3 A Lunna já faz sucesso com os textos dela, imagina em forma de livro?! É amor demais! <3
    Obrigada pela visita!
    xoxo

  • marya souza

    Em 04.03.2018

    Bom dia, como vai? Confesso que ainda nao conhecia esse livro, mas acheis super interessante, bem como gostei muito da sua resenha, fiquei bem interessada,

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Marya, tudo bem e com você?
    O livro é realmente incrível, super recomendo! Feliz que gostou da resenha e obrigada pela visita!
    xoxo

  • Fernanda Pedotte

    Em 04.03.2018

    Que post maravilhoso!
    Eu sou muito suspeita para falar da escrita da Lunna, pois sou simplesmente apaixonada!
    Gostei de saber um pouco mais da obra! e ser artesanal deu um brilho a mais. Perfeito!

    bjs
    Fernanda

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Fernanda!
    Own, obrigada! E que bom encontrar mais uma apaixonada pela escrita da Lunna, ela é realmente incrível com as palavras! Uma obra linda em uma versão incrível! <3 <3 Obrigada pela visita! <3
    xoxo

  • Dai Castro

    Em 04.03.2018

    Eu ainda não tinha visto um livro artesanal assim com tantos detalhes e estou apaixonada! Achei a premissa da história bem interessante, as personagens parecem mulheres fortes, tendo que lidar com essas decisões do passado que nem sempre nos levam ao futuro que sonhamos!
    As suas fotos ficaram uma graça, estão super charmosas! Um post cheio de amor <3

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Dai!
    Super legal né, eu também não conhecia um trabalho tão legal assim e fiquei encantada! E a história tem mesmo essa beleza, cheia de mulheres fortes e apaixonantes! Feliz que tenha gostado das fotos! <3 E obrigada pela visita! <3 <3 <3
    xoxo

  • Cilene

    Em 04.03.2018

    Adorei sua resenha, fiquei curiosa para ler o livro, adorei as fotos e a encadernação do livro é um charme.

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Cilene!
    Vale muito a leitura, todo o livro é um apanhado de detalhes que encantam muito! Feliz que tenha gostado! <3 Obrigada pela visita! <3
    xoxo

  • Lunna Guedes

    Em 04.03.2018

    Já li esse post, por motivos obvios, algumas vezes e cada nova leitura que faço me apaixono mais e mais por essas fotos. Eu considero muito estranho ler um post sobre um livro escrito por mim. Vermelho por dentro é meu melhor. De tudo que produzi é minha construção mais intensa. Foram anos a conviver com esses personagens. A última a chegar na trama foi Anne, aproveitei o backstory que fiz da personagem para lua de papel e a levei para Paris, explicando o passado dessa mulher que considero incrível. Eu reuni um pouco de cada mulher que admiro para inventá-la.
    Grata pelo carinho e por esse post…

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Lunna!
    Nem sei o que dizer! Fico feliz em saber que já leu e releu e que gostou das fotos, foi tudo feito com o maior carinho, tentando mostrar o quanto amei a leitura e o quanto ela me impactou! <3 Imagino como seja ler algo sobre o que você própria escreveu, mas tenha certeza que todo tempo de espera, maturação, conhecimento e aprendizagem com os personagens, foi um grande ganho pro Vermelho. E Anne foi uma linda e incrível aquisição, sem dúvidas!
    Obrigada pelo carinho e pela visita! <3
    xoxo

  • Juliana Sales

    Em 04.03.2018

    Que resenha incrível! Impossível não querer ler o livro depois dela. Quanto a autora, conheci o blog dela a pouquíssimo tempo e fico encantada cada vez que leio um texto novo, a escrita dela é cheia de poesia. Não sabia que ela tinha escrito um livro, mas com certeza deve ser maravilhoso tomando por base os textos do blog.

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Juliana!
    Ah que delícia saber que a resenha desperta o interesse na leitura! A Lunna é mesmo incrível, pelos textos você já tem uma noção, imagine só um livro inteiro? É arrebatador! <3
    Obrigada pela visita!
    xoxo

  • Luana Souza

    Em 04.03.2018

    Eu nunca tinha visto um livro artesanal, mas fiquei encantada *-* não só a premissa, mas algo no design dele lembrou tempos mais antigos. Conheço o trabalho da Lunna e acho que é deveras poético; o blog dela é sempre incrível e com palavras lindas, então tenho certeza de que o livro não pode ficar por menos. Parece ser tão profundo, falar de superação… ai, fiquei com vontade de ler hehe <3

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Luh!
    O livro é realmente incrível e, esteticamente falando, também acho que faz pensar nas impressões manuais antigas e adoro essa ‘vibe’ que ele traz. Pode ter certeza que é um livro que vale muito a pena e que é ainda mais do que os textos que ela compartilha no blog! <3 Acho que você adoraria a leitura! <3
    Obrigada pela visita, sugar! <3
    xoxo

  • Lucineide Costas de Freitas

    Em 04.03.2018

    É exatamente o tipo de livro que tenho buscado: diferente de tudoo que já li.
    Ótima resenha!
    Belo trabalho e fotografias sensacionais

  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Lucineide!
    Ah que ótimo que o livro é como você procura, a escrita da autora é única e é um dos melhores romances que já li, recomendo de coração!
    Obrigada pelo carinho e pela visita, feliz que gostou da resenha! <3
    xoxo

  • Analia Menezes

    Em 04.03.2018

    eu tenho esse livro e estou no meio da leitura.. Estou amando cada detalhe dele.. rs
    o Meu numero é o 7 e a Lunna é uma escritora incrível, tanto é que é minha parceira no blog
    beijos
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  • Retipatia

    Em 04.03.2018

    Oi Analia!
    Ah esse livro é muito amor né?! Os detalhes são riquíssimos e a leitura muito envolvente! E a Lunna uma pessoa e escritora incrível, com certeza! <3
    Você vai amar ainda mais o livro quando acabar, pode ter certeza! <3 Parabéns pela parceria e obrigada por vir visitar! <3
    xoxo


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