Um Conto de Natal ♥ Parte II/II

Em 25.12.2016   Arquivado em Contos

Bom dia, tarde e noite desse dia de Natal lindo!

A segunda parte do conto natalino está aqui para vocês, junto dos meus votos de que este Natal tenha representado muitas alegrias, sorrisos, abraços, presença e amor! Que seus corações estejam aquecidos para que este fim de 2016 seja o encerrar de uma etapa, para que venha um 2017 renovado.

Para acessar a primeira parte do conto, é só clicar aqui. Fique com a segunda e última parte do meu conto ‘romanticamente’ natalino, inspirado nas histórias do livro O Presente do Meu Grande Amor (Stephanie Perkins ♥ Intrínseca).

Um Conto de Natal – Parte II/II

Quando desperto pela manhã já são quase nove horas. Ótimo, perdi o café da manhã. Este, pelo menos, não é um grande evento em família.

Sigo lentamente no caminho para a casa do nosso clã, que também é a sede de nosso negócio. Quando entro, o salão da recepção está abarrotado. Aparentemente algumas pessoas acabaram de chegar e estão se registrando.

Gwen e Frida, que é nossa recepcionista desde quando me entendo por gente, estão conversando animadas com o pessoal.

– Precisam de alguma coisa? – Pergunto enquanto procuro por correspondências nas gavetas.

– Não, está tudo ótimo! – O tom simpático de Gwen me surpreende e logo percebo que é por causa de um rapaz forte e alto que está conversando com ela. Mamãe com certeza irá adorar os dreads dele.

Caminho lentamente até os fundos, até meu escritório. Minha barriga está roncando de fome e me recordo que a última coisa que comi foram os bolinhos que Stela mandou. Pelo horário, mamãe deve estar checando o cardápio do almoço e, logo, não quero ter que ir até a cozinha.

– Claire! – A voz de Fleur me faz parar antes de fechar a porta do escritório.

– Fleur! – Eu falo enquanto me abaixo, pegando-a no colo para um abraço apertado. Parece que tem dias que não nos vemos, quando na verdade, não tem nem um dia inteiro.

 – Posso trabalhar com você hoje?

– Claro que pode. – Sim, eu sempre atendo a todos os desejos dela.

Eu separo algumas folhas e lápis de cor para ela, que se sente importante sentada em minha cadeira e desenhando coisas sem sentido. Ela faz contas em minha calculadora e logo volta a desenhar: números, um poste de luz, pisca-pisca, meu chalé, eu e Ben, apesar dela sequer conhecê-lo, é claro.

Sento na outra cadeira e pego as contas que não separei ontem, começando a trabalhar. É a melhor maneira de se passar o tempo, mesmo com o estômago roncando. O barulho, contudo, é alto suficiente para Fleur ouvir e ela logo começa a rir.

– Quer que eu pegue pãezinhos para você?

– Hum, parece uma ótima ideia! – Respondo alegremente para ela.

Ela vai correndo até a porta e sai apressada.

Termino de separar a correspondência e ligo o computador. Começo a fazer o lançamento das contas, o balanço das entregas de ontem, tudo em seu devido lugar.

O ranger da porta indica que Fleur está voltando.

– Encontrei uma menina perdida tentando roubar comida da cozinha! – A voz de Stela é sempre alegre.

Ela para do meu lado e me dá um beijo na bochecha.

Uma caneca fumegante de chocolate quente está na minha frente e Fleur finalmente aparece, comendo um biscoito e trazendo um pratinho com pãezinhos e bolinhos.

– Era para você trazer a comida Fleur, não comê-la no trajeto.

Fleur responde apenas com uma careta e Stela sai da escritório.

Não demora para que Fleur se entedie com o meu trabalho, números, papéis, planilhas, pedidos, listas de funcionários. Quando Ruth e Mandy finalmente descobrem seu esconderijo, as três partem, me deixando sozinha e em silêncio em meio aos meus papéis.

Está na hora do almoço e, simplesmente, não quero ver mamãe. Como se meu despertar para o horário funcionasse como um ímã, uma batida soa na porta. Espero ver papai se esgueirar e me chamar para o almoço, mas é mamãe quem está ali.

– Claire? – Meus olhos encontram os dela. São de um verde bem escuro, que quase passam por castanho. São profundos e sua expressão é sempre severa. Dizem que sou parecida com ela e tenho que acreditar. É algo que vai bem além da cor dos olhos e do tom acobreado dos nossos cabelos.

Como fico muda, ela termina de entrar e fecha a porta. Ela não parece sem lugar ou desacomodada, como me sinto. Está segura de si e isso… isso é algo que não puxei dela.

– Sei que me comportei mal ontem, e foi errado. Não deveria tê-la chamado de tola. – Não é com essa palavra que me preocupo, não consigo deixar de pensar. – Será um prazer recebê-lo aqui, hoje à noite. Já mandei preparar um de nossos quartos para ele. Acho que ficará bem acomodado.

É assim que mamãe conserta as coisas, remendando-as da maneira que ela acha mais adequado. Mas não sinto a sinceridade em suas palavras e acho que o ato foi motivado pela única razão de: se um homem que ela julga mal conhecer, vier, de fato, visitar sua filha, é melhor que ele permaneça sob seus olhos e não numa cabana afastada. Não posso deixar de ver a razão ou credibilidade quanto à essa linha de raciocínio. A questão é que ela pode até se arrepender de ter me insultado, mas não se arrepende da razão por que o disse. Estava travado em sua garganta há muito e ela tem certeza de que ninguém aparecerá, no fim das contas.

– Tudo bem. – Eu digo. Acho que dizer que aceito as desculpas sendo que elas sequer foram pedidas me parece contraditório.

– Ótimo. – Ela fala, já se levantando, como se o assunto fúnebre já tivesse passado. – O almoço está na mesa, vamos lá.

Me dirijo para a mesa. Já estão todos aguardando e vejo mamãe dar um beijo suave em papai quando se senta. Ele parece bem mais relaxado, provavelmente pensando que tivemos uma conversa muito aberta e esclarecedora. Tudo foi perdoado, não é mesmo?

Cada um faz seus agradecimentos, como de costume, e agradeço por algo trivial, como o saldo positivo na contabilidade da primeira quinzena do mês.

Quando começamos a comer, todos voltam a tagarelar. Eu me concentro nas garfadas. Não tenho fome. Ou talvez esteja apenas ansiosa demais para que seja possível comer. Em algumas horas Ben estará passando por aquela porta, e isso é tudo que consigo me concentrar.

Depois do almoço não volto para o escritório. Os preparativos para a grande ceia são muitos e exigem mais mãos do que temos.

O nosso restaurante é transformado em uma grande sala de jantar. Uma família inteira, de quase cem pessoas, fechou o lugar para ceia de natal. Nós, é claro, temos nossa távola redonda e não nos preocupamos em não ter onde comer. Nossa ceia é sempre lá.

Os demais hóspedes vão receber suas ceias prontas e preparadas para desfrutarem delas nos seus próprios chalés.

Já são quase nove horas quando chego no meu chalé e tomo um banho quente na banheira, para espantar todo o frio do lado de fora.

Visto meu vestido vermelho preferido, meias grossas e botas de cano alto. Prendo meu cabelo em tranças, fazendo uma espécie de tiara ao redor da cabeça. Passo um blush para deixar as bochechas coradas e um gloss. Me sinto ansiosa a ponto de não conseguir sequer avaliar se estou bonita. Meu coração já está palpitando no peito, com força.

Volto o mais rápido que a neve fofa me permite e ouço os sons do salão do restaurante já sendo preenchido.

Na nossa sala de jantar, as trigêmeas brincam com aviões que dão rasantes arriscados nos enfeites da árvore.

A mesa já está arrumada e, claro, só falta a comida.

Agatha aparece e está vestindo um lindo vestido creme, que realça a escuridão de seus cabelos ondulados.

– Está linda! – Ela diz antes mesmo que eu possa pensar no que dizer.

– Obrigada. – Me sinto apreensiva.

O relógio indica que faltam cinco minutos para as vinte e duas horas. Certo, não quer dizer que ele chegue exatamente às vinte e duas. Quanto tempo é razoável para se esperar alguém? Ou quanto tempo é razoável para um atraso? Nessa época do ano o trânsito fica muito ruim, sempre.

A campainha toca e é como se eu precisasse engolir meu coração novamente para dentro.

Mas, na verdade, é a vovó que chegou atrasada. Ela disse que as estradas estão péssimas e que tudo está mais lento do que ela. E penso que, claramente, aguardar até as vinte e três, é um tempo bem razoável para atrasos.

Claro que, junto de vovó, veio o vovô, dois tios, três tias, e, se minha conta estiver correta, quatorze primos. Já não sei se nossa távola é tão grande assim, mas no fim das contas sempre cabe todo mundo.

Enquanto todos se cumprimentam, riem, contam histórias, eu namoro o relógio. Já são vinte e três horas. E nada, nem um pio da campainha. Nem um sinal de que mais alguém está para chegar.

Vou até o banheiro e me encaro no espelho. Você não vai chorar, não seja ridícula, Claire! Jogo a água fria no rosto e me encaro novamente. Não vou chorar e estragar o natal de todos.

A mesa já está sendo colocada, o que indica que faltam menos de dez minutos para meia noite. Meia noite. Uma mistura de desapontamento, tristeza e raiva, muita raiva surge em mim.

Todos estão sorrindo e conversando e parecem tomados pela… seja lá o que signifique essa louca magia do Natal. Só posso dizer que, seja como for, ela não é suficiente para desfazer a carranca que meu rosto se transformou.

Como a maior parte das pessoas não teria paciência para tantos agradecimentos individuais, vovó e papai falam algumas palavras para os agradecimentos desse ano. Olho apenas para metade da mesa abarrotada, porque, do outro lado, teria que encarar os olhares furtivos e incisivos de minha mãe.

Agatha coloca um prato com peru e salada à minha frente.

– Eu não pedi…

– Coma. – Ela me interrompe.

– Mas eu não…

– Apenas coma, Claire. – Ela fala tão suavemente que meus olhos se enchem de lágrimas e tenho que me esforçar para segurar.

Então, começo a comer. Garfada por garfada. Os risos parecem zombar de mim. Não que todos soubessem que eu estava esperando alguém que não apareceu ou que estariam encarando caso soubessem.

Finalmente as pessoas terminam e retiramos a mesa para a sobremesa. As meninas estão em polvorosa aguardando para abrir os presentes e já ficam rondando a árvore, agora mais apinhada de embrulhos.

Comemos os doces já perto da árvore e nos aglomeramos nas poltronas e sofás. Na verdade, a maior parte está de pé ou sentado no chão.

– Então, o que será que Papai Noel deixou para vocês? – Vovô pergunta para Ruth e Mandy.

Fleur está sentada em meu colo e solta um gritinho.

– Ah Clarie! Ninguém disse ao vovô que Papai Noel não existe?

– Porque não vai até lá e conta para ele? Sabe, com jeitinho.

Fleur balança a cabeça em concordância e vai correndo até vovô.

Me levanto da beirada do sofá e me dirijo para o lado de fora. O frio está cortante e não pensei em pegar meu casaco. Mas não quero chamar a atenção voltando lá para dentro. Me abraço para que minhas mãos não congelem.

Pequenos flocos de neve estão caindo. A noite está linda. Pequenos pontos de luz se estendem no horizonte, dos distantes chalés iluminados pelas pessoas sorridentes dentro deles.

– Vai congelar aqui.

Nem ouvi papai chegando, mas suas mãos já estão colocando meu casaco em meus ombros.

– Obrigada. – Ele passa seu braço por cima de meus ombros e me deixo recostar nele.

Me sinto pequena. Talvez porque puxei o lado da família de mamãe e não cresci tanto assim, mas sei que não é isso. Tentei provar alguma coisa e, no fim, estava errada. Nunca gostei de estar errada.

Só percebo que estou num choro silencioso quando papai me entrega o lenço que ele sempre carrega no bolso.

– Vou descansar. O dia foi… muito longo. – Eu finalmente falo, entregando o lenço de volta.

– Pode ficar, já está cheio de catarro mesmo. – Ele fala, sorrindo.

– Pai! – Eu falo, rindo realmente no meio de um pouco de, bem, catarro.

Eu o abraço e desço as escadas. O caminho não está muito iluminado, e o frio consegue trespassar por minhas meias e me faz tremer. Ando mais rápido e, em tempo quase recorde pela altura da neve, chego no meu chalé.

Fecho a porta e deixo o casaco no cabideiro. Ligo o aquecedor e checo a lareira, que ainda está acesa, mas coloco mais madeira para queimar de toda forma.

Acho que manter o corpo ocupado mantém a mente ocupada, assim não terei que pensar em… Me deixo cair na poltrona perto da lareira.

Me sinto exatamente como minha mãe disse, tola. Ingênua. Uma idiota por acreditar tanto tempo em algo. Não, em alguém. O que é ainda pior.

As lágrimas saem e enfim eu choro. De verdade. Como provavelmente nunca chorei antes. Me encolho no sofá,  tentando me fundir à ele, me enrolando na colcha que o cobre e tentando não pensar em como meu coração está doendo em meu peito.

***

Acordo sobressaltada. Meu corpo está dolorido e não é apenas por causa do tombo. Fiquei muito tempo encolhida no sofá.

Novas batidas na porta me fazem sair do estupor e me levanto, meu corpo quase rangendo. Está muito frio, então sigo enrolada na manta do sofá. Provavelmente é Agatha, preocupada com meu sumiço. O relógio indica que são quase quatro horas da madrugada. Com certeza o pessoal ainda ficará acordado até as seis, pelo menos.

– Claire! – O som da voz mudou um pouco porque, claro, as pessoas mudam muito dos seus 16 até os 24 anos, mas não tenho dúvidas de quem seja.

Será que estou sonhando? Aproximo minha mão até ele e toco seu suéter, preto, cobrindo seu peito por debaixo de um grosso casaco para neve. A textura é macia e fria. É real. Posso tocá-lo.

E são quatro da manhã. Quatro da manhã e não vinte e duas da noite. A raiva me invade, como ele pôde demorar tanto? Minhas mãos começam a bater em seu peito. Não com toda força de que eu seria capaz, mas o suficiente para extravasar a raiva.

A expressão dele é confusa e ele tenta segurar minha mãos enquanto fala:

– Claire, sou eu, Ben. Benjamim.

Minhas mãos cessam e estou chorando novamente. É tudo que tenho feito nos últimos dias, afinal de contas.

– Eu sei! – Eu falo finalmente, tirando minhas mãos das dele.

– Sinto muito, Claire, mas me atrasei. – Ele fala e sua expressão está preocupada.

O vento frio está entrando e pequenos flocos de neve caem sobre nós. Ele está tão diferente e, ao mesmo tempo, o mesmo. Os mesmos olhos claros como o céu em um dia ensolarado, os mesmos lábios finos e bem desenhados, o rosto fino e os cabelos escuros lhe desenhando a face. Está ainda mais bonito.

Nossas respirações estão frias e soltam vapores à nossa frente. Seu rosto também já está marcado pelas lágrimas que ele derrama. Então eu o abraço, com toda força que consigo, com toda saudade que sinto e ele me envolve em seus braços, retribuindo meu aperto.

Por mais que eu não queira largá-lo, provavelmente nunca mais, o frio está deixando minhas mãos e pés dormentes e me solto dele.

– Vamos entrar. – Eu falo. Ele apenas assente e passa as mãos no rosto, enxugando as lágrimas.

Fecho a porta e vou até a dispensa. Pego uma garrafa de vinho tinto e duas taças. Despejo o líquido arroxeado nas taças e percebo que ele ainda está parado perto da porta.

Ao invés de ir até ele, vou em direção à lareira e me sento no sofá. O encaro e estendo a taça em sua direção.

Ele retira o casaco pesado e o dependura ao lado do meu e caminha devagar até se sentar ao meu lado, virado para mim.

Ele pega a taça de minha mão e toma um gole bem prolongado. Eu aproveito para esvaziar minha taça e saborear o calor que a bebida traz.

– Por um momento achei que você… – Minha aproximação repentina dele faz com que ele pare de falar, sem concluir a frase.

Quero sentir seus lábios nos meus, relembrar ao meu corpo o que há muito só tenho em memória. Eu paro meus lábios a meros milímetros dos dele e desvio então meu olhar do seu, descendo até seus lábios. Fecho meus olhos e sinto sua aproximação, seus lábios macios e frios ao encontro dos meus.

Nunca imaginei que um beijo pudesse dizer tanto. Toda a espera sendo arrefecida, toda angústia se dissolvendo sob seu toque, meu coração se tornando aquecido novamente e suas partes finalmente se restaurando. É um beijo de reencontro, que diz olá, mas também, senti sua falta. É molhado, porque simplesmente não consigo parar de chorar e ele também não, ainda que as lágrimas agora não sejam mais de tristeza.

É também um beijo repleto de memória. De quando demos nosso primeiro beijo, escondidos atrás do chalé número quatro, em que Ben e sua família estavam hospedados. Há oito anos atrás, quando tínhamos apenas 16 anos e ele ainda tinha espinhas no rosto. De todos os outros beijos escondidos que demos, tentando fugir de nossas famílias e enfrentando o frio do lado de fora até tarde da noite apenas para passar mais tempo juntos. De quando fizemos amor nesse mesmo chalé que estamos agora, com nossas inexperiências aflorando e com camisinhas que peguei no banheiro da minha mãe.

Seus lábios deixam os meus por alguns instantes para beijar meu rosto inteiro e se estender por meu pescoço. Meus dedos se embrenham em seus cabelos, me lembrando do mesmo toque em seus fios há tanto tempo.

– Você está ainda mais bonita, se é que isso é possível. – Ele diz. Sua voz soa firme, ainda que transpareça a ansiedade que vejo em seus olhos e em seu sorriso inseguro.

– Você não está nada mal, também. – Eu falo, já sorrindo.

Volto a lhe beijar os lábios e dessa vez não estou satisfeita só com eles. Quero beijá-lo por inteiro, cada extensão de sua pele e é isso que faço quando retiro seu suéter e a blusa que ele usava por debaixo. Beijo seu pescoço, seu peito, descendo até seu abdômen. Minhas mãos tremem de excitação e tudo que quero é que este momento não acabe.

Voltamos a nos beijar e suas mãos descem por meus quadris, deslizando sobre o tecido da meia calça, levantando meu vestido até minha cintura e me fazendo arrepiar completamente. Ben retira meu vestido e é ele quem agora começa a beijar todo meu corpo, como se se lembrasse de cada parte e cada curva.

Não sei mais onde termino e onde ele começa, somos extensões um do outro, e, ainda que tenhamos juntos uma única experiência pretérita, percebo por seu olhar que a ansiedade não está apenas em mim.

– Deveríamos ter praticado mais daquela vez. – Ele fala, sorrindo timidamente, enquanto estamos abraçados e deixando que o calor um do outro e, claro, da proximidade com a lareira, nos mantenha aquecidos mesmo sem nossas roupas.

– Foi tão ruim assim daquela vez? – Não sei se foi bem o que ele quis dizer, mas…

Ele muda de posição para que seus olhos possam me fitar com intensidade.

– Não quis dizer isso, foi perfeito. – Ele me beija suavemente. – Você é perfeita, Claire.

– Claro que não, ninguém é perfeito, Benjamim. – Falo, rindo.

– Até seus defeitos são perfeitos para mim. – Ele sorri, mas não está zombando e me sinto corar. Estou nua e abraçada a seu corpo, mas são suas palavras que me dão esse efeito. Eu sou mesmo patética!

Volto a beijá-lo, acho que nunca vou me cansar disso.

– De toda forma, eu quis dizer que deveríamos ter praticado mais porque é algo muito mais do que apenas bom, ainda que a primeira tenha sido confusa. – É a vez dele corar suas bochechas.

Eu rio.

– Confusa foi uma definição bastante exata, bem melhor que perfeita. – Me lembro imediatamente da pequena saga para colocar uma camisinha. Essas coisas deveriam ser ensinadas em escolas, afinal de contas.

Seus dedos estão percorrendo meus cabelos e a sensação é de que eles deveriam ficar ali para sempre.

Mesmo sem que eu pergunte, ele me conta porque demorou tanto para chegar. Alguns aeroportos foram fechados devido ao mau tempo e, assim, ele acabou indo para um muito mais distante daqui. Teve que dirigir por muitas horas a mais para conseguir chegar.

– Então, quando cheguei na casa e vi seu pai na varanda, quase congelei.

– Achei que tivesse vindo direto para cá. – Eu falo, tentando imaginá-lo se encontrando com meu pai. Ben, pelo menos não foi com minha mãe…

– Achei que estariam todos reunidos ainda. Seu pai ouviu o barulho do carro e foi até lá para ver quem era. Não havia como não o reconhecer, mal parece que o tempo passou para ele.

– E o que ele disse?

– Primeiro ele não percebeu quem era, mas quando o cumprimentei pelo nome e estendi a mão dizendo que era, bem, eu. – Ele solta um riso sem graça, que retribuo com um sorriso incentivador. – Então ele percebeu e me mostrou o caminho até aqui.

– Que bom… – Eu falo já me sentindo sonolenta e me permito fechar os olhos.

***

As batidas na porta me despertam. Que horas são, afinal? Antes mesmo de abrir meus olhos me dou conta que ainda estou abraçada a Ben e que nada que aconteceu na madrugada fora um sonho. Ele realmente está aqui, deitado ao meu lado, ainda dormindo.

Uma nova batida me faz parar de encará-lo com um sorriso bobo em meu rosto e me levanto. Coloco apenas meu vestido e vou até a porta.

Agatha está parada segurando dois copos grandes que só podem conter chocolate quente. O cheiro chega até mim com rapidez.

– Boa tarde! – Ela diz, com um sorriso e se adiantando para entrar no quarto.

– Espere! – Eu travo o caminho com meu corpo.

– O que foi?

– É, não estou sozinha. Achei que soubesse, pelos dois copos…

– Como assim? Quem está aí? – Ela fala, ficando na ponta dos pés e tentando ver por detrás de mim. A parte boa é que, da porta, não é possível ver muitas partes da casa, em especial o sofá.

– Não demoraremos para subir. E… – Pego os copos de suas mãos. – Obrigada pelo chocolate.

Agatha não é incisiva e apenas resmunga um ‘ok’ e parte de volta para casa. Quando fecho a porta, vejo que Ben já despertou e está terminando de vestir suas roupas.

– Para que a pressa? – Pergunto, enquanto entrego o copo para ele.

– Achei que alguém fosse entrar. – Ele bebe o chocolate. – Nossa, isso é maravilhoso! Está ainda melhor do que na minha memória.

Seu braço livre passa por minha cintura, me trazendo para mais perto dele. Passo meus braços em volta do seu pescoço, com cuidado para que não derrube chocolate quente nele, mesmo achando que a combinação seria deliciosa.

Ele está com o gosto do chocolate quente e acho que não tem problema se demorarmos um pouquinho mais.

Eu retiro todas as peças de roupa que ele se deu o trabalho de vestir e ele desliza meu vestido por minha cabeça. Dessa vez, vamos parar no chão da sala.

– Não gosto muito de clichês, mas talvez devêssemos experimentar a cama da próxima vez.

Ele ri. O som faz meu coração se alegrar ainda mais. É contagiante, exatamente como me lembrava.

– Sabe que seria uma ótima ideia.

– Imaginei que apreciaria. Mas, por mais que eu ame ficar aqui com você, precisamos nos vestir e ir almoçar antes que mais algumas senhoritas do clã Nicolau apareçam.

– Claro.

Tomamos um banho mais demorado do que deveríamos e logo estamos subindo de mãos dadas até a casa dos Nicolau, onde tudo acontece. Tento guardar cada minuto que passa, afinal não sei até quando tudo isso vai durar. Ou seja, até quando Ben pretende ficar.

– As meninas devem estar bem mudadas.

– Bem, acho que sim. Agatha já tem 17 e vai para faculdade.

– Me lembro dela, era apenas uma criança.

– Sim, ela tinha 9. E Gwen… ah! Gwen fugiu com o namorado mês passado e está de castigo até a próxima encarnação.

– Como assim? – Ele parece espantado. – Gwen só tem o que, uns dez?

– Ela tinha sete e tem quinze agora. Pilar e Christie estavam com cinco e agora, matematicamente e logicamente, já possuem treze.

– E Stela, ela era um bebê ainda.

– Sim, ela está com dez.

Ele solta um longo suspiro e para de caminhar.

– O que foi? – Pergunto, a expressão dele está carregada.

– Eu demorei demais. – Demoro um tempo para entender que a demora não é sobre o atraso da noite passada.

– Você não demorou demais, Benjamim. Nós demoramos. Não fui atrás de você também. Nós dois preferimos dar nossos passos ou talvez os passos que nossos pais desejaram, mas esse não é o ponto.

– E qual é? – Ele me encara com descrença.

– O ponto é que fizemos absolutamente tudo que nos foi pedido e nós esperamos pacientemente que nossos destinos pudessem se encontrar novamente, sem que ninguém saísse prejudicado. Sem atos de rebeldia, sem fugas insanas, sem adolescentes fugitivos atrás de seus amores. Tudo porque nosso amor poderia suportar qualquer coisa, fosse nossas famílias, a distância ou o tempo.

O olhar dele parece suavizar e eu lhe abraço.

– Eu amo você, Claire. – Um sorriso brota de meus lábios e as palavras conseguem me aquecer e espantar o frio.

– Também amo você Benjamim. – Respondo sorrindo e beijo seus lábios macios.

Continuamos a andar abraçados e logo chegamos na casa do clã Nicolau. Já estão todos de pé e a mesa para o almoço está quase pronta. O efeito de entrarmos na sala é imediato, assim que o primeiro par de olhos vai em nossa direção e surge o espanto, todos os outros olhares são direcionados para nós.

Agatha é a primeira a perceber a comoção geral e, com a sua delicadeza natural, se aproxima.

– Oi, eu sou a Agatha, mas você deve se lembrar apesar de eu ser mais ou menos dessa altura, – Ela levanta a mão e faz o gesto indicando a altura de seus próprios ombros. – quando nos conhecemos.

– Oi Agatha! É bom revê-la. – Ben estende a mão, mas Agatha é do tipo que abraça.

Não demora para que eu esteja apresentando Ben para toda a família e, apesar da expressão de surpresa de alguns – sim, toda a minha família sabe quem ele é, ainda que a maior parte não o conheça, de fato – eu as ignoro com louvor e tudo corre muito tranquilamente.

Eu apenas me preocupo quando mamãe aparece na sala e, literalmente, com apenas o condão que ela tem para o drama, deixa cair os copos que estão em sua mão tão logo seus olhos recaem sobre Ben.

A tia Grace e Pilar recolhem o vidro estilhaçado no chão, liberando minha mãe da tarefa.

– Mamãe, se lembra do Ben? – Como se houvesse a menor probabilidade de ela se esquecer dele…

– Ah, mas é claro. Como vai Benjamin? – Minha mãe estende a mão e Benjamin a segura, cumprimentando-a.

– Olá senhora Nicolau.

– Por favor, me chame de Nataly, Benjamin. – O sorriso de mamãe é artificial, mas sei disso é porque eu a conheço, muito bem. Não preciso nem olhar para Ben para perceber que ele relaxa sob as palavras dela.

Ele ainda não tem experiência o bastante para saber quando minha mãe está fingindo ser agradável e não sendo verdadeiramente agradável. Se ela fosse atriz, competiria com Meryl Streep no número de indicações ao Oscar.

– É, ainda estamos vivos. – Falo sorrindo para Ben.

– Deve ser a magia do natal. – Ele responde.

Logo o almoço é servido e faço um arranjo nos lugares para que eu e Ben nos sentemos lado a lado.

– Sem nozes ou qualquer tipo de castanha. – Falo, entregando a tigela com a salada.

– Boa memória. – Ele responde.

– Sim, eu tive o trabalho de adaptar todo um cardápio tradicional do clã Nicolau, então, é bom que você coma de tudo!

Todo o cardápio? – Ele pergunta, me encarando com dúvida.

– Não, na verdade, só a salada foi alterada. Mas, é uma grande coisa, acredite. – Me sinto um pouco tola por não parar de sorrir.

Sim, quero sorrir o tempo inteiro e isso me faz pensar na questão mais óbvia que evitei desde a madrugada: quando Ben vai embora. Ele não disse nada sobre sua partida e, acho que por medo e covardia, eu também não perguntei.

O dia passa mais tranquilo do que eu esperava, Ben conversa com papai, com meus primos e tios e brinca de esconde-esconde com Ruth, Fleur e Mandy por horas.

Quando estamos todos reunidos e as crianças brincando, Christie se senta com seu violão ao lado do piano, no qual Pilar acabara de se sentar também. As duas são ótimas com instrumentos musicais.

Christie até tentou me ensinar uma vez, mas quando eu sequer consegui decorar os nomes das notas musicais e Pilar disse que minha voz se assemelhava a uma taquara rachada, ela desistiu.

O som da melodia de What Am I To You começa. A voz delas combinam uma com a outra e a música fica ainda mais bonita. Norah Jones que me perode.

Ben vem se sentar ao meu lado e me recosto nele. A pergunta que soa na minha cabeça me deixa inquieta, então, mesmo não desejando ouvir um ‘essa noite’ ou ‘amanhã’ e acabar com meu sentimento de alegria, eu pergunto.

– Ben?

– Sim?

– Eu sei que você acabou de chegar e, você sabe que isso não é uma maneira de dizer que quero que vá… mas, já sabe até quando poderá ficar?

Um sorriso surge em seu rosto.

– Eu não comprei passagens de volta.

– Como assim? A internet aqui é um pouco demorada por causa do mau tempo, então é provável que você precise ficar um dia inteiro apenas para conseguir comprar. Já sabe o dia que precisa ir? Precisamos olhar o quanto antes se for muito breve. – Contenho o ímpeto de me levantar e ir até meu escritório para ligar o computador.

– Não, não é isso. Eu não comprei passagens de retorno porque não pretendo voltar. Desde que você queira, eu vim para ficar.

Meu coração dispara, não consigo compreender. Não pode ser verdade.

– Mas, como assim? E seu emprego novo e… – Suas sobrancelhas franzem e ele balança a cabeça em negativa, me interrompendo.

– Eu disse que se você quiser eu vim para ficar, pode dizer se não for o caso. – Ele não diz isso com um tom que poderia ser indignado ou mal-humorado. Apenas como quem está disposto a aceitar o que eu quero, ainda que isso possa feri-lo.

– É claro que quero que você fique, para sempre. – Me aproximo e nos beijamos. Bem rapidamente, porque, com minha avó sentada do meu lado no sofá e soltando pigarros, entendemos rapidamente que ela está incomodada.

– E seu novo emprego? – Pergunto.

– Finalmente consegui um que eu poderia fazer de qualquer parte do globo.

– Isso parece fantástico. – Minhas bochechas estão começando a doer porque o sorriso não sai do meu rosto, junto com lágrimas silenciosas, e de alegria, que Bem enxuga delicadamente.

As meninas estão chegando no refrão da música.

– Ei, quer dançar? – Pergunto, sorridente.

– Achei que nunca fosse me chamar, senhorita. – Ele responde em tom brincalhão e pegando minha mão.

Começamos a valsar no meio da sala, enquanto as meninas correm de um lado para outro.

E, enquanto valsamos, a música chega em seu refrão mais uma vez e vejo meus avós também dançando, papai e mamãe, alguns de nossos tios e até mesmo Stela e as trigêmeas.

Cantarolando “I’d give you my last shirt”, eu o beijo novamente, os lábios os quais nunca me esqueci e dos quais não vou mais me desgrudar.

… Fim…

Um Feliz Natal para você que também acredita em coisas mágicas!

xoxo

  • Fernanda

    Em 25.12.2016

    Amei, amei, amei!!!! Quero me mudar pro Alaska depois dessa história, quero neve o ano inteiro! <3

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