A Garota da Capa Escarlate ♥ Parte II/VI

Em 02.12.2016   Arquivado em A Garota da Capa Escarlate, Contando Histórias, Projetos

Bom dia, tarde e noite pessoal!

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Finalmente a segunda parte da versão de Chapeuzinho Vermelho está aqui para vocês! Acho que as próximas postagens não irão demorar tanto, estou planejando fazer postagens dia sim, dia não, durante todo o mês de dezembro, para colocar um pouquinho da vida em dia, antes do fim do ano!

Então, apesar de domingo não ter Scarlet por aqui, haverá post novo, é só acompanhar!

Sem mais blá blá blá, vamos à continuação, se você perder a parte I, é só conferir clicando aqui! Se quiser conhecer minhas outras histórias, é só clicar aqui ou na aba ‘Recontando Contos de Fadas‘ que fica na barra fixa do topo do blog! Boa leitura!

Scarlet: A Garota da Capa Escarlate – Parte II

Mas as palavras dela são logo entrecortadas quando Luko puxa alguns arbustos e, numa clareira banhada pelo luar é possível ver uma cabana. Nela, em si, não havia nada de fantástico ou diferente. O que faz com que Scarlet prenda a respiração é a alcateia de lobos que está em todos os lugares que seus olhos alcançam.

Alguns dos animais entram e saem de dentro da cabana, outros estão deitados na pequena varanda de madeira esburacada que circunda a frente ou próximos às árvores. Alguns, que decididamente parecem filhotes, estão brincando uns com os outros. A maior parte está descansando e deitada pelo chão de terra e grama.

– Devem ser mais de trinta, ou quarenta… – Scarlet começa a falar.

– Um pouco mais de sessenta, na verdade, contando com os filhotes.

– Mas, como isso é possível? – Ela pergunta, com o coração em disparada de euforia e medo.

– Por mais estranho que possa parecer, faço parte da alcateia. – O sorriso dele demonstra seu desconforto em resumir seu relacionamento com os animais em poucas palavras.

– Como se você fosse um lobo? – Scarlet fala, rindo. Mas, como Luko apenas assente com a cabeça, com um sorriso envergonhado, ela para de rir. – Eles o seguem, ou algo assim?

– Sim, seguem meus comandos e me acompanham por onde quer que eu vou.

– Isso é incrível, Luko! – A voz de Scarlet sai mais alta e os lobos mais próximos levantam suas cabeças em alerta. Um deles dá um latido, que deixa todos os demais em alerta, em direção ao local em que ela e Luko se encontram.

– Já sabem que cheguei. Quer conhecê-los?

– Conhecê-los? Fala como se eles fossem cães domesticados.

– Bem, não exatamente. São selvagens, mas respeitam a mim.

– E não vão entender que sou uma intrusa?

– Não se vier comigo. – Luko fala e estende sua mão.

Scarlet sente um frenesi ao tocar a mão de Luko, que se estende da palma de sua mão por todo seu corpo.

Passando entre os arbustos que formam junto das grossas árvores de carvalho, Luko guia Scarlet por uma pequena entrada para a clareira.

Os primeiros lobos a se aproximarem fazem com que o coração de Scarlet bata apertado no peito e prenda a respiração. Luko segura mais firmemente sua mão ao notar seu medo.

– Aqui, Skyllar. – Luko fala.

Um dos maiores lobos dentre todos que estão ao seu redor, se destaca e caminha com passos leves e certeiros na direção de Luko. O animal se aproxima e fica parado em frente à Luko, como se aguardasse uma ordem.

– Essa é Scarlet, diga oi para ela Skyllar. – O lobo uiva em resposta e logo todos os outros o acompanham.

O coro não é prolongado e, assim que eles terminam, Skyllar se aproxima de Scarlet e lhe cheira os tornozelos e as pernas.

– Posso tocá-lo? – Boa parte do medo que sentira já a abandonara e a garota se curva sobre seus próprios joelhos, estendendo a mão para tocar o lobo, que recua alguns passos e começa a rosnar.

– Skyllar, ela é amiga. Comporte-se! – A voz de Luko não se altera na altura, mas é firme.

O lobo silencia e logo sai de perto de Scarlet.

– Bem, talvez tenha sido muito, para um primeiro encontro. – Ela fala, rindo e apertando com força as mãos que começaram a tremer sob a ameaça do animal.

– Me desculpe, mas não os controlo tanto assim.

– Está tudo bem. – Scarlet fala, cruzando os braços para disfarçar o tremor que ainda não a abandonara.

– Me desculpe, eu nem percebi o quanto esfriou. Permita que eu lhe prepare um chá antes de partirmos. Creio que se sentirá melhor.

Scarlet sabia que ainda faltavam horas para o amanhecer e, já que ela passaria o dia com sua avó, não haveria problema em se atrasar um pouco.

– Claro, obrigada.

Os dois se dirigem para dentro da cabana. Adentrando, Scarlet se surpreende. O local está limpo e organizado. Não há muita mobília, mas bem mais do que ela esperava.

– De onde veio tudo isso? – Scarlet pergunta, enquanto Luko reaviva as chamas fracas da lareira para então colocar uma chaleira de ferro batido para esquentar a água.

– O que, os móveis?

– Sim, são bonitos. – Ela fala, passando os dedos sobre os intrincados da madeira da mesa.

– Comprei em um leilão da cidade por uma bagatela.

– Você esteve na cidade?

– Sim, mas devo confessar que a vila e a floresta são bem mais encantadoras.

– E como é a cidade?

– Nunca esteve lá? – Luko a encara, com curiosidade.

– Bem, quando só se pode sair à noite, suas opções ficam um pouco limitadas.

– Ah, é verdade. Me desculpe a insensatez.

– Não por isso, gosto da vida aqui, apesar de ter curiosidade com o que mais o mundo pode ter.

– Não acho que esteja perdendo grandes coisas, Scarlet. O mundo parece grande e bonito à primeira vista, mas nem sempre o é.

Scarlet pensa ver uma sombra passar nos olhos de Luko quando ele diz essas palavras. Não saberia dizer qual a razão, mas contêm-se em perguntar, ao perceber que ele desviara seu olhar.

– Então, como os conheceu? – Scarlet diz, apressadamente.

– Quem? – Luko demonstra a confusão.

– Os lobos, é claro. Ninguém fica amigo deles da noite para o dia.

– Ah claro! – Ele responde, rindo. – Na verdade, de onde eu venho, temos muitos lobos que trabalham com os homens, em vários ofícios. Puxando trenós, trabalhando na neve.

– Não temos trenós por aqui, nunca vi um, na verdade. O que é?

– É como uma carruagem, mas que é feita para andar na neve. Com extensas madeiras planas que deslizam sobre a neve no lugar de rodas.

– Faz sentido, uma carruagem para neve. Deve ser emocionante andar em uma dessas. – Ela fala sorrindo e tentando imaginar em sua mente uma carruagem para neve puxada por lobos. O que a faz rir.

– Sou engraçado?

– Bem, é, quero dizer, não. É mais a ideia do trenó em si que é difícil de colocar em minha mente. Quando neva, muita coisa se torna impossível de ser feita, já que não temos trenós aqui e as carruagens e os animais não conseguem andar no gelo ou na lama que se forma quando a neve começa a derreter.

– Aqui está. – Luko coloca uma caneca em frente à Scarlet e despeja um líquido manchado por folhas moídas dentro dela.

Ela sente o cheiro e é como se o calor percorresse todo seu corpo.

– Delicioso, mas não reconheço o sabor. – Ela diz, depois de um longo gole.

– Trouxe estas ervas da minha terra, chamam-se lobeiras.

Scarlet ri.

– Lobeiras, como flores de lobo?

– Precisamente. Não as vi crescer por aqui, mas são muito abundantes de onde vim.

– São deliciosas.

O silêncio recai sobre os dois, sentados próximos às chamas do fogão e Scarlet sente que deve ir embora. A esta altura, faltavam, no máximo, duas horas para o amanhecer e não seria bom ser pega por ele o restante de seu caminho.

– Preciso ir. Está ficando tarde, melhor, muito cedo e ainda preciso caminhar um bocado para chegar à casa da minha avó.

Luko a encara e demora alguns segundos para responder.

– Claro, eu a acompanho até a trilha novamente.

Scarlet levanta-se apressada até que dá de cara com um lobo, que tem o pelo extremamente claro, que poderia facilmente se ocultar num dia de neve, parado à porta, lhe impedindo a passagem.

Quando ela se volta para se afastar do animal, seu corpo inteiro bate contra Luko. Um novo arrepio corre por todo seu corpo, despertando novamente as sensações desconhecidas. Ela se vira e seu corpo fica ainda mais próximo ao de Luko, que a encara intensamente.

– Me desculpe, eles ficam no caminho às vezes… – Ele diz isso, mas sua voz some antes que a frase seja completada quando as mãos de Scarlet repousam em seu peito.

Ele aproxima seu rosto de Scarlet até que seus lábios finalmente se tocam. Ela sente seu coração pulsar em seu peito, como se desejasse libertar-se do cárcere e seus lábios recebem os dele de bom grado, apenas percebendo o quanto ansiava por eles quando se tocam.

As mãos de Scarlet sentem o calor do corpo de Luko exalando pelo tecido fino de sua camisa, uma das mãos dele está com os dedos enganchados em seus vastos cabelos alaranjados e a outra em sua cintura, deixando que ambos permaneçam próximos um do outro.

Seu coração bate tão forte que ela o ouve ressoar em seus ouvidos e, deliberadamente, ela abafa os pensamentos de que não podia prolongar sua estadia, já que deveria percorrer o trajeto até a casa de sua avó antes que o primeiro raio de sol ascendesse.

Scarlet não sabe bem como deu os próximos passos, tudo que estava ao seu redor desaparecera, a casa, os móveis. Apenas o que ela sente e tem noção é de seu corpo e do de Luko, a batida de seus corações. Com cuidado, Luko a despe de sua capa e vestido e, Scarlet, apesar do que imaginara, não se sente constrangida. Está ansiosa e tudo que deseja é que ele toque cada parte de seu corpo, até aquelas que nem mesmo ela conhece tão bem.

***

– Ficarei em apuros. – Scarlet está deitada ao lado de Luko, seus corpos ainda entrelaçados um ao outro.

– Porque diz isso? – Luko pergunta, enquanto seus dedos brincam com uma mecha de cabelo cor de fogo da garota.

– Eu deveria estar com a minha avó a esta altura e, agora, o sol já saiu. Não poderei vê-la e minha mãe me aguarda ao entardecer.

– Pensaremos nisso mais tarde, descanse. – Ele diz, dando-lhe um beijo intenso nos lábios.

Scarlet cai em um sono profundo, sonhando com uma terra distante, repleta de lobos e homens de aparência similar à de Luko.

Quando desperta, está sozinha na cama, coberta por uma colcha pesada, feita de lã. “É um artigo caro, para um viajante.”, ela pensa. Vendo seu vestido dobrado em um canto do quarto, ela se levanta e começa a vesti-lo. Quando termina, vai até o outro único cômodo da cabana, mas além de um lobo não muito grande deitado embaixo da pequena mesa, não há sinal de Luko.

– Luko? – O som de sua voz faz com que o lobo acorde e saia rapidamente pela porta entreaberta. – Luko?

Não há resposta e o calor do sol indica que o dia ainda está na metade. A porta está quase toda aberta e Scarlet tenta se aproximar ao máximo sem chegar até onde o sol toca a madeira descascada do chão, para tentar ver melhor o lado de fora.

Nenhum movimento do lado de fora, mesmo os lobos não estavam lá, nem mesmo o que acabara de escapar da casa.

Ora, onde pode ter ido? E me deixado aqui sozinha…“. Scarlet não sabia ao certo o que pensar. E, a ideia de que Luko poderia ter partido lhe parece muito absurda, então, ela resolve afastar tal pensamento de sua cabeça antes mesmo dele tomar forma.

Os minutos se arrastam até que o sol começa finalmente a dar os primeiros indícios de que iria dar lugar à noite.

“Bem, ainda faltam umas duas horas para que eu possa sair, mas depois de passar uma entediante tarde sozinha, em uma casa que não é a minha, parece aceitável.“.

A garota então veste sua capa preta e deixa sua cesta com os alimentos que levaria para sua avó em cima da mesa e, neste momento, Luko chega à porta, causando-lhe um susto, que a faz gritar e, em seguida, começar a rir.

– Me desculpe, não queria assustá-la. – Luko diz, sem saber se poderia rir ou não.

– Imagine! Eu estava distraída, digo, concentradamente distraída. – Ela diz sorrindo.

– Achei que voltaria antes que acordasse, sinto muito.

– Ah, eu geralmente durmo o dia todo, mas… acordei não tem muito tempo.

– Mesmo? – Luko pergunta com um ar desconfiado em seu rosto, erguendo uma de suas sobrancelhas.

– Não, na verdade acordei pouco depois do meio dia.

– Nossa! Eu realmente sinto muito. Depois que fechei as janelas para que o sol não a atingisse, fui ao mercado da cidade.

– Não tem problema, de verdade. Geralmente costumo dormir mais do que isso.

Luko se aproxima de Scarlet, sorrindo e a segura pela cintura. Quando se beijam, ela esquece toda a tarde tediosa e o tempo que passou sozinha, relembrando os momentos íntimos que compartilharam.

– Deve estar faminta, eu trouxe pão e frutas do mercado e… – Luko a encara e ela repara como seus olhos são profundos e parecem esconder algo que a superfície não deseja revelar. “Ou talvez eu só esteja imaginando coisas...”, ela pensa.

– Sim, estou com fome, comer não será uma má ideia. – Ela fala antes que ele termine a frase.

– Trouxe algo para você, quando vi achei que combinaria perfeitamente com seus cabelos de fogo.

– Não precisava.

– Permita que eu lhe mostre primeiro, antes de recusar, sim? – Diz Luko, pegando um embrulho grande e disforme e estendendo-o em sua direção.

Scarlet pega o embrulho e o coloca em cima da mesa. Ela retira a corda fina que prende o papel grosseiro e desfaz o embrulho. Um tecido vermelho, escarlate como sangue, é revelado. O tecido exala um leve brilho que faz com que ela queira tocá-lo, é grosso, mas também suave ao toque.

– É lindo… – As palavras saem baixas.

– Experimente, acho que o comprimento lhe será o ideal.

– Experimentar? – Scarlet estende o tecido em suas mãos e percebe então que não se trata de um corte de pano, mas de uma longa capa.

Luko desamarra a capa preta de Scarlet de seus ombros e em seguida prende a nova em seu lugar. A capa desce pesadamente até o chão, arrastando-se atrás da garota como um manto. As mangas são longas e capazes de esconder até mesmo a ponta de seus longos dedos. O capuz é grande o suficiente para comportar todo seu cabelo cor de fogo e deixar-lhe a face completamente recoberta. Sob a luz fraca do entardecer que invade a janela, o tecido exibe um brilho escarlate vivo, como se fosse feito de milhões de minúsculos rubis.

– Deve ter lhe custado uma fortuna, não posso aceitar.

A expressão de Luko se entristece.

– Não é algo com que precise se importar, não me custou muito, apenas duas caças.

– Duas caças? Mas isso é muito! Duas caças é muito!

– Desculpe se a constrangi, não foi minha intenção.

Scarlet fica em silêncio. Sentia como se não devesse aceitar um presente, ainda mais assim tão caro, de um estranho… “Bem, não tão estranho assim...”. E ele parecia sincero em seu pedido, não havia nada de errado, afinal de contas.

– Obrigada, é um lindo presente. – Ela diz, por fim, sorrindo e dando um laço na amarradura da capa.

Luko lhe retribui com um sorriso que a deixa encantada, quase se esquecendo de que precisa ir embora. Mas quando ele se aproxima para beijá-la, a pouca claridade, indicando que o sol já se pôs, a traz de volta à tona. Quando seus lábios se separam, ela diz:

– Preciso mesmo ir. Vou passar na casa de minha avó, mas preciso sair de lá com tempo suficiente para voltar para casa ainda nesta noite.

– Claro. Se importa se eu a acompanhar?

– De maneira alguma.

Os dois saem da cabana caminhando lentamente no trajeto de volta a trilha que conduziria à casa da avó de Scarlet. Os lobos estão novamente ocupando todo o redor da cabana, como se lá fosse seu lugar.

– Eles ficam sempre aqui?

– Bom, eles saem para caçar e outras vezes, mas acabam sempre voltando.

Scarlet apenas assente com a cabeça. Lhe era estranha e interessante a relação de Luko para com os lobos. Eles pareciam domesticados e pacíficos naquele lugar, em nada com os lobos descritos nos ataques. Talvez sejam alcateias distintas.

Os dois caminham um tempo em silêncio até que Luko volta a falar.

– Você fica muito bem de vermelho.

– É mesmo? – Ela pergunta, corando.

– Sim, é sim. Aquela é a casa da sua avó? – Ele pergunta, apontando para uma ampla cabana que se estende no meio de uma vasta clareira.

– Exatamente… – Os dois se encaram novamente.

– Seria muito inconveniente que eu espere aqui fora você sair para então, acompanha-la até sua casa?

– Com certeza seria inconveniente. – Ela diz sorrindo, o que o deixa confuso. – Mas eu ficaria feliz se o encontrasse pelo caminho, quando sair da casa de minha avó.

Luko enfim sorri e compreende o recado. Scarlet lhe dá um rápido beijo nos lábios e parte a passos apressados e empolgados em direção à casa da avó.

Batendo três vezes na porta, ela diz:

– Vovó, sou eu, Scarlet!

– Já vou!

A avó de Scarlet era uma senhora bem ativa, mesmo com a idade já avançada, que era indicada pela cor totalmente prateada de seus cabelos e pelas rugas que mostravam que sua vida fora iniciada há muitas e muitas luas. Ela ainda caçava na floresta e realizava a venda na aldeia, mas agora, em menor escala, apenas para o seu sustento.

– Ah, que bom lhe ver vovó, meu coração estava tão preocupado! – Scarlet fala, dando um abraço bem apertado em sua avó.

– Ora, mas porque isso? Vamos, entre! – A avó olha para o lado de fora por um bom tempo e, antes de fechar a porta, pergunta: – Seu amigo não quer entrar também?

Scarlet fica sem palavras por um momento. Luko estava bem distante, não era possível vê-lo de onde elas estavam.

– Deixe de tolices, vovó, não há ninguém comigo.

– Se você o diz… – Ela fala, balançando a cabeça e enfim fechando a porta.

Só então Scarlet repara na faixa que está cobrindo o tornozelo da avó e, por isso ela usa uma bengala para se mover dentro de casa.

– O que houve com sua perna? Não me diga que foi ataca… – Ela fala enquanto desamarra sua capa e a dependura perto da porta de entrada.

– Não diga tolices, minha neta! – Fala a avó, rindo e interrompendo Scarlet. – Eu apenas me desequilibrei no rio há alguns dias e tive uma torção, nada que alguns dias aplicando unguento não resolvam.

– É que tive um sonho ruim com a senhora e fiquei com isso na cabeça… – Diz Scarlet, em tom choroso, enquanto coloca a mesa.

– Bem, está tudo bem agora. E, é sempre bom vê-la, minha neta.

– Estava com saudades também! – Diz Scarlet.

– E sua mãe, como está?

– Ah, melhorando… Mas acho que ainda precisará ficar um bom tempo com a perna enfaixada, aquele joelho sempre deu a ela muito trabalho e, depois do tombo, não sei quando e se ele voltará a ficar bom.

– É verdade, mas o que quero mesmo saber é quem é o rapaz que a trouxe aqui. – Scarlet engasga com a água que estava tomando e então encara a avó com olhos arregalados enquanto ela começa a comer normalmente uma fatia da torta.

– Você não acha que sou cega ou que não sei das coisas, não é mesmo? Não sou sua mãe, Scarlet, deixe de bobagem.

– Hum… – Scarlet não sabia ao certo por onde começar a contar sobre Luko.

– Comece pelo começo, geralmente ajuda. – Diz a avó, adivinhando a razão de sua hesitação.

Conversar com sua avó sempre fora mais fácil do que com sua mãe, Camélia, que achava que só se podia ter um amor na vida e que, quando se encontra, precisa logo se casar. Obviamente, ela sempre reprovara os namoros e flertes de Scarlet com os rapazes da aldeia.

Scarlet começa então a descrever sua última caçada, em que acertara Luko, por engano.

– Então isso significa que sua mãe acha que você passou o dia aqui. – Scarlet assente. – Então, está indo embora ainda hoje? – A avó diz mais como uma constatação. Scarlet dá um sorriso amarelo e assente com a cabeça. – Não se preocupe, não é uma reprimenda. De fato, estou afirmando para que minha memória se lembre disso, caso eu venha a conversar com sua mãe sobre sua visita. Imagino que você não vá contar para ela tudo isso, vai?

Scarlet ri antes de responder, ela sabia que a avó e a mãe eram pessoas com pontos de vista bem distintos sobre muitas coisas e que, a liberdade que tinha com a avó, estava longe de ser conquistada com sua mãe.

– Não, não pretendo. Eu cheguei aqui, fiquei aqui toda a noite, todo o dia e irei embora esta noite.

– Compreendo. E a aldeia, como está? Tem tanto tempo que não vou lá que me esqueço de como as pessoas são rasas naquele lugar. – Diz a avó, sorrindo.

– Vovó! – Scarlet fala, rindo. – Acho que estão da mesma maneira, e a filha daquela sua amiga, como é mesmo o nome dela? Dorothéia… isso, a filha se chama Dora, se casou com o filho do pastor, Igor, há três semanas.

– O que eu disse? Rasas! – A avó fala, rindo.

– Ah, queria tanto poder viver aqui com a senhora… – Scarlet fala, deixando-se abater. – Mamãe nunca compreende que lá não é meu lugar e muito menos que seria bem mais tranquilo viver aqui. Eu talvez não precisasse passar o dia enfurnada em casa.

– Bem, sabe o que penso disso. Você é sempre bem-vinda aqui, mas entendo que também não deva deixar sua mãe. Ela ficou muito abatida depois que seu pai se foi.

– Sim, é verdade. Ela nega, mas nunca mais foi a mesma e acho que nunca mais será.

– De fato. – A avó logo percebe a deixa para mudar o assunto quando lágrimas perigam apontar dos olhos de Scarlet. – Não conheço essa capa, de onde veio? Parece um tecido muito nobre. – Diz a avó, apontando para o local onde Scarlet deixara a capa dependurada, perto da porta.

– Ah, é bonita, não é? Foi meu amigo, Luko, que me deu. – Scarlet diz, com um sorriso lhe passando pelos lábios.

– Sim, bastante. Pegue-a e deixe-me vê-la de perto.

Scarlet obedece e pega a capa, levando-a para sua avó.

– Sim, é um tecido muito bom, resistente e bonito. Combina com você, foi um presente digno da realeza.

– Que bobagem vovó, ele trocou no mercado da cidade.

– Você quem diz. Já fui melhor em reconhecer essas coisas, hoje em dia não conheço muitas coisas.

– Não mesmo, a senhora sempre sabe de tudo! – Scarlet fala com carinho e sorrindo para a avó.

– Claro, se não sei, significa que não é importante! – A avó diz, rindo e Scarlet a acompanha.

As duas passam as próximas horas conversando sobre a vila e os relatos da cidade do reino, até que os ataques são mencionados.

– Bem, não vi nada de estranho por aqui, mas ouvi rumores de viajantes, de que algumas alcateias têm sido vistas se deslocando para o norte. O que não faz nenhum sentido, porque uma alcateia não vive próxima a outra e cada uma permanece em seu território. Não é época de migrar ou coisa assim.

– Não, não faz sentido mesmo. Fato é que várias pessoas alegam ter sido atacadas por lobos nas últimas luas e já temos vários caixões cheios. – A jovem conclui.

– Ainda assim, não é algo habitual. Me lembro que o último ataque de lobos fora quando eu tinha a sua idade mais ou menos. Alguns meninos se desafiaram a entrar na floresta e atacaram um lobo. Como toda a alcateia estava por perto, bem, você pode imaginar. Não sobrou muito para contar história.

Scarlet novamente encara a avó com os olhos arregalados.

– Bem, já disse demais por hoje, acho que você precisa caminhar. Para chegar a tempo em casa ou antes o suficiente para que sua mãe se preocupe.

– Sim, tem razão. – Scarlet diz, já com pesar de ter que despedir de sua avó.

As duas se despedem demoradamente e Scarlet veste sua capa novamente, carregando agora uma cesta vazia de volta para casa. Quando já se afastou alguns metros da cabana da avó, ouve sua voz soar da casa:

– Da próxima vez, convide-o para entrar!

… Continua …

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xoxo

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