Contos & Crônicas

Outra noite qualquer…

outra-noite-qualquer

Ao redor, o pio da coruja é o único som que reverbera pela noite junto ao farfalhar do vento na copa das árvores.

Tudo o mais está parado, pacífico. Nenhuma alma viva à espreita, nenhum ser a volta.

Os passos dos meus pés na corrida são abafados pelo amortecedor do tênis. São praticamente imperceptíveis.

Minha respiração já está acelerada, mas nada fora do normal. Mantenho o ritmo de sempre com o calor do exercício se espalhando por todo meu corpo e a batida compassada do meu coração fazendo coro a melodia de Owl City.

O céu mostra sinais da tempestade que está por vir, mas nada que não faça jus à esta época do ano.

Meu relógio apita indicando a hora. 22h50. Estou passando, como sempre, em frente à casa abandonada em estilo barroco que serve de abrigo aos desabrigados.

Uma luz tremeluzente vem de dentro da casa, indicando uma possível fogueira para afastar o frio da noite. Enquanto isso, pingos grossos de chuva começam a retumbar em minha cabeça.

Mantenho o ritmo da corrida. Faltam apenas mais dez minutos.

Passo pela avenida movimentada e, a esta altura, a chuva já me deixou encharcada, com a roupa grudando ainda mais em meu suor.

Meus pés batem em uma poça de água, mas nada para, nada muda. Todos os meus planos foram devidamente alcançados, consegui esconder meu aniversário de todos do meu serviço e, por algum milagre, ninguém da minha família mandou um incômodo cartão ou presente ao serviço, que me denunciassem.

Aniversários são como vício, uma vez que se fala sobre, as pessoas repetem ano a ano as mesmas bobagens que, no fim das contas, não mudam em nada sua vida.

O velho no terceiro andar do prédio da esquina da minha rua permanece parado, inerte. Como se, estando estático, nada ao seu redor fosse capaz de mudar.

De fato, nada o é. Faltam apenas mais alguns metros a frente.

As corujas estão piando mais baixo, acopladas no alto da banyan que ocupa todo o passeio e parte do terreno de uma das casas do outro lado da rua.

Pego as chaves de casa presas na cintura da calça e subo os degraus da porta de entrada.

O trinco dá o clique quando é destrancado e fecho a porta atrás de mim.

Sigo no escuro, até trombar em algo e ouvir um sonoro ‘- Ai!’. Imediatamente, como o som não fui eu quem fiz e, afinal de contas, eu moro sozinha, grito escandalosamente um prolongado ‘- Ahhhh…’ enquanto corro até o interruptor.

Não preciso chegar lá. A luz é acendida antes disso.

Minha sala está abarrotada de pessoas por todos os cantos, cheia de balões de gás colorido espalhados no teto, velas são acendidas e ouço um sonoro e num coro desencontrado: ‘- Surpresa!’.

Começo a rir que nem boba, porque, afinal, pensei que coisas bem piores estavam a meu aguardo.

E, talvez, não, não seja tão ruim assim, uma surpresa quando tudo o mais parece seguir o mesmo fluxo tipicamente imutável e decifrável…

“Nossas vidas são definidas por momentos. Principalmente aqueles que nos pegam de surpresa.” Bob Marley

13606756_1412361312107551_1057627518424269473_n

Este texto foi escrito para o desafio do grupo Interative-se! Recebi uma palavra, que foi ‘surpresa’ e uma imagem, que é essa corujinha fofa daí de cima. Acabou que a palavra surpresa coincidiu bem com a ideia de ‘novidade’ que a imagem me passou (além do grau extremo de fofura… rsrsrs).

Photo Woman Running in Rain via Francesco Gallarotti via VisualHunt

14 Comments

  1. Oii Renata. Vim aqui conhecer o seu cantinho tambem e me deparei com um blog BEM diferente. Eu adorei tudo. O conteudo que voce traz.. o template.. a organizacao. Etc. Ja te adcionei no meu Feedly e vou te acompanhar. Beeeijos
    http://www.verdadeescrita.com

    1. Oi Rebeca! Obrigada pela visita e por seguir! Eu tento ao máximo sair do meu lugar comum e trazer coisas diferentes para as pessoas! <3

  2. Misantropiza says:

    Olha, você me surpreendeu. Associar essa palavra a uma coruja foi de uma criatividade sublime. E com ligas realmente fortes.

    1. Obrigada!!! <3 <3 <3 Adoro escrever e ler coisas assim me deixa muito contente e motivada! <3

  3. Ah adorei,eu jamais conseguiria criar algo com essa palavra e a imagem,sério,rs.parabéns!!!!

    1. Obrigada Vivian!!! Claro que consegue, é só tentar e não desistir!!! rsrs <3 <3

  4. Kimberly Camfield says:

    Maravilhoso como todos os outros textos que li por aqui. Eu acho que nunca conseguiria criar um texto com essa imagem e essa palavra. Foi muito bem escrito e envolvente. Beijos!
    Adorei o trechinho final : “E, talvez, não, não seja tão ruim assim, uma surpresa quando tudo o mais parece seguir o mesmo fluxo tipicamente imutável e decifrável”

    1. Muiiiiito obrigada Kim! Claro que tu consegue escrever o que e sobre o quiser! ehehe É só tentar e não desistir! Vou confessar que, do texto todo, a última frase também é a parte que mais gostei! <3 <3

  5. Quanta criatividade! Ficou perfeita essa união, amei! E parabéns (já devo ter dito isso pra você haha) você escreve muitíssimo bem!
    Beijos

    1. Obrigada Aline! Adoro escrever e é muito bom ouvir elogios assim!! <3

  6. Oi Rê, tudo bem? Ah que conto mais bonitinho. Confesso que comecei a ler e tive um pensamento, porém conforme a leitura evoluiu fui surpreendida por algo completamente diferente. Aniversário é uma data festiva para alguns, triste para outros e ainda desconfortável para algumas pessoas. Há quem não goste de envelhecer, não goste de estar no meio do barulho, e outras não sabem como agir. Essa sou eu em algumas ocasiões rs A parte da surpresa é incrível e deveria deixar todas as pessoas felizes. Deveriam simplesmente abrir o coração e aceitar as coisas boas da vida. Ótimo post. Beijos, Érika ^.^

    1. Aniversário é mesmo uma data bem contraditória… rsrs E uma surpresa boa de vez em quando, faz com que tudo fique mais alegre e feliz!!! <3
      Obrigada!!! <3
      xoxo

  7. Ahh surpresas, sendo boas , gosto mt delas, coisas que modificam ou seu dia ou o rumo da sua vida. Quem nunca passou por uma experiencia dessa. Eu sou uma pessoa que ama celebrar mais um ano de vida ao lado da minha familia e amigos, não consigo me imaginar, passando uma data como essa correndo sob a chuva, portanto amei o final do conto, e a imagem fofa da coruja.

    1. Oi Tatiane!
      Eu também gosto de surpresas boas, a nossa personagem não é muito fã nem mesmo delas… rs Feliz que tenha gostado do desfecho! 🙂
      Obrigada pela visita!
      xoxo

Repense, renove, rediscuta...